Filha de Marielle Franco denuncia ataques racistas em grupo ligado à PUC-Rio

Luyara Franco cobra investigação após comentários ofensivos contra a mãe em grupo de WhatsApp; universidade confirma apuração interna e repudia discriminação

Filha de Marielle Franco denuncia ataques racistas em grupo ligado à PUC-Rio

Luyara Franco, filha da vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018, denunciou nas redes sociais comentários racistas direcionados à memória de sua mãe em um grupo de WhatsApp que reuniria integrantes da comunidade acadêmica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

A denúncia ganhou repercussão nesta sexta-feira (30) e provocou uma manifestação oficial da universidade, que confirmou ter recebido relatos sobre o episódio e anunciado a abertura de uma investigação interna.

Segundo Luyara, uma pessoa teria utilizado uma expressão racista para se referir à ex-vereadora e questionado como ela havia conseguido pagar os estudos universitários.

Marielle cursou Ciências Sociais na PUC-Rio e construiu uma trajetória marcada pela atuação política, pela defesa dos direitos humanos e pelo combate às desigualdades sociais.

A filha da parlamentar classificou o episódio como mais uma tentativa de atingir a memória da mãe, mesmo após seu assassinato.

Luyara Franco cobra respeito e responsabilização

Em publicação compartilhada com o Instituto Marielle Franco, Luyara manifestou indignação com os comentários atribuídos a participantes do grupo.

Ela afirmou que os ataques representam uma nova manifestação de racismo contra a memória da ex-vereadora.

A filha de Marielle também cobrou providências da universidade e a identificação dos responsáveis pelas ofensas.

Em seu posicionamento, Luyara destacou que a mãe era uma mulher negra que conquistou espaço no ambiente universitário por meio de sua dedicação aos estudos e de seu compromisso com a transformação social.

Para ela, os ataques não podem ser tratados como brincadeiras ou simples manifestações de opinião.

A publicação também ressaltou que o racismo constitui crime e que a memória de Marielle deve ser respeitada.

 

Comentários questionaram trajetória acadêmica de Marielle

De acordo com a denúncia, uma das mensagens teria utilizado o termo racista “macaca” para se referir à ex-vereadora.

O autor também teria questionado como Marielle conseguiu custear sua formação universitária.

As declarações foram interpretadas por Luyara como ataques à trajetória acadêmica e pessoal da mãe.

Marielle Franco estudou na PUC-Rio, instituição em que se formou em Ciências Sociais.

Sua passagem pela universidade fez parte de uma trajetória que começou no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, e posteriormente ganhou projeção nacional e internacional.

Antes de ser eleita vereadora, Marielle desenvolveu trabalhos relacionados aos direitos humanos e à defesa de populações socialmente vulneráveis.

A parlamentar foi eleita para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 2016, tornando-se uma das mulheres mais votadas daquela eleição.

 

PUC-Rio confirma investigação interna

Após a repercussão da denúncia, a PUC-Rio informou que recebeu relatos sobre os comentários por meio de seus canais institucionais.

Segundo a universidade, as manifestações foram encaminhadas tanto à Ouvidoria quanto ao Canal Externo de Denúncias.

A instituição confirmou a abertura de uma investigação interna para esclarecer as circunstâncias do episódio.

O procedimento deverá avaliar os fatos relatados e identificar eventuais responsabilidades.

A universidade afirmou que poderá adotar medidas administrativas e legais, conforme os resultados da apuração.

Em nota, a PUC-Rio declarou repudiar qualquer manifestação discriminatória, incluindo racismo e injúria racial.

A instituição também informou que divulgou um comunicado à comunidade universitária, reafirmando seu compromisso com uma educação antirracista e com a preservação da memória de Marielle Franco.

Até o momento, não foram divulgadas informações conclusivas sobre a identidade dos responsáveis pelas mensagens.

Racismo é crime previsto na legislação brasileira

A denúncia também reacendeu o debate sobre a responsabilização por manifestações racistas em ambientes digitais.

No Brasil, o racismo é considerado crime inafiançável e imprescritível pela Constituição Federal.

Isso significa que a infração não admite fiança e que a possibilidade de responsabilização criminal não desaparece com o passar do tempo.

A legislação prevê penas de reclusão e multa, conforme a conduta praticada e as circunstâncias do caso.

Desde 2023, a injúria racial passou a ser expressamente tratada como modalidade do crime de racismo pela Lei nº 14.532.

Mensagens publicadas em grupos de aplicativos também podem ser utilizadas como elementos de prova em investigações.

A eventual responsabilização criminal, entretanto, depende da apuração dos fatos pelas autoridades competentes.

Memória de Marielle já havia sido alvo de ofensas neste mês

A denúncia de Luyara acontece poucas semanas depois de outro episódio envolvendo manifestações ofensivas contra Marielle Franco.

No dia 13 de outubro, apoiadores do então candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) fizeram comentários sobre o assassinato da vereadora durante um ato político nas proximidades da PUC-Rio.

Vídeos divulgados nas redes sociais mostraram participantes ironizando a morte da parlamentar.

Em uma das gravações, um manifestante fez comentários depreciativos sobre o destino de Marielle após sua morte.

O episódio provocou críticas e manifestações de repúdio.

Na ocasião, Luyara Franco e a irmã de Marielle, Anielle Franco, também se pronunciaram publicamente em defesa da memória da ex-vereadora.

Os dois episódios ampliaram a discussão sobre a persistência de ataques racistas e manifestações de violência política contra mulheres negras.

Assassinato de Marielle Franco ocorreu em 2018

Marielle Franco foi assassinada em 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro.

A vereadora voltava de um encontro político quando o veículo em que estava foi atingido por disparos.

O motorista Anderson Gomes também morreu no ataque.

O crime provocou repercussão nacional e internacional e se tornou um dos casos mais emblemáticos de violência política no Brasil.

As investigações identificaram os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz como executores do assassinato.

Os dois confessaram participação no crime e foram condenados em 2024.

A investigação também alcançou suspeitos de envolvimento no planejamento e na organização do atentado.

Justiça condenou outros envolvidos no crime

Em 2026, o Supremo Tribunal Federal manteve condenações de outros cinco acusados de participação no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Entre os condenados estão os irmãos Domingos Brazão, ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, e Chiquinho Brazão, ex-deputado federal.

Também foram condenados Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil fluminense; Ronald de Paula, major da Polícia Militar; e Robson Calixto, ex-policial militar.

O avanço das investigações e dos processos judiciais representou uma etapa importante na busca por responsabilização pelo assassinato.

Apesar das decisões judiciais, a memória de Marielle continua sendo alvo de ataques e disputas políticas.

Família reforça compromisso com a memória de Marielle

A nova denúncia ocorre em um contexto no qual familiares e organizações ligadas à ex-vereadora continuam atuando para preservar sua trajetória.

O Instituto Marielle Franco desenvolve iniciativas relacionadas à defesa dos direitos humanos, à participação política de mulheres negras e ao enfrentamento da violência.

Para Luyara, os comentários atribuídos a integrantes do grupo de WhatsApp representam uma tentativa de desrespeitar não apenas a memória da mãe, mas também sua história de superação de desigualdades.

A família cobra que a universidade investigue o episódio e adote as providências cabíveis.

A PUC-Rio, por sua vez, afirma que a apuração interna está em andamento.

O caso reforça o debate sobre racismo em instituições de ensino e sobre a necessidade de combater manifestações discriminatórias, inclusive em ambientes digitais.

Da IstoÉ e Agência Brasil