Estamos muito doentes

Seja nos andares de cima ou nos pisos mais inferiores, o Brasil padece de graves “doenças sociais” e precisa rapidamente ser submetido a uma terapia de choque. Assim como não é mais possível admitir a “cleptomania coletiva”, que contamina a classe política em geral e parte substantiva do empresariado, é de embrulhar o estômago de qualquer cidadão de bem tomar conhecimento de casos como o que presenciamos na última semana na Colônia Agrícola Major César de Oliveira, no Piauí.

Ali se encontra cumprindo pena, entre plantações de feijão, cebolinha, tomates e alfaces, José Ribamar Pereira Lima,
de 65 anos, um conhecido estuprador de crianças. Encontram-se, também, carcereiros, diretores de presídio, secretários de Estado e até membros do Judiciário que, embora estejam em liberdade, são criminosos da pior espécie e precisam ser punidos para que os vírus da baixa corrupção e/ou da omissão não continuem a se espalhar, comprometendo o futuro de várias gerações.

José Ribamar foi condenado por estupros cometidos em 2008 e 2009. Crimes bárbaros praticados contra crianças pobres, seduzidas por um pedaço de doce ou um singelo brinquedo de plástico. Mas, por essas razões que somente os ditos juristas e a legislação brasileira conseguem explicar, a besta fera cumpre sua pena em uma colônia agrícola, onde apenas dorme na cadeia e passa o dia trabalhando em uma horta. Nessa colônia, sob os olhares tolerantes do Ministério Público e do Judiciário, a fiscalização sobre os detentos se encerra diariamente às 17 horas. Pois bem, na madrugada do domingo, durante uma improvável e raríssima ação de alguns agentes penitenciários, um garoto de 13 anos foi encontrado sem camisa, escondido sob a cama da cela de José Ribamar. Descobriu-se, então, que não era a primeira vez que o menino passara a noite com o estuprador e mais: quem levou o garoto para o lugar foi seu próprio pai, que até seis meses atrás cumpria pena, também por estupro de menores, e era companheiro de cadeia de José Ribamar, que tinha o hábito de ajudar financeiramente a família do garoto. Não sei se existe manifestação de uma doença social mais clara do que essa!!

O garoto piauiense de apenas 13 anos foi vítima de um crime cometido por vários criminosos. Os dois mais fáceis de identificar são o pai e o estuprador. Mas, como explicar a entrada do garoto na cela? Como justificar não ter sido essa a primeira vez? O que faziam diretores do “presídio” e agentes penitenciários que não evitaram isso? Como explicar que apenas na quarta-feira — três dias depois do fato — a Justiça se manifestou interferindo no pátrio poder dessa criança? Como admitir que um pai
(já condenado por estupro de menores) seja capaz de entregar o filho aos prazeres de um estuprador?

Não acredito que essas chagas sociais possam ser curadas sem que o remédio seja amargo.


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