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Checagem de fatos: o discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU

Checagem de fatos: o discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU

Presidente Jair Bolsonaro na 75ª Assembleia Geral da ONU. Foto distribuída pela organização - UNITED NATIONS/AFP

Em pronunciamento em vídeo transmitido em Nova York para a abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente Jair Bolsonaro falou sobre os incêndios que afetam a Amazônia e o Pantanal e defendeu a atuação de seu governo durante a crise de saúde provocada pela covid-19.

Abaixo, a AFP Checamos analisou algumas das principais declarações do mandatário durante o seu discurso.

Pandemia

“Desde o princípio alertei, em meu país, que tínhamos dois problemas para resolver: o vírus e o desemprego, e que ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade”: Falso

Não é verdade que Bolsonaro alertou “desde o princípio” para a necessidade de combater o novo coronavírus.

No dia em que o Brasil registrou a primeira morte pela doença, em 17 de março, Bolsonaro indicou ver “histeria” em algumas medidas implementadas para reduzir a sua propagação.

Em pronunciamento em 24 de março, quando o Brasil registrava 46 óbitos e mais de 2.200 casos confirmados de covid-19, o presidente se referiu à doença como uma “gripezinha”.

No mesmo mês, saiu para passear em Brasília, provocando pequenas aglomerações – já desencorajadas na época – e disse que o vírus precisaria ser enfrentado mas que “todos nós iremos morrer um dia”.

“Por decisão judicial, todas as medidas de isolamento e restrições de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores das unidades da federação. Ao presidente coube envio de recursos e meios a todo o país.”: Enganoso

O Supremo Tribunal Federal (STF) efetivamente julgou ações determinando a prerrogativa de estados e municípios no estabelecimento de medidas de combate à pandemia. As decisões não excluíam, contudo, a capacidade da União de adotar ações para enfrentar a crise.

Em entrevista em junho deste ano, a ministra do STF Cármen Lúcia explicou que a corte entendeu que tanto os estados e municípios, quanto a União, têm responsabilidade no enfrentamento da pandemia.

“[Nosso governo] concedeu auxílio emergencial em parcelas que somam aproximadamente mil dólares para 65 milhões de pessoas.”: Exagerado

Segundo dados oficiais, o auxílio emergencial realmente foi entregue a mais 65 milhões de pessoas. O valor do benefício em dólar foi, no entanto, exagerado pelo presidente. Desde abril, o governo pagou cinco parcelas de R$ 600 aos beneficiários. Em setembro, o auxílio foi prorrogado, e contará com mais quatro parcelas de R$ 300.

As parcelas, incluindo as que ainda não foram pagas, somam R$ 4.200 ( USD 773, segundo câmbio do Banco do Brasil). O valor é cerca de 20% menor do que o citado por Bolsonaro.

O valor supera, no entanto, o pago a mães solteiras provedoras da família, que tem direito a receber todas as parcelas em dobro, totalizando R$ 8.400, ou cerca de U$ 1.546. O governo não divulgou quantas mães solteiras receberam este benefício mas, segundo o IBGE, o Brasil possuía 11,6 milhões de famílias de mulheres sem cônjuge e com filhos em 2015.

“Não faltaram, nos hospitais, os meios para atender os pacientes de covid-19”: Falso

Em abril deste ano, um informe do Ministério da Saúde destacava que o Brasil ainda não tinha a quantidade suficiente de respiradores, leitos de terapia intensiva, pessoal qualificado e testes diagnósticos para fazer frente à “fase mais aguda” da pandemia do novo coronavírus.

Chamas na Amazônia e no Pantanal

“Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde os caboclos e os índios queimam os seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas.”: Falso

Para explicar os incêndios que afetam a floresta amazônica, onde foram registrados, segundo o Instituto Nacional de pesquisas Espaciais (INPE), 71.673 focos ativos desde o início do ano, Bolsonaro sugeriu que as chamas são causadas por indígenas que ateariam fogo na terra para prepará-la para a agricultura.

Embora essa técnica seja empregada por povos indígenas brasileiros, um levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) de setembro de 2019 concluiu que uma grande proporção dos incêndios que afetam a região está atrelada ao desmatamento.

“O nosso Pantanal, com área maior que muitos países europeus, assim como a Califórnia, sofre dos mesmos problemas. As grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição.”: Enganoso

Com 16.119 focos ativos, segundo o INPE, de janeiro até 21 de setembro – contra 6.052 no mesmo período do ano passado-, o Pantanal enfrenta um número recorde de incêndios, que têm devastado sua fauna e flora.

Embora a seca seja, em parte, responsável pelo desastre, ela não é a única explicação, como já indicou à AFP o engenheiro florestal Vinícius Silgueiro, do Instituto Centro de Vida (ICV).

“A substituição de plantas nativas por pastagens exóticas” fragilizou a resistência da vegetação, afirmou o especialista, destacando, também, que queimadas para limpar o terreno geram incêndios e que essa prática persiste, devido à “sensação de impunidade”.

A Polícia Federal e órgãos do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul identificaram, de fato, indícios de que os incêndios que afetam o Pantanal podem ter em sua origem ações humanas.

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