Os chefes da diplomacia de Estados Unidos e Rússia, John Kerry e Serguei Lavrov, acertaram um cessar-fogo para a Síria que deve começar na noite deste domingo – anunciou o secretário americano de Estado nesta sexta (9), ao final de uma longa negociação em Genebra.
“Hoje, Estados Unidos e Rússia anunciam um plano pelo qual, esperamos, se poderá reduzir a violência e o sofrimento, e retomar o caminho para uma paz negociada e uma transição política”, declarou Kerry, ao lado de Lavrov.
O plano russo-americano “permite instalar uma coordenação eficaz para lutar contra o terrorismo, sobretudo em Aleppo, e permite reforçar o cessar-fogo. Tudo isso cria as condições para um retorno ao processo político”, explicou Lavrov.
O secretário de Estado destacou que, se a trégua puder ser mantida por “uma semana”, abrirá caminho para uma cooperação entre as forças militares de EUA e Rússia – uma proposta de longa data de Moscou -, visando a combater os extremistas islâmicos na Síria.
Os Estados Unidos “acreditam que a Rússia e meu colega (Lavrov) têm a capacidade de pressionar o regime de (Bashar al) Assad para deter este conflito e sentar na mesa de negociações para se obter a paz”, completou Kerry.
Lavrov reconheceu, porém, que não tem como garantir em “100%” o sucesso desse novo plano. A iniciativa russo-americana anterior, aprovada pelas Nações Unidas em fevereiro, fracassou.
Na prática, além da luta contra o EI, as duas partes concordaram em reforçar sua ação contra todas as forças extremistas, sobretudo, contra a Frente Fateh al-Sham – a ex-Frente Al-Nusra, que recentemente renunciou ao seu vínculo com a rede Al-Qaeda.
Se a trégua prosperar, a cooperação passará, em particular, pela troca de informações para bombardeios aéreos, o que Washington se recusou a fazer até o momento.
Lavrov anunciou a criação de um “centro conjunto” russo-americano destinado a coordenar esses ataques, “no qual militares e representantes dos serviços secretos russos e americanos se ocuparam de questões práticas: distinguir os terroristas da oposição moderada e diferenciar a oposição moderada dos terroristas”.
Para as Nações Unidas, um êxito nas negociações sobre a Síria entre Estados Unidos e Rússia representa “uma grande diferença em termos de ajuda humanitária, afirmou o enviado especial da ONU, Staffan de Mistura, que também se encontra na Suíça.
Esses anúncios foram feitos, no momento em que a situação humanitária se torna cada vez mais crítica na cidade de Aleppo, sitiada desde quinta-feira pelas forças do governo Al-Assad.
Na quarta-feira, em Londres, a oposição síria apresentou um plano de transição política.
A primeira etapa do projeto da oposição síria prevê uma fase de seis meses em que “as duas partes negociadoras terão que se comprometer a respeitar uma trégua provisória” e com o retorno de milhares de deslocados e refugiados.
Durante a segunda etapa, que duraria 18 meses, a Síria seria comandada por um governo transitório, que iria requerer “a saída de Bashar al-Assad e seu grupo”.
A terceira e última etapa permitiria consolidar as transformações através de “eleições locais, legislativas e presidenciais” organizadas “sob a supervisão e com o apoio técnico das Nações Unidas”.
O plano retoma os passos estabelecidos em novembro de 2015 pelas grandes potências em Viena, mas que não fixava o destino de Bashar al-Assad.
O conflito na Síria – envolvendo as forças de Al-Assad, rebeldes opostos ao regime e grupos fundamentalistas como o Estado Islâmico – já deixou mais de 290 mil mortos e milhões de deslocados e refugiados.