Cultura

Estações de Clarice

“Ler Clarice é se deixar levar pela companhia da escritora, dos narradores e personagens que ela cria, sabendo, de antemão, que dali não sairemos ilesos. Muita coisa acontecerá ao longo dessa leitura. Apertem os cintos, que pode vir tempestade brava, ventos fortes, ou uma doce brisa consoladora, mas nunca benevolente.”

O recado é de Nádia Battella Gotlib, uma das principais pesquisadoras da obra de Clarice Lispector (1920-1977), e fica como um convite para entrar nesse universo – ou revisitá-lo -, no momento em que se abrem as comemorações antecipadas pelo centenário de uma das maiores escritoras brasileiras – que nasceu no dia 10 de dezembro de 1920, em Chechelnyk, na Ucrânia, e desembarcou no Brasil dois anos mais tarde.

Até dezembro do ano que vem, muito vai se falar sobre a autora de A Paixão Segundo G. H. e A Hora da Estrela. Para os leitores interessados nesse mergulho, a poeta Mariana Ianelli fez, a convite do Estado, uma sugestão de roteiro de leitura (Veja abaixo).

As primeiras ações para celebrar Clarice vêm da Rocco, sua editora. Ela vai reeditar toda a obra da autora com novo projeto gráfico e usando, inclusive, as telas que Clarice pintou como capa dessas novas edições, que trazem, ainda, novos posfácios para cada um dos volumes. Três títulos acabam de chegar às livrarias. De 1943, Perto do Coração Selvagem é o livro de estreia de Clarice e vem agora com posfácio de Nádia. O Lustre, de 1946, é tido como uma de suas obras mais difíceis. Já A Cidade Sitiada, de 1949, foi escrito em Berna, durante o período em que Clarice acompanhou o marido diplomata na Suíça. O posfácio é de Benjamin Moser, seu biógrafo.

Não foram anunciados, ainda, quais serão os próximos lançamentos. Mas duas certezas: A Hora da Estrela encerra o projeto, em 10 de dezembro de 2020; e antes, em julho, para a Flip, onde Clarice já foi homenageada, sai a coletânea Todas as Cartas nos moldes dos outros dois volumes, de contos e crônicas, publicados pela Rocco.

A organização é de Pedro Karp Vasquez, que assina também o posfácio. Teresa Montero, outra biógrafa de Clarice, fará as notas explicativas e o prefácio. Larissa Vaz é responsável pela pesquisa de campo e digitação das novas cartas encontradas. Há correspondência trocada com a família e personalidades – de Getúlio Vargas a Lygia Fagundes Telles.

“As cartas da correspondência ativa, as que Clarice enviou às irmãs, por exemplo, quando ela estava no exterior, têm o poder de nos mostrar uma história de vida e obra de Clarice num período em que se misturam alegrias e tristezas. Alegria pelo filho que ali nasceu. Tristeza por viver numa cidade pacata demais. A leitura dessas e de outras cartas nos revela seus projetos, preocupações, ansiedades, saudades das pessoas queridas. Pelas cartas podemos nos defrontar com belas paisagens suíças e com notícias de textos que no momento estava escrevendo; ficamos sabendo das suas leituras e das verdadeiras batalhas para publicar seus livros”, comenta Nádia.

Antes disso tudo, hoje, no dia do aniversário de 99 anos da escritora, o Instituto Moreira Salles promove, às 19h, a edição paulista do Hora de Clarice. Simone Spoladore vai ler trechos da obra de Clarice e depois haverá uma palestra com Vilma Arêas, professora da Unicamp.

PARA COMEÇAR SEM MEDO

Água-viva (1973)

Ficção da década final da produção da escritora. Pequena dose de Clarice concentrada. Vale a aposta nesse choque inicial, já que a experiência de ler Clarice passa, inevitavelmente, pelo espanto de algo que nos é ao mesmo tempo insólito e muito íntimo. O difícil desta ficção de alta poeticidade e pouco enredo é o difícil de pensar “sem ser com a cabeça” (C.L.).

A Descoberta do Mundo (1984)

Recolha póstuma de crônicas, serve para temperar o primeiro impacto com o texto de Clarice e tomar contato com a escritora em sua voz mais pessoal, de bastidor, a partir de como ela encara e leva para a literatura episódios da vida cotidiana e do real.

Laços de Família (1960)

Seu livro de contos mais popular, coletânea perfeita tanto para quem quer começar quanto para quem busca o melhor e o mais palatável de Clarice num livro só. Aí estão também alguns dos seus motivos mais caros (por exemplo, o ovo e a galinha) e seu modo característico de narrar: pensando a mescla impura de sensações humanas em pequenas ocorrências de enredo que deflagram grandes implosões nos personagens.

PARA AVANÇAR EM ESTRANHEZAS

A Via Crúcis do Corpo (1974)

Entre as coletâneas de contos de Clarice, a mais controversa, escrita sob encomenda. Para rever, hoje, neste livro, as transgressões do feminino. Ou seguir sem erro por outros contos, de Felicidade Clandestina (1971) e A Legião Estrangeira (1964).

Um Sopro de Vida – Pulsações (1978)

Último romance de Clarice (com publicação póstuma), pode servir de mergulho não só nas inquietações humanas dos personagens: também uma imersão nas questões metadiscursivas, nas inquietações próprias da criação e do processo de escritura, questões de origem e identidade, outra marca de Clarice.

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969)

Romance que “começa sem começo”, bem claricianamente: com uma vírgula. História de dois personagens em mútua aprendizagem de amor: livro de mínima trama e grandes acontecimentos internos (do corpo, do ser, do pensamento). Também uma história sobre os prazeres da linguagem.

PARA IR A FUNDO

A Paixão Segundo G.H. (1964)

Romance dos mais complexos da obra da escritora, tem um ponto de vantagem para o leitor comum: “É coisa para ser subliminarmente compreendida” (C.L.). Como de fato aconteceu, e a escritora contou em entrevistas, o enigma de recepção deste vertiginoso monólogo (de alta poeticidade, como Água-viva) é que um adolescente de repente pode alcançar tudo dele, e um professor de literatura, nada. Livro de iluminações, pode ser lido/descoberto em fragmentos (vide adaptação de Fauzi Arap, para o teatro, em 2002, na interpretação de Mariana Lima).

A Maçã no Escuro (1961)

Um romance considerado denso, difícil, filosófico. Para leitores desapressados e dostoievskianos. Também explora as inquietações do próprio dizer, da própria linguagem. Vale a pena chegar a este livro tendo já passado pelo metadiscurso de outros, como Água-viva, Um Sopro de Vida ou Uma aprendizagem.

A Cidade Sitiada (1949)

Romance menos conhecido, de recepção também controversa, indecifrável para muitos. Para Clarice, um de seus melhores trabalhos, que escreveu quando morava na Suíça (Berna) e estava grávida. Está entre os livros da primeira década (terceiro romance) e, mesmo entre eles, é o menos “clariciano” (intuitivo), intencionalmente aparatado de referências, nomes, símbolos e cenários.

PARA UMA LEITURA COMPARADA

A Hora da Estrela (1977)

Mesmo quem conhece pouco de Clarice alguma vez ouviu falar de Macabéa, personagem popularizada no imaginário literário brasileiro desde 1985, com o filme homônimo de Suzana Amaral. É interessante (recomenda-se) uma leitura de extremidades, num retrospecto da “estrela de Clarice”: de Macabéa, uma das últimas personagens criadas pela escritora, a Virgínia e Joana, personagens dos primeiros livros, O Lustre (1946) e Perto do Coração Selvagem (1943).

O LUSTRE

Autora: Clarice Lispector

Editora: Rocco (296 págs.; R$ 39,90; R$ 25,90 o e-book)

O LUSTRE

Autora: Clarice Lispector

Editora: Rocco (296 págs.; R$ 39,90; R$ 25,90 o e-book)

A CIDADE SITIADA

Autora: Clarice Lispector

Editora: Rocco (208 págs.; R$ 29,90; R$ 19,90 o e-book)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.