Edição nº2556 14/12 Ver edições anteriores

Filho de uma dicotomia

Não resta dúvida, o momento está muito longe de sugerir bom senso. Segundo os resultados das últimas pesquisas, o povo quer mesmo é briga. Das duas uma: deseja manter no poder um grupo comprovadamente corrupto e com tendências autoritárias; ou quer acreditar que alguém jamais testado em qualquer cargo executivo será capaz de tirar o país da maior crise de sua história. Sem mencionar, é claro, que este último também flerta abertamente com ideais inconcebíveis em um ambiente democrático.

Contudo, aquela que talvez seja a principal relação possível de ser feita entre as candidaturas de Fernando Haddad e Jair Bolsonaro transcende a capacidade gerencial, os riscos que ambas representam para a nossa democracia e toda sorte de receios responsáveis pelos índices de rejeição que acumulam. Tem a ver com filosofia. Com a maneira de fazer as coisas.

O Partido dos Trabalhadores pode até não vencer esta eleição, mas a disparada de Haddad na segunda colocação das intenções de voto, mesmo após tantos escândalos capitaneados pelo partido e a prisão de figuras históricas, inclusive a do próprio Lula, apenas reafirma o sucesso do modelo petista de fazer política. Tanto é assim que ele foi espelhado por Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

É como se uma parte da nossa sociedade, cansada de ver a ineficiência do PSDB em fazer frente ao petismo, capitulasse. E não apenas desistindo dos tucanos, mas assumindo que a única maneira de derrotar o PT seria copiando as suas táticas. As mesmas táticas, diga-se, durante tanto tempo criticadas.

Hoje, a falta de coerência nos argumentos não é mais uma característica exclusiva do petismo. Muito menos o comportamento irracional da militância. Aliás, a agressividade dos bolsonaristas ferrenhos deve fazer inveja, até mesmo, aos petistas mais radicais.

No aspecto da candidatura propriamente dita, então, Lula e grande elenco jamais enfrentaram um adversário tão parecido. Nacionalista, cooperativista, inábil na arte de construir alianças e sem a menor experiência em um cargo tão importante, Bolsonaro poderia muito bem servir como um poste para o petismo, como foi Dilma Rousseff. Não por acaso, foi pinçado por seus detratores.

A vitória final do bolsonarismo pode até não acontecer, mas, para o desespero de milhões, existe uma grande probabilidade que ele perdure mesmo se for derrotado. É filho de uma dicotomia. Cópia de um padrão perverso.

A falta de coerência nos argumentos não é mais característica exclusiva do petismo, nem o comportamento irracional da militância.


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