EUA atacam cargueiro iraniano no Golfo de Omã; Teerã promete retaliação

Incidente no Golfo de Omã eleva tensões; Teerã considera ação pirataria e promete resposta militar iminente

Comando Militar dos EUA
Imagem mostra destróier americano abordando navio do Irã Foto: Comando Militar dos EUA

A Marinha dos Estados Unidos abriu fogo contra um cargueiro iraniano no Golfo de Omã, nesta segunda-feira, 20, assumindo o controle da embarcação em uma escalada de tensões. O navio iraniano, que tentava romper o bloqueio americano aos portos do Irã, foi interceptado por um destróier após se recusar a parar, conforme relatado pelo presidente Donald Trump na rede social Truth. Em resposta à ação, o Irã prometeu uma retaliação iminente.

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O que aconteceu

  • A Marinha dos EUA atirou contra o cargueiro iraniano “Touska” no Golfo de Omã, após a embarcação tentar burlar o bloqueio marítimo.
  • O Irã, por meio de seu porta-voz do Estado-Maior, classificou o ato como “pirataria armada” e prometeu retaliar os militares americanos em breve.
  • O incidente ocorre em meio a negociações paralisadas entre EUA e Irã, com Teerã recusando-se a participar de novas conversas no Paquistão.

Um destróier americano interceptou o cargueiro “no Golfo de Omã e o alertou para que parasse”, mas, diante da recusa da tripulação, o navio de guerra abriu fogo contra a casa de máquinas. Agora, os Estados Unidos têm “a custódia total do navio”, assegurou o presidente Trump.

Após a ação americana, o Irã prometeu “responder em breve” à apreensão. “As Forças Armadas da República Islâmica do Irã responderão em breve e tomarão medidas de represália contra este ato de pirataria armada e contra os militares americanos”, escreveu no Telegram o porta-voz do Estado-Maior iraniano, acusando os Estados Unidos de terem “violado o cessar-fogo”.

Negociações entre Irã e EUA estão estagnadas

O Irã não pretende participar das conversas no Paquistão com os Estados Unidos nesta segunda-feira, 20, informou a imprensa estatal. A decisão veio após o presidente Donald Trump ordenar o envio de negociadores a poucos dias de expirar o cessar-fogo no Oriente Médio. Os Estados Unidos mantêm um bloqueio aos portos iranianos, um fator de atrito nas negociações.

A emissora estatal IRIB indicou, citando fontes iranianas, que “atualmente não há planos para participar da próxima rodada de negociações entre o Irã e os Estados Unidos”. A agência estatal Irna destacou o bloqueio e as “exigências irracionais e irreais” de Washington. Afirmou que “nessas circunstâncias, não há uma perspectiva clara de negociações frutíferas”.

Restam apenas três dias para o fim do cessar-fogo de duas semanas na guerra no Oriente Médio, iniciada em 28 de fevereiro pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. O vice-presidente americano, JD Vance, que já havia chefiado a delegação em Islamabad em 11 de abril, voltará a estar acompanhado pelos dois emissários habituais de Washington: Steve Witkoff e o genro de Trump, Jared Kushner.

Trump afirmou em sua plataforma Truth Social que estava oferecendo ao Irã um “acordo razoável” e advertiu que, em caso de recusa, “os Estados Unidos destruirão todas as centrais elétricas e todas as pontes no Irã”.

Qual a situação no Estreito de Ormuz?

Com estradas fechadas, arame farpado e barricadas, a capital paquistanesa havia visivelmente reforçado a segurança neste domingo. Jornalistas da AFP viram guardas armados e postos de controle nas proximidades do hotel Serena, onde foi realizada a última rodada de negociações.

Um acordo está distante, advertiu o poderoso presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, chefe da equipe negociadora, citando “numerosas divergências”. Para além das negociações, Washington e Teerã continuam se enfrentando em torno do Estreito de Ormuz, via marítima por onde normalmente transita um quinto do comércio mundial de petróleo e gás.

Depois de fracassar na sua tentativa de voltar a forçar a abertura de Ormuz, Trump respondeu com um bloqueio naval aos portos iranianos, com o objetivo de cortar as receitas petrolíferas de Teerã. No domingo, anunciou que um cargueiro de bandeira iraniana tentou passar por seu “bloqueio naval e não se deu bem”.

Trump justifica a ofensiva contra o Irã alegando que o país estava próximo de fabricar uma bomba atômica. Teerã desmente e afirma que seu programa nuclear tem fins civis. A guerra incendiou o Oriente Médio, causou milhares de mortes, principalmente no Irã e no Líbano, e perturbou gravemente a economia mundial.

Impactos regionais e acusações de pirataria

Teerã declarou no sábado que retomava “o controle estrito” da via marítima, depois de ter anunciado na sexta-feira sua reabertura, o que provocou euforia nos mercados mundiais. Pouco depois, pelo menos três navios mercantes que tentavam atravessar o estreito foram alvo de disparos.

Esses ataques são “uma violação total do cessar-fogo”, protestou Trump, enquanto o Ministério das Relações Exteriores iraniano culpou por sua vez Washington pelo bloqueio de seus portos, que equivaleria a “um crime de guerra e a um crime contra a humanidade”.

O tráfego pelo Estreito de Ormuz caiu a zero neste domingo, segundo o site Marine Traffic. Vali Nasr, professor de relações internacionais na universidade americana Johns Hopkins, apontou que o Irã acreditava, ao reabrir o estreito na sexta-feira, que “os Estados Unidos responderiam levantando o bloqueio”.

Mas a manutenção do bloqueio “apenas alimentou a suspeita do Irã” de que as negociações de Islamabad “não passam de uma artimanha diplomática antes de outro ataque militar”, acrescentou no X. Ainda mais porque as posições continuam muito distantes, em particular no capítulo nuclear, coração do conflito.

No Líbano, a outra frente da guerra, a situação continua muito instável apesar de um cessar-fogo de 10 dias que entrou em vigor na sexta-feira entre Israel e o movimento pró-iraniano Hezbollah, e que ambas as partes se acusam mutuamente de violar.

O Exército israelense recebeu instruções para utilizar “toda a sua força” se as tropas enfrentarem “qualquer tipo de ameaça”, segundo o ministro da Defesa, Israel Katz. Katz afirmou em várias ocasiões que Israel derrubaria casas ao longo da fronteira a fim de estabelecer uma “zona de segurança” e, de fato, as destruições continuam em localidades fronteiriças, segundo a Agência Nacional de Informação libanesa (ANI).

“Não sabemos o que vai acontecer, não sei se devo consertar meu negócio ou se os bombardeios vão recomeçar”, comentou Ali Assi, em sua loja de roupas em Nabatieh. No Líbano, a guerra já deixou cerca de 2.300 mortos e um milhão de deslocados.

Com informações da AFP