EUA buscam "sufocar" Cuba sem petróleo de México e Venezuela

EUA buscam "sufocar" Cuba sem petróleo de México e Venezuela

"ImportaçãoApós cortar envios de Caracas, Trump agora ameaça punir com tarifas o México, maior abastecedor energético dos cubanos. Ilha depende de importações, e Casa Branca quer novo governo em Havana.O presidente Donald Trump assinou nesta sexta-feira (30/01) uma ordem executiva que estabelece que os Estados Unidospoderão impor tarifas a bens provenientes de países que vendam ou forneçam petróleo para Cuba. A medida vem como uma aparente tentativa de sufocar o suprimento energético da ilha caribenha, que até há pouco se estimava depender em grande medida de México e Venezuela, dois aliados na América Latina.

O republicano aumenta a pressão principalmente sobre o México , que a Casa Branca quer ver se distanciar dos cubanos. O país funciona atualmente como uma espécie de tábua de salvação para Cuba, depois de ter aumentado o fornecimento de combustíveis para o aliado no governo do presidente Andrés Manuel López Obrador, entre 2018 e 2024.

No início do mês, Trump já anunciara que pretendia suspender o envio de petróleo da Venezuela a Cuba. A produção petrolífera está no centro da crise política que levou à captura de Nicolás Maduro, levado por agentes americanos para Nova York.

"Considero que a situação em relação a Cuba constitui uma ameaça incomum e extraordinária para a segurança nacional e a política externa dos EUA", disse Trump no documento assinado nesta sexta-feira, declarando "emergência nacional". A Casa Branca acusa o governo cubano de se alinhar a seus adversários, perseguir opositores, restringir liberdades e outras violações de direitos.

Dependência de aliados

O governo cubano divulga dados limitados sobre contratos com países aliados e as importações de combustíveis, mas estima-se que o México seja responsável por quase 45% do fornecimento de petróleo bruto para a ilha.

Em seu relatório mais recente, a estatal petrolífera mexicana Pemex informou ter enviado quase 20 mil barris por dia a Cuba entre janeiro e 30 de setembro de 2025. O governo mexicano tem manifestado solidariedade aos cubanos e, ao mesmo tempo, a presidente Claudia Sheinbaum busca construir uma relação forte com Trump.

Em setembro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, visitou a Cidade do México. Depois disso, Jorge Piñon, especialista do Instituto de Energia da Universidade do Texas que monitora os envios por tecnologia satelital, reportou que o número havia caído para cerca de 7 mil barris ao dia.

Já a Venezuela era, até o ano passado, apontada como a segunda grande fornecedora de barris, responsável por cerca de um terço do total enviado para os cubanos, seguida pela Rússia. Os carregamentos são, ainda assim, insuficientes para abastecer a ilha, que depende das importações de combustíveis.

Uma queda abrupta de cerca de 30% na disponibilidade de combustível na ilha, que representa aproximadamente o vazio deixado por Caracas, resultaria em redução de 27% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo cálculo do economista cubano Miguel Alejandro Hayes. O estudou também previu aumento de 60% nos preços dos alimentos e de 75% nos do transporte, além de queda de 30% no consumo das famílias.

Em cima do muro

A última semana já havia sido marcada por especulações de que o México reduziria drasticamente os envios de petróleo a Cuba como resultado da crescente pressão dos EUA.

Sheinbaum tem sido vaga ou ambígua sobre o tema. A presidente disse, na terça-feira, que a Pemex havia, ao menos temporariamente, pausado alguns envios a Cuba. Segundo ela, a pausa fazia parte de flutuações gerais e se tratava de uma "decisão soberana", e não tomada sob pressão dos EUA.

Ela negou, no dia seguinte, que tivesse dito que o México havia "suspendido" completamente os envios, afirmando que as decisões sobre o tema são determinadas por contratos da Pemex. Disse, ainda, que o país continuaria enviando ajuda humanitária, e o governo ainda decidiria se isso incluiria petróleo bruto.

Trump e Sheinbaum conversaram por telefone na manhã de quinta-feira. Segundo a mexicana, Cuba não foi tema na ligação. As diplomacias dos dois países estariam em contato sobre o tema, segundo ela, com o México disposto a atuar como intermediário entre EUA e Cuba.

A pressão sobre o México coincide com a revisão, neste ano, do tratado comercial que o país latino-americano mantém com Estados Unidos e Canadá.

Nesta sexta, após a ordem executiva de Trump, Sheinbaum declarou que seu país procuraria soluções diplomáticas e alternativas para ajudar Cuba, e que discutiria o assunto com representantes da Casa Branca.

Segundo ela, as tarifas de Trump arriscam desencadear uma "crise humanitária abrangente, afetando diretamente hospitais, comida e outros serviços básicos para a população cubana". " Uma situação que precisa ser evitada", afirmou, frisando ao mesmo tempo não querer "botar nosso país em risco em termos de tarifas".

Pressão política

Com o fim do envio do petróleo de Venezuela e México, a Casa Branca espera forçar uma mudança de regime em Cuba, que vive uma crise econômica e social. Desde a captura de Maduro, Trump ameaça o presidente Miguel Díaz-Canel, sucessor de Raúl Castro, afirmando que o seu governo está com os dias contados.

O fornecimento de petróleo é tema sensível para a economia cubana. As importações de combustíveis são necessárias para manter um sistema elétrico já fragilizado.

Os apagões são um problema crônico, que se intensificou em janeiro, desde a operação americana na Venezuela. Em amplas regiões do país, os blecautes superam 20 horas diárias.

Cálculos independentes estimam que Cuba precise atualmente de cerca de 110 mil barris de petróleo por dia. Poços na costa norte da ilha produzem 40 mil barris diários, sendo necessário importar os 70 mil restantes. A falta de divisas impede que a cifra seja alcançada.

Cuba critica "coerção tarifária"

O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos F. de Cossio, escreveu na rede social X que os EUA estão reforçando seu bloqueio contra Cuba após "décadas de fracasso de uma guerra econômica implacável" e tentando "forçar Estados soberanos a aderirem ao embargo".

"Sob ameaça de coerção tarifária, eles devem decidir se renunciam ao direito de exportar seu próprio combustível para Cuba", escreveu ele.

Não se sabe com certeza se Cuba fecha acordos de colaboração para enviar pessoal médico a outros países em troca de combustíveis. Ou, ainda, se há alternativas em vigor, como compromisso de pagamentos via crédito, doações ou cobranças abaixo do preço do mercado.

Uma investigação do The New York Times já afirmou que Cuba revendia à China parte do petróleo que recebia da Venezuela como forma de obter divisas, diante da queda vertiginosa do turismo e das remessas.

ht/ra (EFE, AP, Reuters)