O estigma social em torno do HIV pode resultar em aproximadamente 440 mil mortes evitáveis até o final desta década, revela uma pesquisa internacional de opinião pública realizada pela iniciativa não governamental Tackle HIV. O estudo sublinha como o preconceito impede a testagem e o tratamento, mesmo diante dos avanços científicos no combate à doença.
O que aconteceu
- Pesquisa da Tackle HIV aponta que estigma social pode causar 440 mil mortes evitáveis por HIV nesta década, impactando testagem e tratamento.
- A desinformação é um fator crítico, com 36% dos brasileiros entrevistados acreditando que homens heterossexuais não correm risco de contrair o vírus.
- Apesar dos avanços, o Brasil, assim como outros 20 países, registrou aumento de casos, evidenciando a urgência de combater o preconceito e a desinformação.
“Esse estigma traz impactos enormes para a sociedade em geral: seja o medo de fazer o teste, o medo de tomar os medicamentos ou o medo criado pelo preconceito de conviver com pessoas que vivem com HIV”, conta Gareth Thomas, representante e um dos idealizadores do projeto.
Segundo a plataforma Tackle HIV, os avanços científicos são históricos, porém, o medo afasta as pessoas da testagem e do início do tratamento. Embora novas infecções por HIV e mortes relacionadas à Aids tenham atingido os menores níveis globais em 2025, para 21 países em três regiões, entre eles o Brasil, o número de casos aumentou.
De acordo com informações do Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, que coleta dados do ano anterior, foram notificados 39.216 casos de infecção pelo HIV no país. A maioria, 38,4%, na região Sudeste.
Thomas acredita que a pesquisa é um trabalho importante para entender como diferentes lugares respondem a uma situação semelhante e, a partir disso, pensar soluções para demandas locais.
“Toda vez que vamos a um novo país ou a uma nova região, fazemos uma pesquisa com os moradores locais para entender o trabalho que precisamos realizar ali, seja focado em uma determinada característica ou em um grupo específico”, conta ele, após desembarcar no Rio de Janeiro para a 26ª Conferência Internacional de Aids, maior evento global sobre a doença, sediado pela primeira vez no Brasil.
Desinformação ainda é um desafio?
A pesquisa aponta que, para 36% dos brasileiros entrevistados, homens héteros não correm risco de contrair o HIV, crença que se repete para 37% do grupo em relação a mulheres heterossexuais. Responderam a questionários online 2.006 adultos brasileiros. Esta percepção errônea também contribui para a falta de prevenção e o aumento de outras preocupações de saúde pública, como a persistência de adolescentes desprotegidos contra o HPV.
Apenas 48% dos entrevistados, um pouco menos da metade, já haviam feito o teste de HIV. Entre 40% que cogitaram fazer, a maioria rejeitou a ideia alegando que “não se consideram em risco”.
Outra constatação foi que 19% ainda acreditam que quem vive com HIV não pode manter uma vida sexual ativa, enquanto apenas 29% sabiam que pessoas sob tratamento eficaz e com carga viral indetectável não transmitem o HIV em relações sexuais. A ciência tem avançado muito, inclusive com relatos de como cientistas “curaram” infectados com HIV em alguns casos.
Estratégias globais e no Brasil
Alinhado à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), o Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids (Unaids) prevê uma série de metas para os países visando a erradicação da Aids como ameaça de saúde pública.
Entre as etapas, estão as metas “95-95-95”, já alcançadas por países como Botsuana, Ruanda, República Unida da Tanzânia e Zimbábue. Isso significa que, nesses países, 95% das pessoas que vivem com HIV conhecem seu status sorológico; 95% das pessoas que sabem que vivem com HIV estão em tratamento antirretroviral; e 95% das pessoas em tratamento estão com a carga viral suprimida. Nesse contexto, a aquisição de tecnologia para produzir principal remédio contra o HIV no SUS reforça o empenho nacional.
O Brasil alcançou em 2020 a primeira meta 95, com 95% das pessoas vivendo com HIV conhecendo seu diagnóstico. Em 2024, atingiu a terceira meta 95, referente à supressão da carga viral em 95% das pessoas em tratamento.
Na última terça-feira, 28, o Governo Federal demonstrou interesse na lacuna entre o conhecimento e uso da profilaxia pré-exposição (PrEP) injetável, que pode prevenir a infecção em pessoas saudáveis por até seis meses, e estuda a possibilidade de incluir a PrEP injetável no SUS.
A campanha Tackle HIV
A Tackle HIV é uma campanha global de conscientização que visa combater o estigma, o preconceito e a desinformação em relação ao vírus. Foi idealizada pelo ex-jogador de rugby galês Gareth Thomas em parceria com a ViiV Healthcare e organizações filantrópicas como a Terrence Higgins Trust.
O atleta, que defendeu a seleção do País de Gales, foi o primeiro jogador profissional de rugby em atividade a se declarar homossexual, em 2009. Dez anos depois, compartilhou publicamente seu diagnóstico de HIV positivo e desde então segue como uma voz ativa no combate à discriminação.
“É fundamental passar a mensagem importante de que receber um teste positivo, com todos os avanços da ciência e da medicina, não é mais uma sentença de morte. Testar positivo significa que você pode começar o tratamento assim que receber o diagnóstico e viver uma vida normal, feliz e saudável, sem limitações mentais ou físicas causadas pelo vírus”, finalizou Thomas.