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Exploração de madeira e carvão causa devastação ambiental na RD Congo

Exploração de madeira e carvão causa devastação ambiental na RD Congo

Exploração ilegal da madeira é galopante em todo o país - AFP/Arquivos

A República Democrática do Congo abriga grande parte da floresta da Bacia do Congo, na África, o ‘pulmão verde’ do continente e a segunda maior floresta tropical do mundo, depois da Amazônia.

Mas o desafio de lutar contra as mudanças climáticas está se revelando uma tarefa árdua demais em um país afetado por conflitos, desgoverno e doenças.

A República Democrática do Congo divide a Bacia, de 150 milhões de hectares, com o vizinho Camarões, a República Centro-africana, o Gabão, a Guiné Equatorial e Congo-Brazzaville.

A região é o lar de dezenas de milhões de habitantes e de uma enorme variedade de espécies.

Também é uma “reserva de carbono” que armazena o equivalente a seis anos de emissões globais de dióxido de carbono (CO2), segundo a Central African Forest Initiative (Iniciativa Florestal da África Central, em tradução livre), uma parceria de países ocidentais e africanos.

A gestão da parte da República Democrática do Congo na Bacia é determinada por seu código florestal de 2002, mas apenas 8% são administradas de forma que atenda às diretrizes, segundo estatísticas oficiais.

As normas limitam estritamente quantas árvores podem ser derrubadas ao ano por empresas que tenham recebido concessão, mas a exploração ilegal e descontrolada da madeira zomba dessas normas, enquanto agentes estatais costumam ser cúmplices dos abusos.

A prática é denunciada amplamente em Kisangani, principal cidade da província de Tshopo (nordeste).

“Há legisladores e soldados envolvidos. Mas você não pode dizer nada. Eles estão no comando”, diz Felicien Liofo, diretor de uma associação de artesãos em madeira.

“Eles não pagam impostos, é uma concorrência injusta”, acrescenta.

Felicien Malu, coordenador regional de questões ambientais e desenvolvimento sustentável, concorda com Liofo. “Você não pode atacá-los, eles usam procuradores”.

Malu supervisiona aproximadamente 1.200 trabalhadores, encarregados de cobrir uma província que tem seis vezes o tamanho da Bélgica, mas que não são pagos, afirma, e falta equipamento de que precisam para trabalhar em um terreno com condições adversas.

– ‘Natureza arruinada’ –

Durante a Conferência do Clima, em Madri (COP25), a seção africana do Greenpeace e uma coalizão de oito organizações não governamentais dos dois Congos pediram uma suspensão de todas as atividades industriais em regiões cobertas por turfa, antigas áreas pantanosas que armazenam enormes quantidades de carbono.

As atividades nestas áreas incluem exploração de petróleo, de madeira e agricultura industrial.

No ano passado, o aplicativo de monitoramento florestal Global Forest Watch reportou que a RDCongo havia perdido cerca de 481.000 hectares de floresta, o equivalente a 556 megatoneladas de emissões de CO2.

O uso generalizado de carvão em um país onde milhões de pessoas não têm acesso a energia elétrica, gás ou outras fontes de energia limpa, aumenta a pegada ecológica da RDCongo.

A maioria dos 80 milhões de habitantes do país usam o carvão – conhecido localmente como ‘makala’ – para atividades domésticas, como cozinhar.

“É muito importante, pois não temos outros meios de preparar os alimentos. Não temos eletricidade”, explica Solange Sekera.

O papel-chave deste combustível foi o tema do filme do diretor francês Emmanuel Gras, “Makala”, apresentado no Festival de Cannes em 2017.

“Ele gera enormes problemas de desmatamento. A natureza ao redor tem sido, em grande parte, deixada em ruínas”, explicou ao canal de TV Arte.

Nos arredores da capital, Kinshasa – onde vivem cerca de 10 milhões de pessoas – há escassas árvores a leste do platô Bateke ou ao longo de algumas encostas de montanhas.

Segundo o grupo de estudos francês Cirad, Kinshasa consome cinco milhões de toneladas de madeira por ano de uma floresta nativa periurbana de 60.000 hectares, acrescentando que com a aceleração da urbanização, “a pressão aumenta sobre as florestas nativas”.

Na cidade de Goma (leste), com dois milhões de habitantes, a busca por carvão ameaça o parque natural Virunga, um santuário para os ameaçados gorilas das montanhas, mas que atrai grupos armados, que traficam tudo o que puderem, inclusive o carvão.

O Fundo Mundial para a Natureza (WWF) liderou um projeto para conter o desmatamento, com o plantio de eucaliptos, de rápido crescimento, e a introdução de fogões de “eco makala”, que usam menos madeira.

– O fim das florestas –

Um morador local disse que o projeto conduzido pela WWF era “interessante” mas acrescentou que “o comércio de ‘makala’ é um negócio bilionário” apenas na província de Kivu do Norte.

“Para suplantá-lo, será preciso introduzir uma cadeia de valor diferente e tão poderosa quanto”, explicou.

O presidente recém-eleito, Felix Tshisekedi, fez do maior acesso à eletricidade uma prioridade, mas muitas pessoas têm expressado temores sobre os danos provocados pela construção da enorme represa para a hidrelétrica Inga 3, executada por um consórcio sino-espanhol.

Enquanto isso, Tshisekedi fez um alerta sombrio.

“Em vista da taxa atual de crescimento populacional e nossas demandas de energia, nossas florestas podem desaparecer em 2100”, afirmou.