Febeapá em Rondônia

Atenção. Não leia. Esta matéria deve ser encaixotada. Ela cita a lei e a literatura. Fala de poesia. Ela não dá mole. Ela é dura. Se refere aos clássicos. Ela contem a palavra liberdade — quem sabe arrancada aos textos da lei. Ela é perigosa. Não leia por favor!

Perscruto o Meio e desabafo. “Sérgio Porto, que nos anos 1960 assinava na imprensa carioca com o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou naquela década uma série de três livros que, no conjunto, batizou Febeapá. Festival de Besteira que Assola o País. Era uma forma de, sentado em sua fictícia mansão dos Ponte Preta, apontar os fatos absurdos da Ditadura militar. Não as atrocidades, mas as ignorâncias.

Ontem, a Secretaria de Educação de um dos estados brasileiros mandou confiscar livros de Machado de Assis, Mario de Andrade — sobrou até para Os Sertões, a narrativa que Euclides da Cunha escreveu sobre o massacre de Canudos. A ordem foi suspensa. E ainda assim não há notícia mais absurda. Chocante. Estúpida. Porém sintomática do Brasil de 2020. Abriria, por certo, um quarto Febeapá.”

Cito o Globo e choro. “A Secretaria de Educação de Rondônia redigiu ofício com uma lista de 42 livros que as bibliotecas das escolas públicas deveriam retirar das estantes, encaixotar e devolver. Os títulos incluem Memórias Póstumas de Brás Cubas, Os Sertões e Macunaíma — três dos maiores clássicos da literatura brasileira. Além de Machado de Assis, Euclides da Cunha e Mario de Andrade, também foram listados no índex Ferreira Gular, Carlos Heitor Cony, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues, Franz Kafka e Edgar Allan Poe. De acordo com o alerta do governo, as obras são impróprias para crianças e adolescentes.”

Leio o Estadão e morro. “A primeira reação do governo, quando o ofício começou a circular nas redes, foi de negar. Um site local chegou a afirmar tratar-se de fake news. Após a confirmação por professores que já haviam feito o recolhimento, a versão mudou. A Secretaria teria recebido uma denúncia, seus técnicos examinaram as obras, e constataram que eram clássicos — portanto o estudo era interno. Mas o ofício foi distribuído pelo sistema computadorizado do governo, está em nome do secretário, embora leve a assinatura eletrônica de sua número três.”

Em grande contrição observo o texto da constituição. Artigo 220. “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.”

A Rondônia é hoje governada pelo coronel PM Marcos Rocha, hoje no PSL. Ele faz campanha usando camiseta com o rosto do presidente Jair Bolsonaro e foi o primeiro governador do país a anunciar a intenção de se filiar ao partido Aliança.

É preciso dizer que também foi ele que suspendeu a ordem!


Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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