Estuprar a democracia

A fala é de uma irrelevante advogada — “Que estuprem e matem as filhas dos ordinários ministros do STF”, mas é de novembro passado, não de hoje. Já a indignação, é do relevantíssimo Ministro Alexandre de Moraes, e é de agora.

Mas ele repete essa fala antiga para se defender, ou para se valorizar? Repetindo, na praça pública, ameaças feitas a ministros, para justificar a tomada de uma decisão — que já é legítima e expectável — de um poder (judicial) que já é legítimo e constitucional, parece hoje uma coisa normal, mas não devia ser.

A separação entre os Poderes — onde as democracias do mundo assentam a sua legitimidade e superioridade como sistema político — está de fato suspensa e por isso, de fato, a democracia também não existe.

Como o “quarto poder” — que era comunicação social — hoje é o primeiro, todos os poderes outros lutam por ele e não pela separação de qualquer outro.

Por causa desta distorção que a sociedade de consumo hipertecnológica introduziu no exercício de gestão da “coisa pública”, uma espécie de “vale tudo” se instalou na arena política.

Hoje a Verdade não é mais um valor absoluto — como aconteceu com o Tempo em Albert Einstein — virou um objeto relativo. As notícias deixaram de precisar ter adesão ao real e precisam apenas de quem as queira ver e ouvir.

Se a tecnologia permitiu isto — e tudo está ainda a começar na falsificação generalizada dos acontecimentos — a política e a democracia que conhecemos perderam-se para sempre. Esta é a dura realidade que temos de enfrentar. Verdade não há mais “só uma”.

Quando o comediante italiano Beppe Grilo inventou as “fake news” e começou uma carreira de político tudo mudou. A seguir Trump, usando tecnologia de ponta, inteligência artificial e muita grana ganhou as eleições nos Estados Unidos e definiu o conceito inovador de fatos alternativos. Depois Bolsonaro…

A esculhambação completa que o Brasil hoje vive, com todos os poderes se digladiando, é o resultado tropical do fim de uma era.

O Brasil é hoje um laboratório involuntário onde a humanidade ensaia a gestão do poder num mundo onde a verdade deixou de ser uma.

O poder não caiu na rua, porque não é na rua que ele se joga: o poder está nos mídia. Por isso Moraes não resiste a agitar fantasmas desnecessários— ele sabe que o seu poder, por maior que seja já não chega: precisa de amplificação.

É isso que está estuprando a democracia.

É preciso calar a boca. Ficar quieto. Parar. Escutar. Se olhar no espelho. Ter vergonha. Desligar a televisão. Pensar no exemplo que estamos dando para os nossos filhos. É preciso respirar fundo. Ficar quieto. Calar a boca. Respeitar a Constituição.

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Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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