A proximidade das eleições legislativas dos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, aumentou a preocupação de autoridades eleitorais e especialistas em segurança com possíveis tentativas de interferência do governo do presidente Donald Trump no processo de votação.
Enquanto representantes estaduais discutem medidas para preservar a autonomia das eleições, integrantes do movimento conservador MAGA, sigla de Make America Great Again, chegaram a debater a possibilidade de adoção de lei marcial caso considerem que o resultado eleitoral foi comprometido por fraudes.
As discussões ocorrem em um ambiente de forte polarização política, marcado por disputas judiciais sobre o cadastro de eleitores, acusações de irregularidades e questionamentos sobre os limites da atuação do governo federal.
Não há, entretanto, confirmação de que a Casa Branca tenha decidido decretar lei marcial ou suspender o processo eleitoral. As propostas mencionadas partiram de ativistas e aliados políticos, e não representam uma medida oficialmente anunciada pelo governo.
Autoridades estaduais se preparam para possíveis interferências
Um grupo formado por aproximadamente dez profissionais e ex-integrantes de órgãos de segurança nacional dos Estados Unidos passou a conversar com representantes de governos estaduais sobre possíveis cenários de interferência federal nas eleições.
Segundo informações divulgadas pela imprensa americana, a iniciativa alcançou autoridades de dez estados, incluindo integrantes dos partidos Democrata e Republicano.
O objetivo é discutir respostas institucionais e jurídicas caso ocorram tentativas de modificar procedimentos eleitorais, pressionar funcionários responsáveis pela votação ou ampliar a presença de agentes federais em atividades administradas pelos estados.
A preocupação também mobiliza procuradores-gerais estaduais, que têm realizado reuniões e exercícios de preparação para eventuais conflitos envolvendo autoridades federais e locais.
Nos Estados Unidos, a organização das eleições é predominantemente responsabilidade dos estados, embora o Congresso tenha competências constitucionais para estabelecer determinadas regras federais.
Essa divisão de atribuições está no centro das disputas envolvendo o governo Trump.
Aliados de Trump discutem possibilidade de lei marcial
Paralelamente às iniciativas de preparação dos estados, ativistas ligados ao movimento MAGA passaram a defender medidas excepcionais para enfrentar supostas irregularidades eleitorais.
Entre as propostas debatidas estão a intervenção sobre materiais utilizados na votação, mudanças nos procedimentos de apuração e a possibilidade de decretação de lei marcial.
Uma das figuras envolvidas nas discussões é Tina Peters, conhecida por promover alegações de fraude relacionadas à eleição presidencial de 2020.
O advogado Peter Ticktin, associado às discussões, também defendeu publicamente medidas extraordinárias caso surjam novas acusações de fraude eleitoral.
A hipótese de lei marcial, que envolve a utilização excepcional de autoridade militar em funções normalmente exercidas por instituições civis, provoca preocupação por suas possíveis consequências para as liberdades individuais e o funcionamento democrático.
Contudo, a legislação americana não concede ao presidente autorização irrestrita para assumir o controle das eleições estaduais ou suspender direitos constitucionais mediante uma declaração unilateral.
Especialistas ressaltam que uma eventual tentativa de interferência dessa natureza enfrentaria obstáculos legais e poderia ser contestada imediatamente na Justiça.
Democratas recorrem à Justiça contra governo Trump
As preocupações ganharam um novo capítulo com uma ação judicial apresentada por lideranças democratas contra a administração Trump.
O processo busca impedir que autoridades federais interfiram ilegalmente na manutenção dos cadastros eleitorais ou pressionem funcionários estaduais responsáveis pela organização da votação.
Entre os autores da ação estão o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, e o líder do partido na Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries.
Os democratas alegam que o governo federal tem utilizado acusações de participação irregular de pessoas sem cidadania americana para pressionar estados a retirar eleitores de seus registros.
A ação também questiona ameaças de responsabilização criminal contra autoridades eleitorais.
O Departamento de Justiça rejeita as acusações de irregularidade e sustenta que suas iniciativas estão fundamentadas na legislação, com o objetivo de garantir que apenas eleitores habilitados participem da votação.
A Casa Branca também defende o endurecimento dos mecanismos de fiscalização eleitoral e acusa adversários políticos de resistirem a medidas de segurança.
Presença de agentes federais preocupa governos locais
Outra questão levantada por autoridades estaduais é a possibilidade de utilização de agentes federais nas proximidades dos locais de votação.
O condado de Arlington, na Virgínia, apresentou uma ação judicial contra o governo federal diante de preocupações com uma eventual mobilização de agentes armados para atividades relacionadas às eleições.
Os responsáveis pela ação argumentam que a presença de forças federais poderia intimidar eleitores e prejudicar o funcionamento das seções eleitorais.
Por outro lado, especialistas em administração eleitoral destacam que os Estados Unidos possuem mecanismos jurídicos e institucionais destinados a proteger a votação contra interferências indevidas.
David Becker, especialista em integridade eleitoral, avalia que autoridades estaduais e municipais estão preparadas para conduzir o processo e considera improvável que uma intervenção generalizada impeça a realização das eleições.
O que está em jogo nas eleições de novembro?
As chamadas midterms, eleições realizadas na metade do mandato presidencial americano, vão renovar as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e aproximadamente um terço do Senado.
O resultado determinará o equilíbrio de forças no Congresso durante os dois últimos anos do atual mandato de Trump.
Uma vitória democrata em uma ou nas duas Casas poderia ampliar a fiscalização sobre o Executivo e dificultar a aprovação de parte das propostas do presidente.
Já a manutenção do controle republicano permitiria ao governo preservar uma base legislativa mais favorável à sua agenda.
Diante desse cenário, organizações de defesa do direito ao voto, autoridades estaduais e representantes dos partidos acompanham com atenção as disputas jurídicas e as declarações de integrantes do governo.
Apesar das tensões, não há evidências apresentadas que comprovem a existência de fraude eleitoral generalizada capaz de justificar medidas extraordinárias.
O principal desafio das autoridades será garantir que a votação de 3 de novembro ocorra de acordo com a legislação, com participação dos eleitores habilitados e apuração independente dos resultados.
Da IstoÉ