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Estado Islâmico em xeque

Depois de perder uma das principais cidades sob seu comando, grupo terrorista vê destruída a ambição de manter califado, mas deve aumentar o número de atentados ao redor do mundo

Crédito: Goran Tomasevic

LUTA Em meio ao combate, esse pai tentava chegar a um lugar seguro com a filha. O risco era ser confundido com um terrorista (Crédito: Goran Tomasevic)

Em meio aos escombros da cidade de Mossul, no Iraque, um pai corre com sua filha no colo, fugindo para salvar suas vidas durante a batalha entre as forças armadas do País e o Estado Islâmico. Ao se aproximar dos soldados, o homem, desesperado, por pouco não é alvejado pelos aliados. Em meio à luta, ninguém sabe se ele é um civil inocente ou um radical escondendo bombas no corpo. “Quem se aproximava das forças especiais recebia ordem de levantar a camisa para provar que não era suicida”, conta o fotógrafo que fez a imagem que ilustra essa página, Goran Tomasevic. “O pai estava em pânico, mas era óbvio, pela camiseta bem curta e pela criança, que ele não estava com o Estado Islâmico.”

Por pouco, pai e filha não sobreviveram a um combate que se arrastava desde outubro do ano passado, finalizado no domingo 9. A reconquista de Mossul, uma das cidades mais importantes controladas pelo Estado Islâmico, foi a maior derrota do grupo terrorista até agora. Mas seu custo, altíssimo. Dados fornecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) mostram, para além das fotos, como o local foi deixado em ruínas. Ao todo, 15 bairros onde viviam 32 mil pessoas foram completamente destruídos – outros 23, parcialmente. Mais da metade da população fugiu de casa, cerca de 1 milhão de desalojados. Não há número preciso para os que morreram, porém a contagem está na casa das dezenas de milhares. O preço da reconstrução ficará em aproximadamente US$ 1 bilhão.

Com o fim dos confrontos, o primeiro-ministro do Iraque, Haider al-Abadi, chegou a Mossul para “anunciar sua liberação”. No entanto, o término do conflito está longe de eliminar completamente a presença dos radicais. Como é difícil diferenciar terroristas de inocentes, apoiadores ainda 00estão escondidos em meio à população. Como ideologia extremista, portanto, o Estado Islâmico permanece existindo. “O fim do controle territorial não significa o fim do grupo”, diz o coordenador de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco, Gunther Rudzit. “Ele só vai deixar de funcionar como um estado, o que eu considero pior porque vai haver dispersão de seus membros.”

VÍTIMAS As quatro meninas estavam entre as dezenas de crianças recebidas pelas forças aliadas. No olhar, só tristeza e apatia

Se hoje o Estado Islâmico funciona como um governo que edita leis, controla escolas e faz policiamento, entre outras funções, passará à condição de organização atuando debaixo dos radares do poder estabelecido. Seu braço terrorista já está se fortalecendo para compensar as perdas territoriais. Os atentados aumentarão principalmente no próprio Oriente Médio, porém é possível que cresçam também no Ocidente. Os cidadãos europeus que foram para o Iraque e para a Síria combater ao lado dos radicais, por exemplo, voltam para casa para planejar atentados. Além disso, o grupo não tem adversários na promoção do extremismo islâmico no mundo, portanto continuará servindo de inspiração para lobos solitários ao redor do globo. “O risco de terrorismo deve aumentar antes de diminuir”, afirma Firas Modad, analista de Oriente Médio na consultoria internacional IHS Markit.

A próxima a cair deve ser Raqqa, na Síria. O lugar já está cercado pelas tropas que combatem os radicais islâmicos

A invasão de Mossul em 2014 marcou o auge do Estado Islâmico, ano em que seus domínios ainda se estenderam às portas da capital Bagdá. As duas cidades são as maiores do Iraque. Desde então, diferentes coalizões lideradas pelos Estados Unidos e pela Rússia deram cabo de diminuir consideravelmente o tamanho do califado. As perdas territoriais foram de 60% em pouco mais de dois anos. No mesmo período, as receitas diminuíram impressionantes 80%, principalmente com as quedas na venda de petróleo, contrabando de antiguidades e coleta de impostos, de acordo com a IHS Markit.

FESTA Soldados iraquianos comemoram a retomada de Mossul (Crédito:AFP PHOTO / FADEL SENNA)

O líder dos radicais, Abu Bakr al-Baghdadi, chegou a ter sua morte anunciada por observadores internacionais em Raqqa, na Síria, mas o fato não foi confirmado oficialmente. A cidade não deve servir como bastião de resistência, pois está cercada pelas tropas de oposição e deve ser a próxima a cair. Já Mossul deve ser palco de uma nova batalha num futuro próximo, pois os independentistas curdos armados pelos EUA para lutar contra o EI podem passar a enfrentar as autoridades iraquianas em busca da almejada autonomia. Infelizmente, para os habitantes que continuam sobrevivendo numa cidade em ruínas, o atual desastre pode ser apenas mais um entre muitos.

ALVO Organizações internacionais informaram a morte do líder radical Abu al-Baghdadi. O fato não foi confirmado (Crédito:AFP PHOTO / FADEL SENNA)

 

 

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