A Federação Internacional de Futebol (Fifa) mantém seu plano de criar uma empresa com investidores privados para administrar os torneios organizados pela entidade, mesmo diante da crescente oposição. A decisão, anunciada nesta sexta-feira (31) em Paris, reforça o posicionamento da Fifa em seguir com o processo de consulta, que, segundo ela, será de forma “aberta e democrática”, buscando combater “notícias incorretas” sobre a proposta. A entidade argumenta que é essencial que todas as partes interessadas se manifestem com base em informações precisas antes de qualquer definição.
O que aconteceu
- A Fifa prossegue com o plano de criar uma empresa com investidores privados para gerenciar seus torneios.
- A proposta enfrenta forte resistência de confederações como Uefa, Concacaf e AFC, que alertam para riscos ao futebol mundial.
- A iniciativa gerou repercussões políticas, com a renúncia de um conselheiro e críticas de líderes globais.
Entenda a proposta de investimento da Fifa
O plano, idealizado pelo presidente Gianni Infantino, prevê a fundação de uma empresa privada, a Fifa Forward Enterprise (FFE). Esta nova entidade seria responsável por todas as operações comerciais e pela organização das competições federativas. A FFE teria um valor de mercado estimado em US$ 20 bilhões (equivalente a R$ 102 bilhões).
No âmbito da proposta, a Fifa venderia uma participação de US$ 4,2 bilhões (R$ 21,5 bilhões) em ações para investidores privados. Este grupo de acionistas seria liderado por Joshua Kushner, fundador da gestora de recursos Thrive Capital e irmão de Jared Kushner, genro do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Infantino mantém boas relações com a família Trump, fator que é considerado relevante no contexto da negociação.
Por que o plano da Fifa gera tanta oposição?
Apesar do potencial financeiro, o projeto tem sido alvo de severas críticas. A União Europeia e a União das Associações Europeias de Futebol (Uefa) manifestaram-se contrárias à iniciativa. A Uefa, inclusive, anunciou a possibilidade de boicotar todas as competições da Fifa, incluindo a Copa do Mundo, caso o plano não seja retirado.
Outras confederações regionais, como a Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf) e a Confederação Asiática de Futebol (AFC), também expressaram preocupação. Em nota, a AFC afirmou que compartilha das inquietudes levantadas pelas demais entidades e alertou para os riscos que a iniciativa representa para o futuro do futebol global. A confederação destacou que a mera discussão pública sobre um possível boicote à Copa do Mundo deve servir de alerta para toda a comunidade do futebol. Atualmente, a AFC reúne 47 associações nacionais, incluindo Austrália, China, Japão e Arábia Saudita.
As repercussões políticas e internas da iniciativa
A pressão exercida sobre a Fifa já provocou mudanças internas significativas. Carlos Cordeiro, que atuava como principal conselheiro de Gianni Infantino, anunciou sua renúncia ao cargo. Ex-presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos e ex-banqueiro do Goldman Sachs, Cordeiro afirmou que não participou da elaboração da proposta e declarou sua total oposição ao projeto.
Em uma publicação na rede social LinkedIn, o ex-dirigente classificou a iniciativa como “ruim para as associações-membro da Fifa, ruim para o futebol e ruim para o futuro a longo prazo do esporte”. No cenário político britânico, o primeiro-ministro Andy Burnham voltou a criticar duramente o presidente da Fifa, classificando Infantino como “a pessoa errada” para liderar a entidade.
Além disso, Burnham definiu como “absurdo” o plano de abrir espaço para investidores privados na principal competição do futebol mundial. Segundo o premiê britânico, “a Copa do Mundo não é um produto” e não deve ser tratada como um ativo comercial, pois a competição pertence aos torcedores e não a investidores financeiros. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump afirmou que não foi consultado por Infantino sobre a proposta, respondendo com um simples “não” ao ser questionado por jornalistas. (ANSA)