Fila para transplantes de córnea cresce 24% em seis meses, aponta CBO

Apesar do recorde de cirurgias, 37.719 pessoas aguardam o procedimento no país; tempo de espera dobra em 10 anos

Imagem ilustrativa
Foto: Imagem ilustrativa

A fila para transplantes de córnea no Brasil atingiu 37.719 pessoas, um aumento de 24% em apenas seis meses. Os dados, divulgados pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), revelam um cenário desafiador, apesar do número recorde de procedimentos realizados em 2025.

No ano passado, foram efetuadas 17.790 cirurgias, um marco histórico que, paradoxalmente, não impediu a expansão da lista de espera. O tempo médio para a realização do transplante mais que dobrou em uma década, passando de 174 para 370 dias.

  • A fila para transplantes de córnea no Brasil cresceu 24% em seis meses, totalizando 37.719 pessoas.
  • Em 2025, o país registrou um recorde de 17.790 transplantes, mas o aumento de novas indicações médicas supera a capacidade de atendimento.
  • O tempo médio de espera para o procedimento no país dobrou em 10 anos, chegando a 370 dias.

“No entanto, o sistema nacional enfrenta um paradoxo: mesmo operando próximo à autossuficiência teórica para o fluxo anual, a lista de espera ativa continua se expandindo devido ao ritmo rápido de novas indicações médicas”, alertou a entidade.

Como consequência do passivo acumulado ao longo dos anos, uma pessoa que aguarda por um transplante de córnea no Brasil leva, em média, 370 dias para realizar a cirurgia — tempo mais que duas vezes superior ao registrado há 10 anos, quando a demora era de 174 dias.

Quais os desafios enfrentados pelo sistema?

Para o CBO, o cenário tem origem em múltiplos fatores, incluindo a falta de reajustes nos valores pagos pelos procedimentos e o impacto da pandemia de covid-19, que causou uma espécie de represamento de pacientes, sobretudo no período de 2020 a 2023.

Os especialistas apontam ainda a necessidade de contornar o problema de manutenção enfrentado por bancos de olhos em todo o país frente aos custos dos insumos, cotados em dólar.

Outro ponto identificado é o incremento de exigências nas fases de produção e processamento da córnea, como a necessidade de gestão de qualidade.

“Essas causas alinhadas geram uma fatura que não fecha para o banco de olhos, que recebe a mesma coisa que há uma década, quando não existiam tantos requerimentos na legislação”, reforçou o conselho.

Cenário nos estados brasileiros

Consolidado como o maior exemplo de agilidade no país, o Ceará realizou 1.371 transplantes em 2025. Embora tenha registrado 1.639 novos ingressos ao longo do ano, a alta rotatividade do sistema permitiu que o estado encerrasse dezembro com apenas 93 pacientes ativos na lista de espera. O Mato Grosso também se destaca pela gestão da fila, com apenas 37 pacientes à espera do transplante.

No extremo oposto, o Rio de Janeiro realizou apenas 653 transplantes em 2025, enquanto recebeu 1.720 novos ingressos na fila no mesmo período. Esse desequilíbrio fez com que a lista acumulada fluminense fechasse dezembro de 2025 com 4.760 pessoas ativas.

Outros estados populosos também registram filas expressivas, como São Paulo, que concentra a maior fila absoluta, com 7.505 pacientes ativos em dezembro, e Minas Gerais, com 4.532 ativos. Ambos, entretanto, mantêm uma relação fila/transplante mais equilibrada em comparação ao caso fluminense.

Os estados do Amapá e de Roraima não registraram a realização de nenhum transplante de córnea em 2025.

Avaliação internacional e perfil dos pacientes

Apesar dos volumes, especialistas do CBO ressaltam que o Brasil, em termos gerais, permanece bem avaliado em nível internacional, com um desempenho compatível com Canadá, Austrália e alguns países da Europa. Na América Latina, o Brasil aparece como grande destaque, bem à frente de Argentina, Chile, Colômbia e México.

Dentre os candidatos à espera para fazer um transplante de córnea, as mulheres são maioria (56% dos pacientes).

No que se refere à idade, pessoas com 65 anos ou mais representam quase metade da fila (47%), reflexo, segundo o CBO, do envelhecimento da população e do aumento das doenças degenerativas da córnea.

Um dos pontos que chama atenção, de acordo com o conselho, é a fila infantojuvenil. Atualmente, o Brasil registra um acumulado de 753 crianças e adolescentes ativos na lista de espera para transplante de córnea, em comparação a 616 pacientes registrados em dezembro de 2025.

Impacto da pandemia no histórico

Os dados indicam que 2020 foi um ano decisivo para a formação do cenário atual, por conta das medidas sanitárias que suspenderam cirurgias eletivas, entre elas os transplantes de córnea, para manter liberados leitos para atender os casos de covid-19.

Naquele ano, foram realizados 7.349 transplantes de córnea, pouco menos do que a metade produzida no ano anterior (14.942).

Apesar do impacto inicial da pandemia, o total de transplantes de córnea saltou para 12.869 em 2021, escalando para 14.082 em 2022, para 16.028 em 2023, para 17.108 em 2024 e finalmente alcançando o patamar recorde de 17.790 cirurgias em 2025.

Acompanhe o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia

O panorama de transplantes de córnea no Brasil está entre os temas debatidos ao longo do 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia (CBO 2026), que acontece até o próximo sábado (12) em Salvador.