F for Fake: O roubo intelectual antes e depois do NFT

Crédito: Reprodução

Quadro a Quadro: Cem Monas (2012), obra de Nelson Leirner (Crédito: Reprodução)

FALSO. Do latim falsus, errado, incorreto, enganador.

PLÁGIO. Paródia, arremedo, roubo, cópia, imitação, reprodução.

A nova presidente da Capes, Claudia Mansani Queda de Toledo, defendeu em nota que não houve plágio em sua dissertação de mestrado. A advogada admitiu, no entanto, que há reprodução de trechos já publicados, sem que haja citação.

Se você, leitor desta coluna, já leu esse mesmo lead nos últimos dias, por exemplo, no jornal Folha de S. Paulo, na quarta-feira 21 de abril de 2021, ou não, não importa. Se perdeu a conta de quantas vezes leu o titulo F for Fake em diferentes contextos, sem que tenha assistido ao “original”, o filme de Orson Welles de 1973, também não importa.

Tampouco faz diferença se o espectador das Monalisas reproduzidas por Nelson Leirner na exposição “Quadro a Quadro: Cem Monas” (setembro de 2012, Silvia Cintra + Box 4, RJ), tenha visto ou não a obra original de Leonardo da Vinci no Museu do Louvre. O que importa, defende André Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia, na sua coluna Tecnologias e Letras, no Instagram, citando o filósofo Bruno Latour, é que, “se não houver cópia, o original perde valor, desaparece. É por ter tantas cópias que a Monalisa é tão procurada no Louvre”.

O documentário Fake Art: Uma História Real (2020), de Barry Avrich, em cartaz na Netflix, aborda a maior fraude de arte da história dos EUA, quando telas falsas de Pollock e Rothko foram vendidas por US$ 80 milhões, entre 2000 e 2010. Enquanto isso, no Brasil, o artista Gustavo von Ha canibalizava a action painting do célebre pintor expressionista abstrato e fazia uma “retrospectiva” de falsos Pollocks no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP, 2016). Havia ali uma exposição fake, um catálogo fake e um documentário fake.

“Como curadora, historiadora e pesquisadora da arte do MAC USP, entendo que a proposição de Gustavo von Ha só poderia acontecer aqui neste museu”, disse a curadora Ana Magalhães na época. “Mais do que simplesmente atualizar a crítica institucional, o que ele faz é reconstruir todos os percursos a partir dos quais um artista é legitimado, por assim dizer, pelo sistema da arte”.

O que esses artistas mostravam é que o plágio, feito às claras, pode ser revolucionário e disruptivo. A diferença entre eles e a chefe da Capes é simples: a honestidade no roubo.

No entanto, o plágio dissimulado do trabalho acadêmico da chefe do órgão que regula e fomenta a pós-graduação no país pode ter lá seu sentido pedagógico. Serve-nos para voltarmos a gravitar sobre a complexidade dos conceitos de cópia, reprodução, simulação, apropriação, falsificação e, por que não, sobre o NFT (non-fungible tolken), tecnologia que está usando cadeias de dados criptografados, os blockchain, para gerar um certificado de valor sobre a arte produzida no ambiente digital.

Então, poderíamos entender que, se jogada no mercado das criptomoedas, a dissertação de Queda de Toledo poderia perder sua condição “fungível”, ou seja, substituível, e finalmente ganhar a tão almejada chancela de original.


Sobre o autor

Paula Alzugaray é curadora, critica de arte e editora da revista seLecT. Pós doutoranda em História, Crítica e Teoria da Arte na ECA USP. É autora do livro "Regina Vater: Quatro Ecologias" (Oi Futuro/Fase 3, 2013) e dos documentários “Tinta Fresca” (2004), prêmio de Melhor Media Metragem na 29ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e de "Shoot Yourself" (2012), Prêmio em Poéticas Investigativas, no Cine Move Arte 2012.


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