Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

O projeto audacioso de viver sobre rodas exige uma série de cuidados e necessidades para os amantes da liberdade. Ainda mais quando se tem 20 anos, como no caso de Matheus Parize, estudante de psicologia que escolheu morar em uma Kombi bem em frente da Universidade Santa Cecília, em Santos, no litoral paulista.

Apesar de pequeno, o espaço interior do veículo foi todo remodelado pelo estudante que colocou alocar na Kombi um fogão de duas bocas, geladeira de 12 volts, porta pote (uma espécie de banheiro químico), tomadas, plugues com USB para celulares, três caixas d’água de 17 litros cada, condicionador de ar, isolamento térmico, um sofá que vira cama para até 4 pessoas e muitas gavetas para guardar roupas e objetos.

Tudo isso é cuidadosamente velado por cortinas nos vidros, além de uma cortina de lona para facilitar o banho, que Matheus toma em uma piscina infantil, e evitar que a água afete o veículo.

O Sonho

“Acho que essa ideia de viver viajando, conhecendo lugares, começou com meus pais. Eles sempre gostaram muito de fazer viagens de carro, parando nas cidades, visitando praias” contou o estudante ao UOL. “Daí eu ficava sonhando que, quando eu crescesse, ia morar numa casa sobre rodas”, revelou o estudante natural da capital paulista.

No litoral há alguns anos, o estudante disse que começou a arrecadar fundos aos 16 anos para viver o sonho. Matheus recebeu o apoio dos pais e avós e com ajuda do dinheiro ganhado em datas comemorativas, ele investiu na bolsa de valores.

Ainda assim, o estudante teve de tirar a carteira de habilitação provisória e passou a fazer transporte de passageiros indicados pela família e amigos. Aos 18 anos, Matheus se tornou motorista de aplicativo e passou a investir todo o dinheiro que ganhava em aplicações financeiras.

Somente em outubro do ano passado, o estudante viu uma oportunidade em Santa Catarina. Uma Kombi, batizada de Xepa pelo então proprietário, equipada com o que Matheus precisava para iniciar sua jornada. Posteriormente, o veículo foi rebatizado como Joelma, uma homenagem à vocalista da Banda Calypso.

“Fomos então para lá. Eu, minha mãe e um amigo, de carro. Compramos a Kombi, que o dono tinha batizado de Xepa. Ela era linda, tinha tudo o que eu precisava. Meu amigo então voltou com o carro e eu e minha mãe voltamos de Kombi. A viagem dele de volta durou 8 horas. A nossa, 3 dias. Foi muito legal, paramos em vários lugares, conhecemos muitas pessoas”.

“Ela [Joelma] tem uma força de superação por tudo o que aconteceu após a briga dela com o Chimbinha, uma vibe alto astral. Então eu pensei. Minha Kombi também é loira, afinal é amarela, e alto astral. Vai se chamar Joelma”.

Reprodução Instagram

Casa sobre rodas

Matheus ainda garante que a vida em uma Kombi tem suas regalias, principalmente quando se mora em frente ao local onde ele cursa psicologia.

“Eu tenho acesso rápido à biblioteca, posso dormir até mais tarde antes das aulas, sem falar na convivência maior com os meus colegas. A qualquer momento, eu posso dar a partida e pegar a estrada, isso me dá uma sensação de liberdade incrível. Não troco mais essa vida por nada”.

O estudante também conta com a companhia de Zeca, um cãozinho vira-lata branco adotado por Matheus.

“Passeio com ele 5 vezes por dia. Antes de ir para a aula, no intervalo, depois da aula, no meio da tarde e à noite. Só quando estou em aula, ele fica aqui dentro, mas com o ar climatizado. Quando eu volto, ele gosta de ficar deitado do lado de fora, já fez amizade com meus colegas e com os vizinhos. Virou atração do bairro”, brinca.

Além do pet, Matheus também conta com o apoio do namorado Gabriel, de 22 anos. O estudante contou que o casal já realizou inúmeras viagens juntos pelo litoral.

“Aqui a gente pode ter ao mesmo tempo liberdade e um espaço aconchegante para namorar. Viver de forma mais simples é imprescindível diante dos problemas que vemos no mundo, como a crise ambiental e a desigualdade social. O impacto de viver num lugar pequeno é muito menor para o planeta”, declarou o estudante.