Comportamento

EUA se une para dar adeus solene ao ex-presidente George H. W. Bush

EUA se une para dar adeus solene ao ex-presidente George H. W. Bush

O ex-presidente George W. Bush e sua esposa Laura no momento da chegada do caixão de George H. W. Bush ao Capitólio, em 3 de dezembro de 2018 - AFP

Os Estados Unidos deixaram de lado suas profundas divergências políticas para dar um adeus solene ao ex-presidente George H. W. Bush, em um funeral, nesta quarta-feira, que demonstrou um raro momento de unidade em meio ao clima de confronto que marca o governo de Donald Trump.

O 41º presidente americano, falecido na sexta-feira aos 94 anos, foi homenageado como um patriota que sempre pôs em primeiro lugar o interesse geral, em uma cerimônia emotiva na Catedral Nacional em Washington, na presença de Trump e de todos os ex-presidentes americanos vivos.

“Para nós, ele era o mais brilhante de mil pontos de luz”, disse seu filho, o ex-presidente George W. Bush, em alusão à famosa frase de seu pai sobre a rica diversidade do país.

“Mostrou-me o que significa ser um presidente que serve com integridade, lidera com valentia e age com amor em seu coração pelos cidadãos do nosso país”, declarou, destacando com humor a hiperatividade, a aversão às verduras e a lealdade à família e aos amigos que caracterizaram seu pai.

“Quando escreverem os livros de história, dirão que George H. W. Bush foi um grande presidente dos Estados Unidos”, concluiu.

As palavras de Bush sobre o pai foram acompanhadas pelo também republicano Trump e sua esposa, Melania, sentados na primeira fila na imponente catedral neogótica ao lado dos três ex-presidentes democratas: Barack Obama, Bill Clinton e Jimmy Carter, acompanhados, respectivamente, de suas esposas – Michelle Obama, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton e Rosalynn Carter.

– “Um grande homem” –

Trump, cuja ascensão no Partido Republicano provocou um áspero confronto com o tradicional clã Bush, destacou nesta quarta-feira a personalidade do falecido ex-presidente.

“Isto não é um funeral, é um dia de celebração para um grande homem que levou uma vida longa e distinta. Fará falta!”, tuitou mais cedo, antes da cerimônia.

Trump não compareceu em abril ao funeral de Barbara Bush, esposa de George H.W, muito estimada pelos americanos.

Mas desde a morte do patriarca dos Bush, o presidente americano deixou de lado o estilo agressivo, aparentemente decidido a prestar todas as homenagens e fazer as pazes com sua família: mandou o avião presidencial ao Texas para trazer o caixão, convidou os familiares a ficarem na Blair House, a residência de hóspedes presidencial em frente à Casa Branca, e na terça visitou George W. Bush e sua esposa, Laura.

Com o funeral, Washington deu uma pausa à tóxica retórica política, embora a trégua entre Trump e seus antecessores democratas tenha parecido incômoda.

Ao chegar à igreja, Trump e Obama trocaram o primeiro aperto de mãos desde a sucessão presidencial, em 20 de janeiro de 2017. Mas Trump não cumprimentou Hillary Clinton, sua adversária derrotada em uma agressiva campanha em 2016. Os dois sequer trocaram olhares.

Altos dirigentes internacionais foram convidados à cerimônia, como o príncipe Charles, da Inglaterra; a chanceler alemã, Angela Merkel; o rei jordaniano, Abdullah II, e a rainha Rania; e os ex-presidentes da Polônia, Lech Walesa, e do México, Carlos Salinas de Gortari. O papa Francisco enviou suas “sinceras condolências” em um telegrama.

– “De mãos dadas com mamãe” –

Bush pai, que comandou os Estados Unidos entre 1989 e 1993, nos turbulentos anos do fim da Guerra Fria, foi saudado por dezenas de milhares de americanos, que desfilaram silenciosamente desde a segunda-feira para prestar-lhe sua homenagem na capela da Rotunda do Capitólio, onde também foi visto seu fiel labrador, Sully.

Nascido em uma família rica da Nova Inglaterra e filho de um senador, Bush teve uma produtiva carreira política antes de chegar à Casa Branca: foi condecorado piloto de caça na Segunda Guerra Mundial, embaixador na China, diretor da Agência Central de Inteligência (CIA) e vice-presidente de Ronald Reagan.

“Foi o último grande estadista dos Estados Unidos”, disse na quarta-feira seu biógrafo, o historiador Jon Meacham.

“Seu credo em vida era dizer a verdade, não culpar as pessoas, ser forte, fazer as coisas da melhor forma possível, esforçar-se, perdoar, manter o rumo”, declarou na catedral.

A morte de Bush foi considerada por muitos o fim de uma era marcada pela decência e o respeito.

“Não tem que ser assim”, declarou o reverendo Russell Levenson em sua homilia. “Talvez seja um convite para preencher o vazio que deixou”.

Bush, cujo corpo foi enviado de volta para o Texas após a cerimônia, será sepultado na quinta-feira atrás da biblioteca e museu que levam seu nome no campus da Universidade do Texas A&M. Ali, repousará ao lado da esposa, Barbara, o amor de sua vida, como costumava dizer, e de Robin, filha dos dois, que morreu de leucemia em 1953, aos três anos, e por quem ele nunca deixou de rezar.

“Em nossa dor, sorrimos sabendo que papai está abraçando Robin e dando a mão à mamãe outra vez”, disse, emocionado, seu filho George, nesta quarta-feira.