Edição nº2501 17.11 Ver edições anteriores

Feliz hino novo

Atualmente não importa o que você disser; sempre vai ofender alguém.
Ou você será taxado de homofóbico, racista, machista, esquerdista, direitista, ou o sensacional “isentão” que é quando você não é nenhum dos anteriores e, exatamente por isso, ofende todo mundo.
Com tantas novidades, clichês antigos caíram por terra.
Por exemplo: “Deus é brasileiro”.
Bobagem.
Se Deus fosse brasileiro, o papa não seria argentino.
Simples assim.
Seria uruguaio, boliviano, paraguaio, mas jamais argentino.
Um papa hermano é sua derradeira provocação.
Um papa argentino, inclusive, afeito a uma boa piada.
Semana passada canonizou trinta brasileiros, assim, de uma vez só.
Pense. Trinta santos só pode ser coisa feita para nos espezinhar.
– Mas trinta santos brasileiros, santidade, numa batelada só? Por que?
– Porque eu posso.
E sua gargalhada divina ecoou até a Capela Sistina.
Típico argentino.
Aposto que um dia canoniza o Pelé, só para, no discurso, poder dizer “Pelé é um santo mas la mano de Dios é de Maradona…”
E arrebenta de rir por dentro, o brincalhão.
Mas voltando ao assunto desse artigo, o tal discurso politicamente correto que somos obrigados a aceitar.
Está em todo canto, nos obrigando a rever valores antigos.
Outro dia, antes de um jogo de futebol, me dei ao trabalho de prestar atenção ao nosso Hino.
Fiquei estarrecido.
Imaginei como seria se Osório Duque Estrada tivesse de aprovar a sua imortal letra nos dias de hoje.
Corta para um jovem burocrata de Brasília com uma caneta vermelha na mão.
– Vamos lá, seu Osório…vamos ver aqui se ficou top esse nosso Hino.
“Ouviram do Ipiranga às margens plácidas”
– Eita! Ipiranga não, viu seu Osório? O museu está lá abandonado, apodrecendo. As margens plácidas do córrego estão um desastre. Água nojenta e poluída. Peixe lá só de escafandro. Vão cobrar a gente, sabe como é…melhor não. Tira.
Osório faz que sim com a cabeça preocupado por se tratar ainda do primeiro verso.
“De um povo heroico o brado retumbante”
– Osório, querido, brado retumbante, já faz uns dois anos, é só “Fora Fulano”. Onde “fulano” geralmente é o presidente. Tira também por favor.
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos
– Bonito! Mas liberdade é exagero. Digamos prisão domiciliar em raios fúlgidos. Aí pode ficar.
“Em teu seio, ó liberdade”
– Seio? Está maluco, Osório!? Pornografia não né? Tira.
Verso a verso o sujeito edita o trabalho do poeta.
“Dos filhos desse solo és mãe gentil”
– Mãe gentil é ironia com os benefícios dos funcionários públicos? Ou com a aposentadoria dos juízes? Sarcasmo não, por favor — e risca com a caneta vermelha.
“Nossos bosques têm mais vida”
– Desmatamento, Osório! Que mundo você vive? Me ajuda a te ajudar!
Duque Estrada não esboça mais nenhuma reação, derrotado.
Já não presta mais atenção no que o sujeito diz.
Apenas espera, submisso, o fim do seu suplício, pensando o que foi que aconteceu com o mundo nos últimos duzentos anos.
“Nem teme, quem te adora, a própria morte”
– Temer que te adora? Oi? Ah não…desculpe. Li errado.
Duque Estrada revira os olhos, paciente.

“Nem teme, quem te adora, a própria morte”
– Temer que te adora? Oi?
Ah não…desculpe. Li errado.
Duque Estrada revira os olhos, paciente


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