“Estão matando os bairros de São Paulo e isso precisa parar”, desabafa Patrícia Machado, moradora da Vila Mariana. A frase, carregada de frustração, resume o sentimento de uma parcela crescente da população paulistana que assiste, impotente, à demolição de casas históricas, vilas e pequenos comércios para dar lugar a torres gigantescas. O fenômeno, que atinge o centro expandido da cidade com força inédita, não é apenas uma mudança estética; é uma transformação na estrutura social e afetiva da metrópole.
Patrícia e sua vizinha, Sakuko Miyashita, fazem parte de um coletivo de moradores que decidiu reagir ao que chamam de “assédio imobiliário”. O cenário de ruas arborizadas, paralelepípedos e a tranquilidade de quem conhece o vizinho pelo nome está sendo substituído por canteiros de obras onipresentes. “Cada bairro tem história e características próprias. Estamos perdendo isso. Está ficando tudo igual”, lamenta Sakuko.
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O prédio que ‘cercou’ a casa
A realidade que os moradores da Vila Mariana temem já é vivida por Adriana Casale em outro ponto da cidade. Nos últimos dez anos, a casa de sua família — que se recusou a vender o imóvel para incorporadoras apesar de ofertas agressivas — ficou completamente cercada por três prédios de grande porte. Onde antes havia portões baixos e vizinhos que se ajudavam, hoje existe a sombra de muros gigantescos e o anonimato das varandas de vidro.
“Antigamente, a porta ficava aberta, destrancada. Havia um vínculo de afeto”, conta Adriana. Segundo ela, a vizinhança mudou não apenas na forma, mas na função: os novos apartamentos, muitos deles microflats, são voltados para estudantes ou plataformas de aluguel por temporada, como o Airbnb. “Não tenho mais contato com os vizinhos. A relação de cuidado uns com os outros morreu”, acrescenta.
A engrenagem por trás do boom
A sensação de estar dentro de um canteiro de obras contínuo tem fundamento estatístico: apenas em 2024, foram autorizados quase 3.500 alvarás de demolição em São Paulo. Esse movimento é impulsionado pelo Plano Diretor Estratégico de 2014, que passou por uma revisão polêmica em 2023. A lei permitiu que o mercado construísse prédios sem limite de altura em áreas próximas aos chamados Eixos de Estruturação da Transformação Urbana (perto de metrôs e corredores de ônibus).
Para o arquiteto e urbanista Fernando Túlio Franco, a lógica atual é puramente especulativa. “Como o transporte foi pouco desenvolvido em direção às periferias, as áreas passíveis de transformação ficaram restritas às áreas centrais. O mercado imobiliário criou um produto de alta rentabilidade: edifícios com microapartamentos. Isso mostra a habitação como um ativo financeiro e não como um direito”, analisa.
O erro de diagnóstico
O advogado Heitor Marzagão aponta uma falha grave na legislação: a definição de áreas de intensa verticalização sem estudos ambientais ou de território prévios que pudessem identificar regiões de preservação cultural ou ambiental. “O resultado da mudança na lei demora 10 anos para ser visto na vida real. Só agora as pessoas tomam conhecimento daquilo que vai transformar suas vidas. A transformação do território é a transformação da vida”, destaca Marzagão.
O impacto vai além da sociologia. Moradores como Ana Amélia Baptista temem pela integridade física de suas residências. “O prédio vai vir exatamente até o meu quintal. O que vai acontecer com a fundação da minha casa?”, questiona. O barulho e a poeira, que outrora eram os principais incômodos, tornaram-se secundários diante do medo de danos estruturais permanentes e da perda definitiva de insolação e ventilação.
Futuro em xeque
A resistência dos bairros de São Paulo levanta uma questão central para o planejamento das cidades brasileiras no século XXI: a verticalização é sinônimo de progresso ou de exclusão? Enquanto as construtoras celebram o aproveitamento do solo e a proximidade com o transporte, os moradores lutam para que o CEP paulistano não se torne apenas um código numérico em um portfólio de investimentos, destituído de humanidade e história.