Edição nº2604 22/11 Ver edições anteriores

Febre latina

Fervem manifestações em alguns países da América do Sul. De uma hora para outra, Equador, Bolívia e Chile entraram em convulsão. Os protestos parecem articulados e muitos acreditam na existência de uma espécie de conspiração internacional com o fito de desestabilizar a região. Tudo para provocar o retorno ao poder de políticas e políticos de esquerda. Invocando o Foro de São Paulo, Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, já afirmou que a região viveria tempos tumultuados. João Pedro Stédile, o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), também seguiu nessa direção quanto ao Brasil. Ele vaticinou convulsões — aquelas que ele tanto almeja.

A associação imediata é com a chamada Primavera Árabe, ondas de protestos populares que eclodiram no Oriente Médio e no Norte da África a partir de dezembro de 2010. Será que estamos vivendo uma Primavera Latina? Como dito, as evidências apontam na direção de eventos politicamente coordenados. Várias estações de metrô em Santiago do Chile foram incendiadas no mesmo dia. Não teria havido um mínimo de conexão entre essas ações?

Talvez sim, talvez não. Não tenho resposta para a questão. Nos dias de hoje, a mobilização de massas parece ser bem mais fácil em um ambiente de insatisfação social. No Equador, o aumento do preço dos combustíveis deflagrou uma série de violentos confrontos. No Chile, a alta da tarifa de metrô produziu fenômeno semelhante. Em 2013, a questão do passe livre em São Paulo foi o gatilho para uma série de protestos em todo o Brasil que tiveram uma agenda bastante diversificada.

No entanto, para além da suspeita de uma conspiração internacional, não existem relações específicas entre os protestos. No Equador e no Chile, eles foram detonados a partir de decisões tomadas por seus respectivos governos. Sem estas, talvez nada acontecesse. Na Bolívia, o clima anda quente pelas suspeitas de manipulação nas eleições de 20 de outubro, que levaram ao poder, pela quarta vez consecutiva, Evo Morales, após uma disputa acirrada com seu oponente, Carlos Mesa.

Se as razões não são específicas, o que faz o continente ser sacudido por protestos? Não é uma resposta fácil. Em todos esses países existem forças interessadas em desestabilizar os regimes vigentes. São forças de oposição que se alimentam das expectativas não cumpridas, o que parece evidente no Chile e no Equador. Sem um saldo anterior de insatisfação, provavelmente os protestos não teriam eco, ficando limitados aos movimentos que não chegam a galvanizar as multidões.
Há quem diga que a febre latina pode chegar ao Brasil. Não me parece que isso vá acontecer, apesar da situação paradoxal que vivemos: guerra belicosa de narrativas e alta produtividade nas reformas. Parece, mais uma vez, que o Brasil continuará sendo um lugar à parte do continente sul-americano.


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