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Europa testa quatro tratamentos contra novo coronavírus

Europa testa quatro tratamentos contra novo coronavírus

Cientista mostra resultados de exames do novo coronavírus no centro médico Sourasky, em Tel Aviv, 19 de março de 2020 - AFP

A Europa colocou em andamento um teste clínico de quatro tratamentos experimentais contra o novo coronavírus, reunindo 3.200 pacientes de vários países do continente.

Seguem abaixo alguns elementos-chave desta pesquisa contra a Covid-19, doença para a qual ainda não existe tratamento:

Metodologia

O teste, batizado de Discovery, incluirá 3.200 pacientes de Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Holanda, Luxemburgo e Reino Unido, e, talvez, de outros países.

Cada paciente receberá um dos quatro tratamentos terapêuticos de forma aleatória, distribuídos mediante uma operação de informática, de forma que não são os médicos que escolhem. “Isto nos permite definir a amostra do teste”, explica a médica Florence Ader, infectologista no hospital da Cruz Vermelha do Centro Hospitalar Universitário (CHU), que comanda o projeto.

Pacientes envolvidos

No caso da França, por exemplo, o teste clínico será aplicado em 800 pacientes internados no setores de doenças infecciosas e reanimação. Tratam-se de pessoas que apresentam sintomas respiratórios, principalmente pneumonia, e/ou com necessidade de fornecimento de oxigênio, segundo Florence.

O tratamento começou rapidamente para estes pacientes, uma vez que “os prazos parecem ser um fator importante nesta doença”, assinala a especialista.

Quanto mais se avança na Covid-19, a presença do vírus passa a ser menos importante, motivo pelo qual, “se queremos obter um efeito antiviral com uma molécula, temos que administrá-la muito cedo”, explica Bruno Lina, professor de virologia no CHU de Lyon.

As moléculas em teste

As moléculas devem aliar dois efeitos: eficácia e tolerância.

– O remdesivir:

É um antiviral concebido inicialmente para o vírus ebola, mas “com um raio de ação mais amplo, uma vez que interage com outros vírus e é, sobretudo, capaz de bloquear a reprodução deste novo coronavírus”, detalha Lina. “Esperamos muito desta molécula, uma vez que os primeiros resultados in vitro foram muito bons”, comenta.

– O lopinavir combinado com o ritonavir:

Trata-se da “reciclagem” de um medicamento contra o HIV, que “consiste em bloquear a reprodução do vírus”, segundo o pesquisador. “Percebemos que, no tubo de ensaio, funciona.”

A combinação já foi testada na China, mas com resultados mitigados, principalmente porque muitos pacientes “foram incluídos tardiamente, até mesmo depois do 10º dia de doença”, segundo Lina. O teste Discovery será, portanto, complementar.

– A mesma combinação lopinavir/ritonavir, associada ao interferon-beta:

Esta associação é considerada interessante, uma vez que a Covid-19 compreende duas fases: uma “para a qual acreditamos que os antivirais podem ter um efeito importante”, e outra “com uma síndrome inflamatória que pode gerar degradações em nível pulmonar, e esperamos que o interferon bloqueie este processo inflamatório”, explicou o virologista.

– A hidroxicloroquina:

Este medicamento, semelhante à cloroquina, não estava previsto, a princípio. Foi incluído a pedido da OMS e do governo francês.

“Pareceu lógico para nós acrescentá-lo, uma vez que nos proporcionaram dados recentes, principalmente um estudo chinês de 9 de março publicado na revista de infectologia mais importante dos Estados Unidos, com argumentos de peso”, explica Florence Ader.

Por que a hidroxicloroquina, em vez da cloroquina? As duas moléculas agem da mesma forma, mas a primeira apresenta menos riscos de toxicidade, segundo Lina.

Prazos

Os primeiros tratamentos na França começaram no domingo, no hospital Bichat de Paris e no CHU Lyon. A escolha dos hospitais é feita “em função do mapa da epidemia”. Em outros países, “dependerá da capacidade dos mesmos de realizar seus respectivos testes”, diz Florence Ader. A primeira avaliação clínica ocorrerá no 15º dia de tratamento. “Nas próximas semanas, começaremos a ter os primeiros resultados.

Em caso de sucesso

No momento em que um teste “mostrar a superioridade de um dos quatro diagramas terapêuticos, poderemos propor aos órgãos reguladores o seu uso”, explicam os especialistas. O tratamento poderá, então, ser liberado “muito rapidamente, levando em conta que estamos em situação de carência terapêutica”, assinalam, pedindo, no entanto, cautela, uma vez que “ainda não se conhecem os efeitos” destes tratamentos.