O sismo que abalou os pilares da nação brasileira no 8 de janeiro vai-se amainando e as equipes de controle de danos promovem os trabalhos para a normalização das rotinas democráticas.
Os Poderes da República, com a cooperação de boa parte da sociedade, começaram a pôr em prática as estratégias para acelerar a conquista dos dois principais objetivos do Estado de Direito assinalados como Paz e Bem-Estar Sociais.
Nessa linha, há poucos dias, o Comandante do Exército expediu a Diretriz de Comando para o quadriênio 2023-2026, documento que orienta a Força Terrestre para os desafios vindouros e estabelece a intenção do chefe, conhecida no jargão militar como “missão pela finalidade”.
O site do Exército (http://www.eb.mil.br/) traz na íntegra esse documento e aqueles interessados em conhecê-lo poderão avaliar per se a maneira como a Força Terrestre olha o futuro.
Chama atenção a simplicidade do texto, ainda que redigido em vocabulário predominantemente militar, capaz de ser compreendido tanto pela caserna, quanto pela sociedade a quem a Força Terrestre deve servidão.
Após as palavras iniciais e a declaração da sua intenção, o chefe militar discorre sobre as premissas que gerarão diretrizes mais abrangentes.
Fiquemos apenas nas premissas com o objetivo de conhecer o arcabouço do processo de liderança daquela autoridade.
O Comandante indica a necessidade de que o Exército deve se preparar, em alto nível, para passar a imagem de força adestrada e profissional capaz de dissuadir oponentes desejosos de ofender a soberania nacional.
Nesse contexto, destaca como ambientes ou ações operacionais a Amazônia, a cooperação nas missões de paz da ONU e o domínio do espectro cibernético.
Deixa, ainda, a certeza de que o conflito Rússia-Ucrânia, ao representar um cenário de incerteza, com a prevalência na geopolítica do quesito poder militar, precisa ser conhecido e reverberado nos estudos prospectivos da doutrina da Força.
Quanto aos reajustes das relações entre civis e militares, abaladas pelos eventos mais recentes na política nacional, impõe que o Exército deve comportar-se como instituição de Estado, apolítica e apartidária, uma rememoração ajustada ao espírito do nosso tempo (zeitgeist) da ideia proferida pelo General Góis Monteiro, afirmando que o Exército devia ater-se à política da Força e evitar a política na Força.
Ao insistir em uma comunicação estratégica atualizada, transparente e abrangente como vacina contra a desinformação reinante nas bolhas digitais (embora não claro, incluiu a própria bolha militar), persegue o fortalecimento da imagem e da coesão da Força, invocando de cada homem ou mulher fardados um comportamento pautado pela legalidade e legitimidade.
Compreende as disputas entre os novos polos de poder, representados pelos agrupamentos em torno dos Estados Unidos e da China, um cenário novo e, portanto, desconhecido, como indutor de tecnologias inovadoras, em especial as duais (que atendem tanto ao meio civil, quanto ao militar), exigindo por consequência alterações nas técnicas operacionais nas arenas de batalha.
Relembrando uma crítica de Churchill às Forças Armadas inglesas, incontestavelmente profissionais, mas na ocasião da fala ancoradas nas lições pretéritas, dizia o primeiro-ministro: quem se prepara para a última guerra será derrotado na próxima.
Sabe o Comandante, e por isso a ilumina, que qualquer ação na linha de frente exige da retaguarda uma logística eficiente, ademais, em tempos de paz, uma gestão consciente dos recursos orçamentários tão escassos em nossos dias.
Defende a racionalização de meios materiais e de recursos humanos, propondo o uso intensivo da tecnologia de simulação de combate e de jogos de guerra com emprego de IA como forma de adestrar os quadros com gastos mais adequados à nossa realidade.
Acredita na promoção e cooperação entre os institutos técnicos militares, a indústria e a academia, promovendo iniciativas em ciência, tecnologia e inovação (CT&I) de interesse para o setor de defesa.
Toma a proteção ambiental da região Amazônica, alvo de interesses e contenciosos nacionais e internacionais, como braço de projeção de poder e da certificação da liderança mundial do Brasil na gestão racional da biodiversidade.
Enfim, sem abdicar dos valores e tradições herdados desde a formação do Exército em Guararapes, o documento mostra a preocupação da Força em romper organizada a linha de frente desta batalha da narrativa que envolve razão e emoção.
Os próximos anos definirão o arcabouço desejado para as Forças Armadas, segundo o desejo de uma sociedade que deve estar atenta, iluminando o papel dos militares no Estado Brasileiro.
Acompanhar e conhecer as Forças Armadas reduzirá os riscos de incompreensão entre os estamentos civil e militar, um tema sempre latente desde a Proclamação da República.
Paz e bem!