A batalha pelo fim da escala 6×1 explodiu no debate público no início de 2026, com intensas declarações vindas tanto da base aliada quanto da oposição. Enquanto o governo federal corre para emplacar a pauta como principal bandeira da campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), figuras da direita se articulam para barrar o trâmite, temendo que a vitória mude o xadrez político em ano eleitoral.
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Assunto antigo e bandeira clássica dos movimentos trabalhistas, a redução da jornada de trabalho é debatida há anos no Legislativo, sendo que ao menos 13 projetos sobre o tema já foram apresentados e arquivados desde 1995. A discussão voltou a aparecer no debate público — e talvez pela primeira vez com engajamento em massa — no ano passado, com a união do movimento “Vida Além do Trabalho” e parlamentares da base de Lula.
O receio da oposição é justificado por pesquisas que abordam o tema. Um levantamento da Nexus feito entre 30 de janeiro e 5 de fevereiro deste ano mostrou que a população que vota em Lula tende a dar grande importância para a questão, com 51% afirmando que as chances de escolher um candidato à Câmara ou ao Senado diminuiriam se ele fosse contra a Proposta de Emenda de Constituição (PEC) que trata do assunto.
No total, há quatro propostas tramitando no Congresso sobre a escala 6×1, sempre sob o princípio de “redução de jornada sem redução de salário”. A mais popular é a PEC n° 8/2025, de autoria da deputada Erika Hilton, que altera artigo da Constituição para reduzir o limite de trabalho de 44 para 36 horas semanais. O texto ainda prevê a potencial redução do expediente para quatro dias de trabalho e três de descanso. Assinada por mais de 200 deputados, a proposta já foi protocolada e atualmente está em uma subcomissão da Câmara criada especialmente para debatê-la.
O relator da comissão especial, deputado Luiz Gastão (PSD-CE), apresentou um relatório com mudanças na proposição original, sugerindo uma jornada semanal máxima de 40 horas. Caso o texto seja aprovado, ainda precisará passar pelo crivo do Senado.
Outras propostas
PEC nº 221/2019 – Apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), a proposta está parada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. O texto altera a Constituição para reduzir a jornada semanal de trabalho para 36 horas. Se aprovada, a emenda só passaria a valer dez anos após a promulgação.
PEC nº 148/2015 – Em análise no Senado desde 2015, a proposta do senador Paulo Paim (PT-RS) foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas ainda não foi votada em plenário. O texto atualmente em tramitação é um substitutivo apresentado pelo senador Rogério Carvalho (PT-SE) e prevê a redução da carga semanal de 44 para 36 horas, distribuídas em até cinco dias. A proposta estabelece um período de transição ao longo dos próximos anos e garante repouso semanal remunerado de, no mínimo, dois dias, preferencialmente aos fins de semana.
PEC nº 4/2025 – De autoria do senador Cleitinho (Republicanos-MG), a proposta reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, com possibilidade de trabalho em até cinco dias por semana. O texto também prevê descanso semanal remunerado, preferencialmente aos sábados e domingos. A matéria ainda aguarda despacho da presidência do Senado para começar a tramitar nas comissões.
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PL, União Brasil e Republicanos garantem que ‘darão a vida’ contra pauta

Antônio Rueda
Os presidentes do PL, Valdemar Costa Neto, e do União Brasil, Antonio Rueda, aumentaram o tom contra a empreitada do governo e asseguraram que farão de tudo para que a escala de seis dias de trabalho não acabe no Brasil. A declaração foi feita durante encontro com grupo de empresários, realizado na última segunda-feira, 23, na região da Faria Lima, em São Paulo, e debuta uma sinalização mais direta da oposição em relação à PEC.
“Nós vamos trabalhar para não deixar votar [a PEC 6×1], vamos trabalhar para isso, vamos dar a vida para isso.”, disparou Costa Neto. O chefe do PL ainda disse que vai se reunir com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), a fim de prevenir que a proposta de Erika Hilton não saia da CCJ.
O presidente do Republicanos, Marcos Pereira, também citou Motta como pivô da questão em entrevista dada à Folha de S. Paulo na quinta-feira, 26, contando que conversou com o correligionário sobre as preocupações acerca da redução de jornada. Ele especulou que a pauta “tiraria a competitividade das empresas brasileiras”, além de questionar se o tempo livre adicional seria usado de forma benéfica para a sociedade. “Ócio demais faz mal”, finalizou Pereira.
Rueda seguiu a mesma linha falou que é preciso “ter inteligência e perspicácia para, dentro da boa política, dentro do diálogo, tentar segurar essa proposta. Porque, se essa proposta for a plenário, ela é avassaladora”.
Até então, a mudança trabalhista angariava apoio de figuras distribuídas por diferentes espectros políticos, sendo rechaçada majoritariamente pela classe empresarial. Agora, o aceno dos líderes de centro-direita se unem ao coro de críticas do empresariado, como as do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, que afirmou que o país não teria condições econômicas de absorver o fim da escala 6×1 no curto prazo e que eventuais custos adicionais acabariam sendo repassados ao consumidor.
Governo em campanha pelo fim da escala 6×1

Deputado Guilherme Boulos
Do lado do governo e de parlamentares da base, a defesa do fim da escala 6×1 tem se apoiado tanto em apelo social quanto em dados econômicos. O Planalto inaugurou o ano de 2026 visando lançar a pauta como trunfo eleitoral na disputa de outubro, sustentando que o modelo atual de produção compromete a saúde, o convívio familiar e a qualidade de vida dos trabalhadores, além de não refletir os ganhos de produtividade acumulados nas últimas décadas.
Em publicação veiculada no Instagram na quinta-feira, 26, o governo classificou a pauta como um “avanço”, rechaçando a oposição no campo do “retrocesso”. “De um lado, interesses que querem eternizar o sofrimento de milhões de trabalhadores. Do outro, o povo que nunca recusou trabalho, mas agora quer também tempo pra viver.”, descreve o post.
Também na quinta-feira, 26, a comunicação do comando Executivo divulgou uma pesquisa da economista Marilane Teixeira, pesquisadora da Unicamp, indicando que o fim da escala 6×1 tem potencial de gerar até 4,5 milhões de novos empregos no Brasil e elevar em cerca de 4% os níveis de produtividade no país. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada já indicou que a redução teria custo similar ao de reajustes históricos do salário mínimo.
O cabo de guerra ainda foi ressoado por figuras de destaque do partido governista, como a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT). Ela classificou a cobertura da mídia em relação à mudança trabalhista como “noticiário do terror”, criticando a associação entre redução de jornada e supostos impactos econômicos negativos. Aliados argumentam que não há risco de desemprego ou crise, e que a criação de um “pânico” sobre o tema repete justificavas historicamente utilizadas contra outras conquistas sociais.
Já o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, cita exemplos globais de sucesso: a Islândia, ao reduzir sua jornada para 35 horas em 2023, registrou crescimento econômico de 5% e aumento de 1,5% na produtividade do trabalho. No Japão, um programa da Microsoft com escala 4×3 elevou em 40% a produtividade individual dos funcionários. No próprio Brasil, uma pesquisa da FGV com 19 empresas que reduziram a jornada mostrou que 72% delas registraram aumento de receita.
Boulos tem liderado o diálogo com o Congresso e garantiu, em janeiro, que há avanços concretos nas negociações para votação da PEC no primeiro semestre do ano. Porém, o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), anunciou em fevereiro que o governo enviaria um projeto de lei ao Legislativo para acabar com a jornada 6×1 de forma mais prática. A expectativa era de que o texto fosse enviado logo após o Carnaval e sintetizasse as demais propostas que tramitam nas Casas.
A preferência por um PL ao invés de uma PEC se dá pela tentativa de abreviar o trâmite do processo, já que a pauta será apresentada com urgência constitucional e por isso deverá ser analisada no limite de 45 dias. O principal problema é que a jornada de trabalho possui previsão constitucional – desse modo, um projeto de lei não pode alterar a jornada de forma definitiva, apenas regular ou limitar a escala.