O linfoma, um tipo de câncer que ataca o sistema linfático, responsável por produzir as células de defesa do organismo, possui mais de 60 tipos diferentes. Estes são divididos em dois grandes grupos: Hodgkin e não Hodgkin. Uma das formas mais agressivas, o linfoma difuso de grandes células B (LDGCB), é também uma das mais frequentes na população, representando 40% dos linfomas não Hodgkin. No Brasil, estima-se que sejam quase 5 mil novos diagnósticos por ano, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca).
“O LDGCB é um dos tipos mais agressivos por ter uma capacidade de crescimento muito rápido e por sua facilidade de ocorrer fora dos linfonodos”, explica o hematologista Guilherme Perini, do Centro de Excelência em Linfomas do Einstein Hospital Israelita. Diante dessa agressividade, a ciência tem se dedicado a estudar profundamente esses tumores. Um estudo recente, publicado em março no Journal of Immunology, apresentou descobertas que podem elucidar sua origem, agressividade e, potencialmente, abrir novos caminhos para tratamentos.
Uma pesquisa inédita revela como o linfoma difuso de grandes células B compromete o sistema imunológico, facilitando sua própria multiplicação.
- Cientistas identificaram que o LDGCB impede a expressão da proteína HDAC7, essencial para o amadurecimento das células B de defesa.
- A reativação da proteína HDAC7 em modelos animais mostrou resultados promissores na redução de células tumorais, abrindo novas perspectivas de tratamento.
Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Josep Carreras, na Espanha, identificaram, em células humanas in vitro e posteriormente em animais, um mecanismo pelo qual o linfoma consegue comprometer o sistema imunológico, facilitando a própria multiplicação. De acordo com os achados, o LDGCB age impedindo a expressão de uma proteína responsável pelo amadurecimento das células B, que são produtoras de anticorpos e constituem uma das principais linhas de defesa do organismo.
Ao não receberem uma proteína específica, chamada HDAC7, as células B passam a se multiplicar de forma descontrolada. O estudo indica que a diminuição dessa proteína foi associada a um prognóstico ruim, possivelmente facilitando o avanço da doença. “O linfoma não ataca diretamente a proteína, mas diminui sua expressão de modo que essas células não conseguem chegar aos níveis adequados de HDAC7. Dessa maneira, elas ficam presas em um estado imaturo que as conduz a uma proliferação de forma descontrolada, agressiva e sem serem capazes de cumprir sua função como células de defesa”, detalha a pesquisadora Mar Gusi-Vives, uma das autoras do artigo, em declaração à Agência Einstein.
Como o linfoma desativa as defesas do corpo?
Uma maneira de entender esse mecanismo é imaginá-lo como um processo que desativa “interruptores” cruciais. “A presença do tumor não altera a célula de defesa, mas muda como ela manifesta seus genes. Em condições normais e saudáveis, esse interruptor permanece ligado, já que tem um papel importante na maturação da célula. Mas as mutações cancerígenas parecem conseguir desligá-lo permanentemente, mesmo sem comprometer o DNA”, esmiúça Gusi-Vives.
Esse processo pode ajudar a explicar a rápida progressão do LDGCB. Além disso, a pesquisa também aponta um caminho para “religar” o interruptor desativado. Essa intervenção melhorou a saúde de animais com linfoma, além de demonstrar bons resultados na redução de células tumorais. “Ao fazer a reexpressão dessa proteína, as células conseguiram retomar essa programação de amadurecimento que havia sido interrompida e se desenvolver para se tornarem células de defesa”, analisa Guilherme Perini. Ele complementa que “o linfoma surge exatamente quando há um erro na programação da célula, como um bug de computador. A pesquisa identificou a origem desse bug e mostrou que, quando você arruma esse pequeno problema no código, é possível fazer com que a célula volte ao normal.”
Qual o futuro para o tratamento do linfoma?
Apesar dos resultados animadores, é preciso cautela em relação à aplicação em humanos. “Em pessoas, não é possível reintroduzir a proteína como fizemos em nível experimental”, alerta a pesquisadora Gusi-Vives. “Em pacientes, o que teremos que buscar é impedir que o tumor bloqueie a expressão da proteína.”
É fundamental lembrar que a trajetória de uma descoberta em animais até se tornar uma terapia eficaz em humanos é complexa e demorada. “Após a prova biológica, demonstrada no estudo, inicia-se um longo caminho para saber se isso pode se reverter em uma terapia. Para isso, a proteína usada tem de ser eficaz e ter pouco efeito em outras células normais”, explica Perini, hematologista do Einstein.
Atualmente, o tratamento do linfoma difuso de grandes células B combina quimioterapia e imunoterapia. Com diagnóstico precoce e terapias corretas, estima-se que 70% dos pacientes alcançam a remissão completa da doença. Para os casos em que a doença persiste ou é resistente aos tratamentos convencionais, uma alternativa promissora são as terapias celulares, como a CAR-T, que utiliza células do próprio paciente, geneticamente modificadas, para atacar células relacionadas ao câncer sanguíneo. “O futuro é a gente ter um arsenal de terapias cada vez mais variado, e novas armas são sempre bem recebidas nessa batalha”, conclui Guilherme Perini.