Virginia Fonseca, 26 anos, contou que sua primogênita, Maria Alice, de apenas 4 anos, parou de comer chocolate preto por conta de dores de cabeça. Em uma série de vídeos publicados nos Stories do Instagram, na última terça-feira, 3, a influenciadora mostrou o momento em que a família comia pizzas preparadas em casa por um pizzaiolo, e contou que concluiu, no cardápio doce, o sabor chocolate branco em vez do preto, e expôs a condição da herdeira.
“Mariazinha parou de comer chocolate preto porque estava dando dor de cabeça e foi muito fofinha porque eu só falei assim: ‘Maria, a mamãe também sente dor de cabeça quando come chocolate preto, por isso eu só como o branco’. E antes ela não comia o branco de jeito nenhum e começou a comer. Ela é muito determinada quando é para se cuidar”, disse Virginia em uma das postagens.
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Essa não é a primeira vez que a empresária fala sobre suas dores de cabeça. Ela já compartilhou diversos relatos sobre suas crises de enxaqueca, doença neurológica crônica que afeta cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), e é considerada a segunda principal causa de anos vividos com incapacidade.
“A doença é genética, com cerca de 180 loci (locais no código genético) que predispõem à doença, mas existe também uma questão hormonal. Hormônios como o estrogênio influenciam na sensibilidade e prevalência dos sintomas. Por isso, é mais comum em mulheres. E crianças sofrem muito porque muitas vezes as dores são invalidadas, tratadas como ansiedade, medicadas de maneira errada, com remédios que muitas vezes mascaram a doença”, ressalta o *Dr. Tiago de Paula, neurologista especialista em Cefaleia, membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC).
Dada à sua gravidade, não é possível sentenciar que a alimentação pode ser a única responsável por tratar a enxaqueca. Mas fatores epigenéticos, isto é, do ambiente em que a pessoa está inserida, possuem um impacto importante na evolução da doença. “A alimentação pode favorecer uma piora da enxaqueca, principalmente aqueles alimentos que deixam o cérebro mais acelerado, pois trata-se de uma doença relacionada à hiperexcitabilidade cerebral. Por isso, é recomendado evitar estimulantes, como café, chocolate e energéticos, e termogênicos, incluindo gengibre e pimenta vermelha, por exemplo”, alerta o médico.
Para entender a relação entre enxaqueca e alimentação, é importante saber que existem basicamente duas classificações para alimentos que influenciam na enxaqueca: os que são gatilhos e aqueles considerados cronificadores. “O vinho, por exemplo, é um gatilho. Além do álcool, ele tem taninos que podem causar a liberação de serotonina, um neurotransmissor que pode afetar a circulação sanguínea no cérebro, levando à dor de cabeça. No caso dos queijos, alguns podem ser gatilhos. Esses alimentos podem ser retirados em um primeiro momento, mas com o tratamento adequado, eles podem ser reintroduzidos, pois perdem a força com o passar do tempo. O mesmo não ocorre com os cronificadores, como o chocolate. Ele entra na mesma linha do café. O cacau é uma das sementes com mais cafeína depois do próprio café”, esclarece o médico.
“A cafeína, se consumida em quantidade excessiva, pode causar sintomas indesejáveis, entre eles a cefaleia. Além disso, algumas pessoas são sensíveis à cafeína e mesmo com pequenas doses podem desencadear dores de cabeça. E pessoas habituadas a consumir café diariamente, se ficarem um dia sem tomar café, podem também ter cefaleia, pela falta”, destaca a **Dra. Marcella Garcez, médica nutróloga, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia.
“A cafeína presente no café e nos chás estimulantes é conhecida como cronificador da doença. Um exemplo clássico de dor rebote pela cafeína se dá quando o paciente deixa de tomar por um dia o café que toma diariamente e tem uma dor de cabeça, e então toma o café para melhorar”, diz a médica.
Além disso, o neurologista explica que o cérebro de quem sofre com enxaqueca já apresenta uma tendência maior a reagir de forma intensa a estímulos sensoriais, como luzes fortes, ruídos ou variações hormonais. “Fatores cronificadores ampliam essa reatividade, modificando circuitos cerebrais relacionados à dor e dificultando o retorno ao padrão normal”, diz o Dr. Tiago de Paula.“Quando há uma recomendação de redução no consumo, a bebida pode ser substituída por chás, por exemplo”, aconselha a Dra. Marcella. “Chás relaxantes, como o de erva-cidreira, camomila e hortelã podem ser ingeridos”, reforça o médico.
Ainda de acordo com a médica nutróloga, alguns dos fortes sintomas da enxaqueca podem ser amenizados com uma alimentação equilibrada. “É interessante principalmente a inclusão de castanha-do-pará, atum, canela, vegetais verde escuros e grão de bico, que podem ajudar a diminuir as crises de enxaqueca. Alimentos ricos em selênio e magnésio são importantes para diminuir o estresse”, explica.
“Evitar fast-foods, frituras e alimentos gordurosos, que têm perfil mais inflamatório e liberam prostaglandina, também é fundamental, assim como diminuir o consumo de cafeinados, substâncias que alteram a circulação sanguínea e de bebidas alcoólicas, ligadas à vasodilatação”, explica a Dra.
Mas o tratamento da condição vai além do manejo dos gatilhos e cronificadores da enxaqueca. Hoje já existem evidências de opções terapêuticas eficazes que podem ser usadas em criança, como o Fremanezumabe, medicamento de primeira linha de tratamento para enxaqueca que, segundo estudo publicado no ano passado, pode ser usado com eficácia, segurança e tolerabilidade em crianças acima de seis anos e adolescentes.
“Antes disso só existiam remédios orais como os anticonvulsivantes e outros que foram emprestados de outras doenças para tratar a enxaqueca nessa faixa etária. Tínhamos muitos casos que não respondiam de forma adequada a esses medicamentos. Esse tratamento já existe no Brasil, só que era restrito aos adultos, não era usado em crianças. E agora pode. Criança tem que ficar sem crise, tem que ir para a escola, brincar. Muitas crianças sofrem muito com enxaqueca. Os pais, muitas vezes por desconhecimento, lidam com isso de forma equivocada, achando que a criança está ansiosa, querendo chamar atenção, que é preguiçosa e não quer ir para a escola. Então, tratamentos como esse são uma virada de página para crianças com enxaqueca”, diz o Dr. Tiago de Paula.
Mas a avaliação individual é essencial para a recomendação do plano de tratamento mais adequado para cada caso. “O médico também poderá auxiliar na identificação de gatilhos e fatores cronificadores da doença, o que é fundamental para o controle das crises”, finaliza.

Virginia Fonseca. Reprodução/Instagram.