Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

Pênalti! Aos 17 minutos do segundo tempo, o goleiro Eduardo Silva, mais conhecido como Tomate, viu a oportunidade de consagrar a grande partida que vinha fazendo na Copa São Paulo de Juniores pelo modesto Andirá, do Acre, pegando a penalidade diante do Atlético-MG. No entanto, a chance deu lugar às lágrimas ao perceber na placa de substituição que iria ao banco de reservas, de onde viu o adversário converter a batida e seu time ser eliminado do torneio. O prato do jovem de 18 anos viralizou e, em pouco tempo, a vida do goleiro ganhou novos rumos.

Após o apito final, ainda no vestiário, Tomate recebeu os cumprimentos dos companheiros e da comissão técnica pela atuação de destaque, ficando aliviado por afastar a desconfiança que outrora rondava o ambiente. Ali mesmo foi avisado pelos companheiros que o choro havia sido flagrado pela transmissão da partida e a imagem começava a ser compartilhada na internet.

“Já havia conversado com o treinador sobre a substituição”, revela. “Mas as minhas lágrimas foram mais pelo bom jogo que eu fiz. Eu vinha recebendo muitas críticas, sofrendo com desconfiança. Mas Deus é tão bom que ele honrou um servo dele”, louva Tomate, apelido que ganhara ainda na infância pela facilidade com que fica vermelho – inclusive quando chora.

É possível dizer que a vida de goleiro literalmente mudou da noite para o dia. “Eu fiquei sem entender. Fui dormir com mil seguidores e acordei com quase meio milhão”, conta o jovem, que tem aproveitado o sucesso meteórico nas redes para mostrar seu lado influencer. Recentemente, Tomate fez jus ao apelido e fechou uma parceria para fazer a publicidade de um hortifruti de Rio Branco, capital acreana. “É essencial para todo o goleiro, previne a visão”, diz no vídeo da ação. Outras parcerias com lojas e supermercados já estão em vista.

Apesar de curtir o sucesso repentino fora das quatro linhas, o jovem garante que o foco está em seguir a sua carreira no futebol. Com um histórico de jogadores amadores na família, tentou ser zagueiro, assim como o pai, que atualmente trabalha como entregador em uma empresa de iogurtes. A escolha pela defesa “não deu muito certo”, como ele mesmo explica, resolvendo tentar a sorte no gol, posição na qual outros tios também jogaram, todos de forma amadora. Com o sonho de se profissionalizar, começou sua trajetória no mundo da bola aos 12 anos. De lá para cá, passou pelas categorias de base do Rio Branco, Independência FC e Galvez, até chegar no Andirá.

INSPIRAÇÃO – A principal inspiração embaixo das traves é um conterrâneo bastante conhecido: Weverton, goleiro do Palmeiras e da seleção brasileira. O dono da meta alviverde, inclusive, foi uma das pessoas que se comoveram com o choro de Tomate e enviaram uma mensagem positiva ao jovem.

“Foi muito legal. Ele me mandou uma mensagem no Instagram me dando todo apoio e de carinho. Porque, querendo ou não, ele viu aquilo acontecendo com uma pessoa do mesmo lugar de onde ele saiu”, diz Tomate. “Gosto muito do jeito dele, sabendo jogar com os pés. Me inspiro nisso.”

A edição 2021 foi a primeira na carreira de Tomate, que já disputou duas Copas do Brasil sub-20 e uma sub-17, ambas pelo Galvez. Incentivado pela família, que ainda conta com a mãe, já aposentada, e outros dois irmãos mais velhos, Tomate projeta um dia poder dar uma condição melhor para os pais através do futebol. Para o goleiro, a onda de solidariedade tem um motivo claro. “As pessoas se simpatizam porque sabem que nós estamos ali pelo nosso sonho de mudar a vida de nossas famílias.”

Adversário na ocasião, o Atlético-MG publicou em sua conta no Twitter que convidou Tomate para um período de testes no CT do clube, em março. O diretor de futebol do Andirá, Civaldo Nery, confirmou a informação, mas como as boas defesas fizeram o goleiro se valorizar após a Copinha, o destino do jogador pode ser outro. Segundo o dirigente, o Botafogo fez uma oferta oficial pelo atleta.

Nery também disse estar “muito feliz” com a repercussão que o Andirá recebeu na Copinha, mesmo sem os resultados esportivos. O dirigente conta que a equipe foi de ônibus de Rio Branco até Lins, cidade onde ficou instalada, em uma viagem que durou cerca de dois dias. Apesar da hospedagem e alimentação serem da Federação Paulista Paulista (FPF), a diretoria teve que arcar com as despesas de outros cinco atletas que levaram a mais, além dos gastos no trajeto. O esforço é refletido no barulho que o clube vem fazendo nas categorias de base no Acre, mesmo sem muitos recursos.

“O Andirá, em si, não tem nem campo para treinar. Isso em todas as categorias. Tudo que conseguimos é através da ajuda de nossos patrocinadores, desde água a gelo”, conta. Apesar das dificuldades, o Andirá já conseguiu alcançar algum sucesso no futebol local. “Quando eu assumi, há sete meses, o nosso projeto era conseguir galgar algo em dois anos. Mas, em seis meses de trabalho, a gente conseguiu ser campeão do sub-20, sub17, vice do sub-11 e semifinalista do sub-15.”

MUDANÇA DA DISCÓRDIA – Após a fatídica substituição que colocou Tomate no banco de reservas, internautas se apressaram para culpar o treinador do sub-20 do Andirá, Kinho Brito, pelo choro do jovem. O que poucos sabem é que tudo já estava programado. O treinador conta que tinha como objetivo dar oportunidade ao maior número de atletas durante a competição, principalmente na partida contra o Atlético-MG, que estava sendo televisionada.

“Estava combinado que o Tomate jogaria um tempo, e o Carlos, o reserva, o outro”, diz o técnico. “Quando surgiu o pênalti para o Atlético, vi a oportunidade de colocar ele (Carlos) por se tratar de um exímio pegador de penalidades no nosso clube”, explica.

A ferocidade dos haters tão logo chegou ao comandante do Andirá. Horas após o jogo ele publicou um vídeo explicando o motivo da troca. Tomate, por sua vez, demonstrou respeito pelo treinador, pedindo aos seus seguidores que parassem de atacar o profissional. No fim, ambos os goleiros tiveram um final feliz na história. Se Tomate surfa na onda de seus seguidores, Carlos tem um acordo de empréstimo encaminhado com o Fluminense, revela Kinho.