Cultura

Filme sobre o aborto é favorito ao Urso de Ouro do Festival de Berlim

Filme sobre o aborto é favorito ao Urso de Ouro do Festival de Berlim

Cineasta Eliza Hittman e as atrizes Sidney Flanigan e Talia Ryder posam antes de coletiva do filme "Never Rarely Sometimes Always" - AFP

Um filme que descreve o percurso cheio de obstáculos de uma menor de idade para abortar nos Estados Unidos é o favorito neste sábado (29) ao Urso de Ouro do Festival de Berlim.

Os premiados desta 70ª Berlinale, primeiro grande festival de cinema da Europa antes de Cannes e Veneza, serão revelados a partir das 19h00 GMT (16h00 de Brasília). Será um júri presidido pelo ator Jeremy Irons que escolherá o sucessor de “Synonymes” do israelense Nadav Lapid, Urso de Ouro 2019.

Favorito dos críticos, de acordo com a revista Screen, “Never rarely sometimes always”, de Eliza Hittman, segue o caminho de Autumn (Sidney Flanigan), uma estudante do ensino médio da Pensilvânia, que vai para Nova York com a prima para abortar.

Uma jornada sem pathos, enfatizando a solidariedade feminina, com personagens masculinos mantidos à distância. A cena mais marcante do filme é aquela em que uma assistente social questiona Autumn sobre possíveis abusos que ela poderia ter sofrido, em uma escala que varia de “nunca” a “sempre”, que dá o título ao filme.

“Existem assuntos muito importantes hoje, mas temos que fazer nossas escolhas com base na história, na maneira como o filme funciona com o público”, alertou o presidente do júri, Jeremy Irons, questionado em preâmbulo do movimento #MeToo.

Após o ressurgimento de uma entrevista em que ele fez comentários considerados sexistas, Irons aproveitou o primeiro dia do festival para expressar seu total apoio ao direito ao aborto, ao casamento gay e aos movimentos que defendem as mulheres contra o assédio.

Se Eliza Hittman ganhar o Urso de Ouro, será a sétima mulher na história da Berlinale a receber essa distinção, confirmando a ideia de um festival trabalhando para uma representação mais feminina.

Mas a competição é dura, com outros trabalhos que causaram forte impressão como “Rizi”, do taiwanês Tsai Ming-liang, que entregou um filme sem diálogos sobre o encontro entre dois homens com seu ator favorito Lee Kang-Sheng.

Fábula aquática e história de amor, “Undine”, do alemão Christian Petzold, com Paula Beer, e Franz Rogowski seduziu a Berlinale, bem como “First Cow” da americana Kelly Reichardt. Figura do cinema independente, ela revisita os códigos do Velho Oeste com uma história de amizade entre dois homens no Oregon (noroeste dos Estados Unidos) em 1820.

A surpresa também pode vir de “DAU. Natasha”, muito controverso por causa de suas cenas de sexo e violência. O filme sulfuroso do russo Ilya Khrzhanovsky faz parte do seu monumental projeto experimental DAU, onde filmou 400 voluntários por dois anos em uma réplica de uma cidade científica soviética na Ucrânia. Uma experiência que deu origem a quinze filmes focados na experiência totalitária.

“A maioria das cenas de todo o projeto é ‘hardcore’, não apenas neste filme”, alertou Carlo Chatrian, o novo diretor artístico da Berlinale, em conjunto com Mariette Rissenbeek.

A dupla substituiu o alemão Dieter Kosslick, depois de 18 anos no comando, e na tentativa de ampliar a diversidade.

Esta 70º edição também é marcada por revelações sobre o passado nazista de um ex-diretor da Berlinale, que forçou os organizadores a transformar o Prêmio Alfred-Bauer em Urso de Prata.