Computação

“Eu sei onde você mora”

Ataques digitais, ameaças de morte e agressões físicas atingem cientistas que foram a público confrontar informações falsas sobre a Covid-19. Com medo, muitos mudam de casa ou saem das redes sociais

Crédito: Andre Feltes

MEDO A divulgadora científica Mellanie Dutra recebeu ameaças (Crédito: Andre Feltes)

“Recebia muitas mensagens machistas, dizendo que uma mulher não deveria estar ocupando aquele lugar”

Cientistas e técnicos responsáveis que dão informações úteis e esclarecedoras sobre a pandemia, e que contrariam os negacionistas do governo, estão sendo sumariamente perseguidos por grupos radicais de direita. É o caso da biomédica Mellanie Fontes-Dutra. Sua conta no Twitter, que tinha pouco menos de dois mil seguidores antes da doença, saltou para 20 mil assim que surgiu o primeiro brasileiro contagiado, em fevereiro do ano passado. Hoje já são 66 mil. Mellanie ficou à frente de um dos primeiros centros de informações sobre o vírus — a Rede Análise Covid-19. Junto com a popularidade, porém, vieram os ataques digitais. “Recebia muitas mensagens machistas, por exemplo, dizendo que uma mulher não deveria estar ocupando aquele lugar”, conta. Em agosto de 2020, o tom aumentou quando um perfil falso a ameaçou por conta de sua defesa da vacinação. “Ele dizia que sabia onde eu morava”. A primeira reação dela foi limpar suas redes sociais, além de ficar mais temerosa em sair de casa. Isso, porém, não a impediu de ser escolhida como um dos cinco principais influenciadores sobre a Covid-19 no ano passado, segundo o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD).

A mesma coisa aconteceu com o médico oncologista Bruno Filardi, do Instituto do Câncer, em São Paulo. Até a chegada da pandemia ao País, sua conta no Twitter era pequena. Conforme ele ia se compartilhando descobertas científicas na conta, no entanto, mais gente passava a segui-lo. Hoje, são mais de 60 mil. Na mesma medida, vieram os ataques constantes. “As pessoas passavam o limite do aceitável”, diz. Em meados deste ano, quando já estava relativamente acostumado com a dinâmica da rede social, passou a receber telefonemas anônimos. “Eram atitudes agressivas que a gente vê no dia a dia das mídias sociais”, revela.

COVARDIA Natália Pasternak se tornou alvo de ataques quando passou a criticar o tratamento precoce (Crédito:DANIEL TEIXEIRA)

“Há tentativas organizadas de derrubar o site de nossa revista”

Casos como esses não foram isolados e sequer aconteceram apenas no Brasil, onde as campanhas públicas do governo Bolsonaro contra a vacinação e o uso de máscaras incitaram seus apoiadores a promover linchamentos virtuais e até ameaçar cientistas como Mellanie e Bruno. Em um estudo publicado nesta semana pela prestigiada revista Nature, 15% dos 321 pesquisadores ouvidos no mundo todo contaram ter recebido ameaças de morte depois que apareceram em algum tipo de mídia defendendo medidas no combate ao vírus, como vacinas e distanciamento social. Ao menos 20% deles disseram que pararam de falar publicamente sobre a doença depois dos ataques.

A publicação também conta episódios graves, como o da médica Krutika Kuppalli, que recebeu continuadas ligações com ameaças de morte enquanto trabalhava na Universidade da Carolina do Sul (EUA), em 2020. À época, ela era uma das vozes ativas sobre a condução da pandemia pelo governo Trump na mídia americana. Com medo, ela se mudou para a Suíça. Já Anthony Fauci, chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Contagiosas dos EUA (NIAID, em inglês), foi mais além: contratou seguranças pessoais para se deslocar. No Reino Unido, o ex-assessor científico do Parlamento, Chris Whitty, foi agredido por dois homens enquanto caminhava em um parque de Londres. Semanas antes, ele havia sido atacado por um rapaz na rua que o perseguiu enquanto gritava: “Quero ver você mentir em público de novo!”.

INTIMIDAÇÃO O assessor científico do parlamento britânico, Chris Whitty, foi perseguido nas ruas (Crédito:Hannah McKay)

“Quero ver você mentir em público de novo!”

A Nature ainda cita uma brasileira: a microbiologista Natalia Pasternak, fundadora do Instituto Questão de Ciência (ICQ), que se tornou uma das principais referências do País no combate à Covid-19. Em 2020, ela se tornou a única brasileira a fazer parte do Comitê para a Investigação Cética (CSI, em inglês), grupo de cientistas criado nos EUA, nos anos 1970, para combater pseudociências. Pasternak se tornou alvo dos ataques quando passou a ser voz crítica ao “tratamento precoce” defendido por Bolsonaro. “Há tentativas organizadas de derrubar o site da revista sempre que publicamos algo contra o presidente”, diz. Em janeiro, uma apoiadora de Bolsonaro chegou a processá-la depois que ela o chamou de “peste” em live no YouTube. O processo, sabiamente, foi arquivado.