Na esteira de empresas exportadoras e da própria diplomacia brasileira, aumenta o interesse de instituições do mercado financeiro em países árabes do Golfo, em especial nos Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

Países como os Emirados e o Catar, nas últimas duas décadas, e mais recentemente a Arábia Saudita, passaram a promover a abertura de suas economias, num esforço de diversificação para além da indústria petrolífera.

Isto envolve incentivos para atração de empresas, mão de obra e tecnologias estrangeiras, desenvolvimento do setor imobiliário, do comércio e do turismo, realização de grandes eventos internacionais e redirecionamento de parte dos investimentos soberanos no exterior – que antes iam quase que exclusivamente para mercados maduros – para economias emergentes na Ásia, África e América Latina.

Tendência semelhante ocorre em outras nações do Golfo. O Bahrein é um importante centro financeiro, e foi o primeiro país da região a receber um Grande Prêmio de Fórmula 1, ainda em 2006. Omã aposta na vocação logística, principalmente marítima, para atrair investimentos ao seu litoral, que tem a vantagem de ficar fora do Estreito de Ormuz. A Vale, por exemplo, tem por lá uma usina de pelotização de minério de ferro e um centro de distribuição.

Empresas brasileiras que exportam para o Golfo ou que usam países da região como plataformas de exportação começaram a se instalar fisicamente por lá há pelo menos duas décadas, por meio de escritórios, centros de distribuição e até unidades industriais. Além da Vale, há nomes como JBS, BRF, Marcopolo, Weg e Tramontina, entre várias outros. Segundo o embaixador do Brasil em Abu Dhabi, Sidney Leon Romeiro, são cerca de 40 companhias brasileira só nos Emirados.

Agora, ainda em número pequeno, mas crescente, instituições do mercado financeiro se voltam para a região, de olho nos interesses de clientes pessoas jurídicas e físicas, e no capital árabe, que tem origem majoritariamente no petróleo.

Atrás do cliente

“Seguimos nossos clientes. Esse é um bom costume”, disse ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) Adriano Borges, sócio e diretor gerente de investment banking do BTG pactual. “É um movimento natural”, acrescentou. A instituição abriu este ano uma representação em Riad, na Arábia Saudita, e contratou para chefiá-la o executivo saudita Sultan Olayan. Os Olayan são um das famílias de empresários mais tradicionais e ricas da Arábia Saudita.

De acordo com Borges, a iniciativa acompanha o aumento do fluxo de capital entre o Oriente Médio e a América Latina, especialmente os investimentos sauditas no Brasil. A estatal Saudi Agricultural and Livestock Investment Company (Salic), por exemplo, é acionista dos frigoríficos BRF (Sadia e Perdigão) e Minerva.

Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro visitou a Arábia Saudita e se reuniu com o príncipe-herdeiro e governante de fato do país, Mohammad Bin Salman. Na época, o governo brasileiro anunciou que o Fundo de Investimento Público (PIF, na sigla em inglês), fundo soberano saudita, pretendia investir até US$ 10 bilhões no Brasil. Ainda não ocorreu, mas este ano a Manara, joint-venture entre o PIF e a mineradora saudita Ma’aden, anunciou a compra de 10% da divisão de metais básicos da Vale.

Neste contexto, segundo Borges, o os objetivos do BTG são atrair investimentos sauditas para projetos brasileiros e levar empresas brasileiras para lá. A ideia é aproveitar o interesse árabe pelo Brasil e o impulso do plano de abertura e diversificação econômica saudita Visão 2030. “Para levar o país ao nível de abertura, pujança e diversificação que eles querem, a Arábia Saudita precisa atrair talentos, tecnologia e também capital na forma de validação”, declarou.

Ele diz que o banco é pioneiro entre as instituições brasileiras em Riad. “Nós enxergamos Riad como centro gravitacional da região daqui para frente”, observou, destacando, porém, que o BTG tem planos de expansão na região. A concorrência, por enquanto, vem de grandes bancos estrangeiros. “A diferença é que eu só vendo Brasil, não Estados Unidos, Canadá ou China”, ressaltou.

Para ele, a visita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez a região recentemente, passando por Arábia Saudita, Catar e terminando com sua participação na 28ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP28), em Dubai, nos Emirados, deu “tração” aos negócios. Em 2003, Lula foi o primeiro chefe de Estado brasileiro a visitar países árabes desde o imperador Dom Pedro II, e esteve em vários países da região em seus dois primeiros mandatos, inclusive os que visitou agora em 2023.

Borges afirma que o BTG negocia e está recebendo mandatos para buscar investimentos em áreas como agronegócio, mineração, petroquímica e aeroespacial. Os países do Golfo tem especial interesse em investir em projetos que possam garantir a segurança alimentar da região e também em atrair empresas que possam levar tecnologias à região, como a Embraer.

Outro exemplo de transação recente com empresas do Golfo, ainda em andamento, é a que envolve a compra da fatia da Novonor (ex-Odebrecht) na petroquímica Braskem pela Adnoc, petrolífera estatal de Abu Dhabi, nos Emirados. Outras instituições de Abu Dhabi, como a holding Mubadala, investem há mais tempo no Brasil.

Emirados

Os Emirados são o país árabe do Golfo que mais atraiu empresas brasileiras nas últimas décadas, e pessoas. Segundo dados do Itamaraty, o número estimado de brasileiros residentes nos Emirados era de 9.630 em 2022.

De olho neste público, a gestora GCS Capital decidiu abrir um escritório em Dubai e contratar um executivo local. De acordo com o CEO da empresa, Charluan Gamballe, a ideia surgiu em 2019, quando ele participou da feira Hotel Show, no emirado, para apresentar seu negócio e um empreendimento hoteleiro em Aparecida do Norte, no interior de São Paulo.

Ele tem por objetivos não só atrair investimento para projetos no Brasil, mas auxiliar empresas brasileiras a se instalarem e gerirem seus negócios por lá, além de identificar oportunidades de investimentos para brasileiros.

“O mercado está olhando para lá, mas há poucas gestoras e assessorias financeiras brasileiras presentes fisicamente”, disse. Além de capital, segundo ele, Dubai oferece vantagens como localização favorável como plataforma de distribuição internacional, infraestrutura de primeira, incentivos fiscais, facilidade para abrir negócios e juros baixos.

“O dinheiro dos Emirados não vem sempre diretamente para o Brasil. Eles querem levar empresas brasileiras para lá, para que abram filiais e então fazerem os investimentos nessas filiais”, observou.

Segundo fontes de mercado e que acompanham os negócios do Brasil como o Golfo, a XP é outra instituição que tem participado de eventos na região ou com investidores de lá, e tem demonstrado interesse nestes países. A empresa marcou presença, por exemplo, na Expo 2020, exposição mundial que ocorreu em Dubai em 2021 e 2022, com um ano de atraso por causa da pandemia, e este ano recebeu no Brasil uma delegação liderada pelo ministro saudita dos Investimentos, Khalid Al-Falih. Procurada, a XP não comentou.

Atrativos

“Quase um terço do volume [de recursos] dos fundos soberanos [do mundo] está no Golfo Pérsico e só a Adia (Abu Dhabi Investment Authority) possui mais de US$ 990 bilhões de dólares em ativos”, observou o embaixador brasileiros nos Emirados Árabes, Sidney Romeiro. “Há uma grande liquidez no mercado emirático no momento. Não só de investidores regionais de muito peso, como russos, indianos, chineses ou iraquianos, mas dos próprios emiráticos”, contou.

Ele acrescenta que em 2022 e 2023 as bolsas de Dubai e Abu Dhabi figuraram entre as mais ativas do mundo em termos de ofertas púbicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês), “superando a movimentação dos mercados tradicionais”.

O diplomata comenta que Brasil e Emirados “estão no melhor momento de suas relações”, com cada vez mais empresas brasileiras se estabelecendo no país árabe e os Emirados investindo cada vez mais no Brasil. “O fortalecimento da presença brasileira no mercado financeiro parece ser uma consequência deste cenário: é possível que na raiz do interesse brasileiro pelo mercado financeiros nos EAU esteja a captação de recursos para estabelecimento ou expansão de empresas”, concluiu Romeiro.