Falta de mão de obra expõe entraves à imigração na Alemanha

Falta de mão de obra expõe entraves à imigração na Alemanha

"AlemanhaPaís enfrenta escassez de trabalhadores qualificados, desde enfermeiros a especialistas em TI. Mas a burocracia e os obstáculos políticos dificultam contratação de profissionais no exterior.Em uma sala de aula em Chennai, na Índia, cerca de 20 enfermeiras estão aprendendo alemão em ritmo acelerado. Elas têm seis meses para se tornarem fluentes o suficiente para trabalhar na Alemanha .

Ramalakshi, uma das enfermeiras, conta que sua família enfrentou dificuldades financeiras, mas mesmo assim conseguiu pagar o equivalente a vários milhares de euros para sua faculdade de enfermagem. Desde que concluiu seus estudos, ela sentiu a necessidade de retribuir.

"Meu objetivo é trabalhar no exterior", diz. "Quero dar estabilidade financeira à minha família e construir minha própria casa."

O governo do estado de Tamil Nadu, no sul da Índia, financia o curso de idiomas para combater o desemprego local e dar às famílias desfavorecidas uma chance de alcançar oportunidades globais. Agências privadas, então, conectam enfermeiras indianas com potenciais empregadores.

Trabalhadores necessários

A Alemanha está desesperada por trabalhadores qualificados, já que a chamada geração baby boomer está se aposentando e deixando o mercado de trabalho nos próximos anos, enquanto o número de nascimentos é muito baixo.

Os hospitais carecem de enfermeiros, as escolas precisam de professores e o setor de TI clama por desenvolvedores.

Economistas do Instituto de Pesquisa de Emprego (IAB) em Nuremberg, Alemanha, estimam que o país precisa atrair 300 mil trabalhadores qualificados anualmente apenas para manter o status quo.

"Sem eles, os alemães teriam que trabalhar mais horas, se aposentar mais tarde. Ou simplesmente ser mais pobres", afirma o pesquisador do IAB, Michael Oberfichter.

"Trabalhadores convidados" e o milagre econômico alemão

Após a Segunda Guerra Mundial , a Alemanha experimentou um boom econômico que ainda é descrito como um "milagre econômico". Nas décadas de 1950, 60 e início de 70, a economia cresceu tanto que ajovem democracia recorreu a trabalhadores estrangeiros para atender à demanda.

A Alemanha Ocidental firmou acordos oficiais de recrutamento com países como Itália, Grécia, Turquia e outros, para garantir um fluxo constante de trabalhadores. Até 1973, quando essa política foi gradualmente extinta, 14 milhões de pessoas chegaram para trabalhar no país europeu.

Os recém-chegados eram chamados de gastarbeiter na Alemanha, ou trabalhadores convidados, já que o governo presumia que eles partiriam após alguns anos e retornariam para seus países de origem. Mas muitos permaneceram e construíram suas vidas no país.

Obstáculos burocráticos

Hoje, apesar da renovada necessidade de trabalhadores qualificados na Alemanha, os imigrantes enfrentam muitos obstáculos para trabalhar no país.

Zahra, que é do Irã, inicialmente não teve permissão para trabalhar após concluir sua graduação na Alemanha. "Levei quase um ano para conseguir uma entrevista para mudar meu visto de estudante para um visto de trabalho", se recorda.

Ela, que não quis que seu nome completo fosse publicado, fala alemão fluentemente, leciona em universidades e trabalha com pesquisa. Mesmo assim, após mais de seis anos no país, não obteve uma autorização de trabalho permanente e precisa se apresentar às autoridades sempre que muda de emprego.

"Às vezes penso: 'Será que quero morar aqui?'", disse ela, questionando se não deveria ter se mudado para o Canadá, como alguns de seus amigos, que já obtiveram a cidadania canadense. "Ainda tenho que passar por isso depois de seis anos e meio."

Björn Maibaum, advogado de Colônia, na Alemanha, especializado em direito de imigração, afirma que a experiência de Zahra não é incomum para estrangeiros. "Infelizmente, é a mesma situação em toda a Alemanha", constata.

O escritório de advocacia de Maibaum lida com cerca de 2 mil casos desse tipo por ano, buscando agilizar os processos de imigração. Entre seus clientes estão "médicos, enfermeiros, engenheiros, caminhoneiros", explicou. Para ele, o principal problema é a falta de pessoal nas autoridades de imigração, o que faz com que os solicitantes esperem por "meses ou até mesmo um ano".

"Isso é simplesmente frustrante. E não é essa a mensagem que devemos passar para o mundo. Estamos em uma competição [por trabalhadores]", concluiu.

Trabalhadores qualificados e refugiados

De acordo com os dados mais recentes do Escritório Alemão para Migração e Refugiados, cerca de 160 mil estrangeiros com autorização de residência são considerados trabalhadores qualificados.

No entanto, o escritório também é responsável por processar os pedidos de asilo dos milhões de refugiados que chegaram à Alemanha nos últimos anos devido a conflitos e guerras, como as da Síria e da Ucrânia . Mas, devido à falta de digitalização, a burocracia é lenta na Alemanha.

O aumento acentuado no número de refugiados e a incapacidade do governo de integrá-los ao mercado de trabalho levaram a um crescente descontentamento com a política de imigração entre a população e impulsionaram o apoio ao partido de ultradireita anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD ).

Sentimento anti-estrangeiro preocupa

Kayalvly Rajavil está fazendo suas rondas e verificando os pacientes na Clínica BDH em Vallendar, uma pequena cidade no estado da Renânia-Palatinado, no oeste da Alemanha. O hospital é especializado em reabilitação neurobiológica, ajudando pacientes a se recuperarem de um AVC ou de um acidente.

Rajavil é natural de Tamil Nadu e está na Alemanha há apenas alguns meses. Ela afirma que o idioma alemão foi difícil para ela no início. "Mas meu chefe e meus colegas ajudaram bastante, e nos respeitam", ressalta.

Rajavil é uma das cerca de 40 enfermeiras da Índia e do Sri Lanka que a clínica contratou nos últimos anos – a maioria, por meio de agências de recrutamento que cobram da clínica entre 7 mil (R$ 43,5 mil) e 12 mil euros por cada contratação bem-sucedida.

Jörg Biebrach, chefe da equipe de enfermagem da clínica, afirma que o sentimento anti-estrangeiro na Alemanha, especialmente os casos de racismo, é um problema para os indianos que buscam trabalhar no país. "Recebemos cada vez mais perguntas sobre os acontecimentos políticos no país", salienta, acrescentando que é um desafio crescente fazer com que os novos funcionários estrangeiros se sintam confortáveis ​​e acolhidos na Alemanha.

A saudade de casa, problemas familiares e a adaptação cultural são outros desafios que impedem os funcionários estrangeiros de permanecerem no país após o período habitual de dois anos de contrato, segundo Biebrach.

Para se manter competitiva na corrida global por enfermeiros qualificados da Índia, a Clínica BDH agora oferece um programa de estágio para jovens indianos recém-formados no ensino médio em seu país de origem. Isso agilizaria o processo de contratação – que normalmente dura até nove meses – e evitaria a necessidade de reconhecimento de qualificações estrangeiras na Alemanha, um procedimento complexo que se torna ainda mais complicado devido às diferentes regras nos 16 estados regionais do país.

Bierbach argumenta que as autoridades de imigração precisam ser mais ágeis e as leis, mais uniformes para que a Alemanha se torne mais atraente para jovens talentos. "Todos dizem que precisamos de trabalhadores qualificados. Mas ainda estamos longe de uma cultura acolhedora onde tudo funcione sem problemas", lamenta.