O filme paraguaio ¿Quién Mató a Narciso? conquistou o prêmio de melhor longa sul-americano no festival de cinema Bonito CineSur, conforme decisão do júri oficial. A cerimônia de encerramento ocorreu na noite de sábado (1º) no Centro de Convenções, em Bonito (MS), marcando o reconhecimento da produção.
O que aconteceu
- O filme paraguaio ¿Quién Mató a Narciso? foi eleito o melhor longa sul-americano pelo júri oficial do festival Bonito CineSur, em Mato Grosso do Sul.
- A produção narra a história inspirada no assassinato de Bernardo Aranda, locutor de rádio homossexual ocorrido em 1959, durante a ditadura de Alfredo Stroessner.
- Outro destaque foi o diretor colombiano Alejandro Calderón, que recebeu três prêmios, incluindo o de melhor curta e longa de cinema ambiental, com foco na preservação dos páramos.
Dirigido por Marcelo Martinessi, ¿Quién Mató a Narciso? é baseado no livro Narciso, do jornalista paraguaio Guido Rodríguez Alcalá. A obra cinematográfica resgata um período sombrio da história paraguaia, trazendo à tona questões sociais e políticas.
A história por trás do filme premiado
O livro Narciso inspira-se no assassinato de Bernardo Aranda, ocorrido em 1959. Aranda era um jovem locutor de rádio homossexual, conhecido por seu amor ao rock and roll, que foi brutalmente queimado enquanto dormia.
Embora o crime nunca tenha sido solucionado oficialmente, a Comissão da Verdade e Justiça paraguaia sugere que o assassinato pode ter sido orquestrado pelo governo militar da época. O caso de Aranda é um símbolo das violên;cias e perseguições da ditadura.
A ditadura de Alfredo Stroessner, considerada a mais longa da América do Sul, durou 35 anos e foi marcada por graves violações de direitos humanos. Dados de 2003, divulgados pela Comissão da Verdade e Justiça, revelam quase 20 mil prisões arbitrárias, 59 execuções, 336 desaparecimentos e cerca de 19 mil pessoas torturadas. Além disso, 3.470 indivíduos foram exilados, sendo grupos como o LGBT+ entre os mais afetados, como no caso de Aranda.
O ator Diro Romero, que interpreta Narciso no filme, expressou sua satisfação com o prêmio. “De verdade, este prêmio proporciona um desfecho mais do que lindo”, disse Romero. “Todos queremos colaborar e continuar contando histórias. Valorizamos nossas narrativas e acreditamos que é preciso contá-las e mostrá-las ao mundo. Temos muito a contar, muitas mensagens a transmitir.”
Por que ditaduras não devem ser esquecidas?
Em entrevista à Agência Brasil logo após a premiação, Diro Romero reforçou a importância de narrar a história das ditaduras sul-americanas. O objetivo é assegurar que tais regimes jamais se repitam, mantendo viva a memória dos eventos passados.
“Dizemos que a ditadura terminou há vários anos, mas não somente sentimos que há indícios de que ela segue entre nós, como também estamos começando a ter certos sinais no mundo para os quais temos que estar alertas. Então, este é o momento de abrir os olhos e nós, através do cinema, vamos fazer com que isso não chegue novamente no futuro”, destacou o ator.
Destaque ambiental no Bonito CineSur
Outro grande premiado da noite no Bonito CineSur foi o diretor colombiano Alejandro Calderón, que levou para casa três estatuetas. Ele conquistou o troféu de melhor curta-metragem de cinema ambiental com Hipopótamos, el Arca de Escobar, escolhido pelo júri.
Além disso, Calderón foi duplamente premiado pelo longa-metragem Páramos II: El Origen. Este documentário foi reconhecido tanto pelo público quanto pelo júri oficial como o melhor filme de cinema ambiental. A obra reúne especialistas para discutir a formação dos ecossistemas de páramos e sua importância hídrica, alertando sobre os riscos da exploração por mineração, monocultura e pecuária.
“Isso é incrível [ser premiado]. Sinceramente, nunca imaginei que isso aconteceria. Estou muito empolgado e isso é também uma recompensa pelos anos de esforço da equipe viajando pela Colômbia, atravessando montanhas, páramos e rios, enfrentando muitas dificuldades e perigos, pois esse é um trabalho de alto risco”, disse ele à reportagem.
Ao receber os prêmios, Alejandro Calderón prestou homenagem a 150 ativistas ambientais colombianos assassinados nos últimos três anos. “A Colômbia é o país com o maior número de assassinatos de líderes ambientais – pessoas que dependem do meio ambiente”, declarou em seu discurso.
O diretor ainda ressaltou que muitos líderes retratados em seus filmes enfrentam ameaças e buscam visibilidade como forma de proteção. Eles desejam que o mundo saiba quem são e o que fazem, incentivando a colaboração em sua defesa.
O futuro do cinema sul-americano
Em sua quarta edição, o Bonito CineSur exibiu 32 filmes de dez países sul-americanos, abrangendo curtas e longas. O festival também ofereceu aulas, debates, atividades de formação, encontros com realizadores e sessões especiais em homenagem à atriz Paulina Garcia e aos cineastas Vincent Carelli e Luiz Puenzo.
Para as próximas edições, o diretor do festival, Nilson Rodrigues, manifestou a expectativa de reunir ainda mais países sul-americanos. O objetivo é formar um bloco robusto para a produção e divulgação audiovisual regional.
“Nós precisamos ser um bloco, precisamos criar condições para circular os nossos produtos entre nossos vizinhos. Se a Europa se transformou em um bloco, quando circulam produtos, pessoas e a economia se desenvolve, nós também haveremos de ser um bloco, na América do Sul. Mas cedo ou mais tarde nós seremos”, afirmou Rodrigues durante a cerimônia de premiação.
Rodrigues acrescentou a importância do engajamento institucional para fomentar mais coproduções e codireções. Ele planeja convidar ministérios da Cultura e organizações desses países para criar programas bilaterais ou multilaterais, visando maior conhecimento mútuo e a presença de suas histórias nas telas de cinema.
Confira os premiados do festival
Confira a lista com todos os filmes premiados pelo festival Bonito CineSur:
Melhor filme sul-mato-grossense
- Higa Ke – Olho por Olho (escolhido pelo júri popular)
- Natasha (escolhido pelo júri oficial)
Melhor curta de cinema ambiental
- Buen Vivir – Ñutse Canseye, do Equador (escolhido pelo júri popular)
- Hipopótamos, el Arca de Escobar, da Colômbia (escolhido pelo júri oficial)
Melhor longa de cinema ambiental
- Páramos II: El Origen, da Colômbia (escolhido pelo júri popular)
- Páramos II: El Origen, da Colômbia (escolhido pelo júri oficial)
Melhor curta sul-americano
- A Vida de Jerônimo Dentro e Fora da Casca, do Brasil (escolhido pelo júri popular)
- Sukua, da Colômbia (escolhido pelo júri oficial)
Melhor longa sul-americano
- Naira, do Peru (escolhido pelo júri popular)
- ¿Quién Mató a Narciso?, do Paraguai (escolhido pelo júri oficial)
*A repórter viajou a convite do Bonito CineSur