Fertilização in vitro: técnicas extras nem sempre aumentam chance de ter bebê

Revisão científica analisou dez procedimentos complementares e encontrou evidências limitadas de benefício; especialistas alertam para custos e tratamentos desnecessários

Fertilização in vitro: técnicas extras nem sempre aumentam chance de ter bebê

Adicionar procedimentos à fertilização in vitro (FIV) não significa, necessariamente, aumentar as chances de gravidez ou de nascimento de um bebê. É o que aponta uma revisão sistemática com meta-análise publicada em julho na revista científica The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health.

O estudo avaliou dez intervenções complementares utilizadas em tratamentos de reprodução assistida, conhecidas como add-ons. Para a maioria delas, os pesquisadores não identificaram benefícios comprovados ou consideraram as evidências disponíveis insuficientes para estabelecer conclusões seguras.

Apenas três técnicas apresentaram sinais de possíveis benefícios em determinados resultados, mas a qualidade das evidências ainda foi considerada limitada.

Os resultados reforçam a importância de avaliar individualmente a necessidade de cada procedimento, especialmente porque a inclusão de etapas adicionais pode aumentar os custos financeiros e o desgaste emocional de quem busca uma gestação.

O que são as técnicas extras da fertilização in vitro?

Os chamados add-ons são procedimentos oferecidos como complemento às etapas tradicionais da fertilização in vitro.

Essas intervenções podem ter diferentes objetivos, como melhorar a seleção de embriões, favorecer sua implantação no útero, avaliar características dos espermatozoides ou interferir em mecanismos imunológicos relacionados à reprodução.

Embora algumas dessas técnicas sejam apresentadas como alternativas para aumentar as chances de sucesso, nem todas possuem comprovação científica consistente.

Segundo Denis Schapira Wajman, ginecologista e especialista em reprodução humana do Einstein Hospital Israelita, os resultados da revisão reforçam uma preocupação já existente entre profissionais da área.

O médico explica que diferentes procedimentos passaram a ser utilizados antes que houvesse estudos suficientemente robustos para demonstrar melhora nas taxas de nascimento.

A questão central, portanto, não é a quantidade de intervenções realizadas, mas a existência de benefícios comprovados para cada paciente.

Quais procedimentos foram analisados?

Entre as dez técnicas avaliadas estão métodos de seleção embrionária, intervenções no endométrio, tratamentos imunológicos e estratégias relacionadas aos espermatozoides.

Uma delas é o PGT-A, teste genético realizado em células retiradas de embriões antes da transferência para o útero. O exame busca identificar alterações no número de cromossomos e auxiliar na escolha dos embriões.

Outra técnica é o teste de receptividade endometrial, utilizado para avaliar características do revestimento interno do útero e tentar identificar o período mais favorável à implantação.

Os pesquisadores também analisaram o endometrial scratching, procedimento que provoca uma pequena lesão no endométrio com a intenção de estimular processos de reparação. Seu uso rotineiro não é recomendado.

Duas intervenções avaliadas utilizam plasma rico em plaquetas (PRP), preparado a partir do sangue da própria paciente. Uma envolve a aplicação no útero, enquanto a outra prevê a aplicação nos ovários. Ambas permanecem experimentais nesse contexto.

A revisão incluiu ainda o uso de intralipídios e corticoides, empregados com a intenção de modificar respostas imunológicas que poderiam interferir na implantação embrionária.

Também foram examinados a acupuntura, o PICSI, método de seleção de espermatozoides, e o EmbryoGlue, meio utilizado durante a transferência embrionária e enriquecido com ácido hialurônico.

Três técnicas apresentaram possíveis benefícios

Entre os procedimentos estudados, o EmbryoGlue, o endometrial scratching e o PICSI apresentaram sinais de benefício em determinados desfechos.

Os resultados incluíram possíveis melhorias na taxa de nascidos vivos ou redução do risco de aborto, dependendo da intervenção analisada.

Entretanto, os pesquisadores destacaram que as evidências disponíveis ainda são frágeis.

Isso significa que os resultados observados não são suficientes para concluir que essas técnicas devam ser oferecidas de forma rotineira a todas as pessoas submetidas à fertilização in vitro.

A avaliação também precisa considerar que um procedimento pode apresentar efeito sobre um resultado intermediário, como a implantação do embrião, sem necessariamente demonstrar aumento consistente no número de bebês nascidos vivos.

Por isso, a taxa de nascimento vivo é considerada um dos indicadores mais relevantes para determinar o sucesso efetivo de uma intervenção em reprodução assistida.

Procedimentos adicionais podem elevar custos do tratamento

A fertilização in vitro já representa um investimento financeiro significativo para muitas famílias.

A inclusão de exames e técnicas complementares pode aumentar consideravelmente o valor final, sem garantia de melhora nos resultados.

Segundo Wajman, é necessário considerar não apenas a eficácia e a segurança dos procedimentos, mas também seu custo-benefício.

O especialista alerta que intervenções sem comprovação suficiente podem ampliar o desgaste financeiro e emocional de pacientes que já enfrentam um processo complexo.

A ausência de benefício demonstrado não significa que todas as técnicas sejam inúteis em qualquer circunstância. Algumas podem ser consideradas em situações específicas, desde que exista justificativa clínica e uma avaliação transparente das limitações científicas.

Como decidir quais técnicas utilizar na FIV?

Antes de aceitar um procedimento adicional, pacientes devem conversar com a equipe médica sobre os benefícios esperados, os riscos envolvidos e a qualidade das evidências disponíveis.

Também é importante verificar se a intervenção é recomendada por sociedades científicas ou se ainda possui caráter experimental.

Outro ponto essencial é compreender se o procedimento demonstrou melhorar a chance de nascimento de um bebê ou apenas indicadores intermediários do tratamento.

A decisão deve considerar fatores individuais, como histórico reprodutivo, condições de saúde e resultados de tentativas anteriores.

A principal conclusão da revisão é que oferecer mais procedimentos não significa, necessariamente, proporcionar um tratamento mais eficaz.

Para os especialistas, o caminho mais seguro é priorizar intervenções com indicação individualizada e benefícios sustentados por evidências científicas, evitando que a expectativa de aumentar as chances de gravidez resulte em custos e procedimentos desnecessários.

Da IstoÉ e Agência Einstein