Em São Paulo, a exposição “A alfabetização do Olhar – um ato de amor e responsabilidade”, do artista plástico Geraldo Lacerdine, busca aproximar a sociedade da população em situação de rua. A mostra, que homenageia o padre Júlio Lancellotti e a Pastoral do Povo da Rua, foi inaugurada na Lacerdine Galeria de Arte, em Higienópolis, com o objetivo de promover uma nova perspectiva sobre essas pessoas.
- A exposição “A alfabetização do Olhar” de Geraldo Lacerdine homenageia o Padre Júlio Lancellotti e a população em situação de rua.
- Realizada na Lacerdine Galeria de Arte, em São Paulo, a mostra reúne mais de 100 fotografias, textos e vídeos.
- O Padre Júlio Lancellotti impôs como condição para a mostra que o protagonismo fosse das pessoas em situação de rua.
São mais de 100 fotografias reunidas na Lacerdine Galeria de Arte, localizada no bairro Higienópolis. Também estão dispostos textos, instalações e vídeos, além de diversos prêmios e reconhecimentos que padre Júlio Lancellotti recebeu ao longo da trajetória.
(Foto: Tr3ze/Divulgação)
Os quadros apresentam registros dos fotógrafos Daniel Camargo Kfouri, Fernando Jenzen, Tr3ze e Victor Angelo Caldini, que mostram o trabalho de Lancellotti desde o período da pandemia de covid-19, em 2020.
Padre Lancellotti disse que a alfabetização do olhar busca ensinar o espectador a ver essas pessoas não como “anjos ou demônios”, mas como seres humanos reais e complexos.
Qual a condição para a mostra?
O curador da exposição, Geraldo Lacerdine, conta que padre Júlio apenas permitiria a realização da mostra se as pessoas em situação de rua tivessem protagonismo.
“Quando a gente propôs a exposição para o padre Júlio, a primeira coisa que ele falou foi o seguinte: se vocês querem fazer uma homenagem a mim e ao meu trabalho, façam uma exposição em que as pessoas na situação de rua sejam o centro, e não eu”, contou Lacerdine.
Algumas fotografias focam a atenção nas ações humanitárias, representando padre Júlio quase como um santo. Outras preferem mostrar as pessoas em situação de rua, evidenciando suas dores, mas também momentos de alegria e dignidade.
Além de uma fotografia documental, que coloca o objeto em cena distante do observador, a exposição também explora formatos que aproximam os visitantes da imagem.
Um exemplo disso são três imagens de mulheres em situação de rua sorrindo para a câmera. A disposição das fotografias cria uma aproximação entre as mulheres e os observadores, o que dialoga diretamente com a ideia de “alfabetização do olhar”.
(Foto: Tr3ze/Divulgação)
As imagens criam esse senso de conexão porque foram tiradas com respeito e confiança mútua entre os fotógrafos da Pastoral e as pessoas representadas.
“As fotos não são posadas ou artificiais. Elas capturam momentos espontâneos resultantes de um longo período de convivência e conhecimento mútuo entre os fotógrafos e as pessoas retratadas”, disse padre Júlio.
A visão dos fotógrafos
Segundo o fotógrafo Tr3ze, para registrar essas pessoas, “você tem que realmente andar entre elas, conviver entre elas e ganhar confiança”. Ele conta que seus registros começaram fotografando as filas de distribuição de pães e, aos poucos, as pessoas vinham conversar com ele.
Ele diz que o processo demanda certa atenção, porque muitos acham que vão ser denunciados ou que a foto será enviada à polícia. Mas Tr3ze também conta que muitos gostam do contato. “Por serem totalmente ignoradas socialmente, elas querem conversar, querem ser escutadas”, disse.
Da IstoÉ