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Entrevista

Leonardo Padura Fuentes

A esquerda radical está morta. A direita radical, não

Marcello Mencarini/Leemage

A esquerda radical está morta. A direita radical, não

Por Luís Antônio Giron
Edição 12.10.2017 - nº 2496

Leonardo Padura Fuentes,de 61 anos, é o escritor cubano mais popular do mundo. Ele tem feito sucesso desde a década passada sem se valer dos chavões da literatura cubana típica, com seus operários, guerrilheiros e mulheres fatais. Padura, como é conhecido, é a negação da política. Não resta um único traço da Havana revolucionária em seus romances. Esse ex-jornalista cultural convertido em autor de best-sellers apresenta uma paisagem urbana decadente e enlameada no crime e na violência. Seu principal personagem é um detetive chamado Mario Conde, protagonista da “Tetralogia de Havana”, publicada no Brasil pela editora Boitempo. Seu romance mais célebre mistura história e imaginação: “O Homem que Amava os Cachorros” (2009) narra a vida do militante catalão Ramón Mercader, encarregado de executar Leon Trotski. Nesta entrevista, ele mostra desencanto em relação a Cuba, conta como criou Mario Conde e o que pensa do papel do intelectual em um contexto político desfavorável às esquerdas.

Como você analisa a situação política e geopolítica de Cuba?

Estamos experimentando um momento especial da vida política e social de Cuba. Ainda vivemos sob o governo de Raúl Castro, mas se abre um cenário inédito na sucessão. Pela primeira vez em 59 anos, teremos um chefe de governo não pertencente à família de Fidel Castro. Não sei como será a luta sucessória, mas há alguns candidatos fortes. Ultimamente o país vem sendo devastado por furacões. As pessoas mais desprotegidas e sem recursos são as mais afetadas. Agora a expectativa é ver como serão organizadas as coisas em Cuba do ponto de vista econômico. Espera-se que haja alguma transformação social. Mas uma coisa me parece certa: politicamente, não haverá nenhuma mudança no momento. A estrutura política de Cuba se manterá igual.

Mas há políticos cubanos interessados em fazer uma transição política, não?

Disso não se fala. Os possíveis sucessores de Raúl Castro falam de continuidade. Nenhum falou de transição.

Que você acha do castrismo sem Castros?

Não tenho ideia de como será um governo sem Fidel e Raúl. É preciso esperar para que passe o tempo e as coisas assumam um sentido ou outro, continuidade ou mudança. De toda a maneira, eu acho que há em Cuba muitas coisas que devem mudar e outras que devem se manter. É um jogo dialético que devemos esperar, já que não temos nem capacidade de decisão sobre o processo político nem poder para alterar a política.

Qual deveria ser a agenda para o futuro de Cuba?

Um aspecto que deve continuar é a organização social cubana, que funcionou. Ela tem defeitos e limitações. Mas ela permitiu o desenvolvimento cultural, desportivo e científico de setores importantes do país. A principal falha no regime cubano é de caráter econômico. O governo no foi eficiente nesse aspecto. Num certo momento, o governo abriu espaço para a pequena empresa privada. Mas agora esse espaço foi fechado, dizem que por algum tempo não vão conceder licenças de negócio. O trabalho por conta própria está muito controlado pelo Estado. Talvez falte a Cuba uma maior abertura econômica para permitir um maior desenvolvimento das forças produtivas. Mas escute: não sou economista, não sou sociólogo ou cientista político. Todas essas coisas são opiniões pessoais que têm a ver com a minha maneira de ver a realidade cubana. Mas minhas opiniões não têm fundamento científico. Sou um cidadão e um escritor que vê a sociedade de um ponto de vista de um escritor e de sua literatura.

AP Photo/Desmond Boylan

Como você se define em politica?

Não sou militante político e nunca pertenci a nenhum movimento de político. Mas tenho opiniões sobre o mundo em que vivo. E elas têm a ver com aquilo que sinto como o que deve ser melhor para o progresso da sociedade. Se tiver que me definir, diria que sou de esquerda. Mas de uma esquerda heterodoxa, nada a ver com a ortodoxia que não permite a discussão, a mudança e as alternativas.

Os partidos de esquerda e a esquerda estão amargando a decadência mundial. Você enxerga alguma saída para o impasse em que ela se meteu?

O fato é que as esquerdas passam por uma crise no mundo inteiro. O resultado é que a direita está em festa. Chegamos a uma situação em que um presidente norte-americano se atreve a ofender publicamente os afro-americanos. É um presidente abertamente xenófobo e que tem preconceitos não apenas raciais e religiosos, mas também políticos e econômicos. Vimos chegar ao parlamento alemão um partido que pensa de maneira muito próxima dos postulados do nacional-socialismo. Na França, inventaram um partido do nada para evitar a ascensão da extrema direita. Experimentamos uma situação muito complicada no mundo ocidental com a relação entre as esquerdas e as direitas. Isso para não mencionar o que ocorre em outras partes do mundo, como no Oriente Médio. A crise das esquerdas está deixando tudo nas mãos da direita extrema, e a extrema direita pode ser muito perigosa. A esquerda radical está morta. A direita radical, não.

Donald Trump pode ser um novo problema na coleção de desastres que assolam a América Latina?

Donald Trump é um desastre universal. É un perigo para toda a América Latina. Mas é principalmente uma maldição para os Estados Unidos. Os americanos o elegeram presidente. Se há um culpado da existência de Trump, já sabemos quem é.

Seria possível estabelecer um regime democrático genuíno em Cuba?

Olha, vamos falar da série de livros sobre Havana, que foi o combinado comigo. É a mesma história de sempre. Não vou mudar minhas opiniões por causas das suas. E nem vou alterar a realidade cubana com o que eu disser. Portanto, vamos falar de literatura.

Passemos à literatura: seus livros são publicados em Cuba? Como é a recepção do público local?

Sim, meus livros são publicados por aqui, em edições pequenas que às vezes circulam pouco e mal (às vezes nem sequer circulam). Mesmo assim, mantenho uma relação intensa com os leitores cubanos. Ao sair na Espanha “O Homem que Amava os Cachorros” muita gente pediu a amigos e parentes fora de Cuba que lhes mandassem o livro. As pessoas começaram a lê-lo e comentá-lo. Logo, quando saiu a edição cubana no início de 2010, por pouco não houve mortos na tarde de autógrafos durante Feira do Livro de Havana, pois tinha mais gente para comprar o romance que exemplares… Não queriam sabonetes ou um par de sapatos: queriam que mandassem os livros.

Como você construiu a carreira literária?

No ano de 1982, já graduado na Universidade – sou filólogo, especializado em literatura hispanoamericana – eu tinha escrito quatro ou cinco contos, só para me desafiar. Se meus colegas de universidade escreviam e o pessoal com que eu trabalhava na revista também, eu me disciplinei a escrever como Ernest Hemingway. Nesse mesmo ano, li “Bonequinha de Luxo”, de Truman Capote, e tive um choque. Meses depois, comecei a escrever uma história que resultou no meu primeiro romance, “Fiebre de Caballos”, de 150 páginas, escrita entre 1983 e 1984, publicada apenas em 1988, pois levava muito tempo para publicar um livro em Cuba. A única coisa que eu me propunha a fazer era escrever algo onde não aparecesse, necessariamente, o mesmo que aparecia na literatura cubana da época: operários, militantes, heróis. Por isso escrevi um romance de amor, como o de Truman Capote, um romance que me satisfez porque com ele fiz minha primeira apredizagem a sério no assunto. De todo modo, nele já havia algo que se manteve como objetivo até hoje: não misturar política doméstica e literatura, mas, claro, não fazer da literatura um instrumento para os políticos, pois sou escritor e não político.

AFP PHOTO/POOL/SAUL LOEB

Por que o gênero policial?

Escrevo romances nos quais a estrutura criminal dá forma ao romance, organiza-o e lhe fornece lógica e drama. Mas por cima e por baixo da trama corre todo o trabalho de apropriação mais importante: o contexto social e a psicologia e maneiras de atuar dos personagens. Por exemplo, em um romance como “Passado Perfeito”, os sentimentos de Conde em relação a Tamara, a Rafael Morín, a sua geração e sua vida anterior é mais importante do que saber quem matou quem: é assim no primeiro romance de Conde e isso se repete nos outros, com diferentes motivações ou com algumas que se repetem, pois Conde e eu somos bastante obsessivos em relação a determinados temas e conflitos, sociais e humanos.

Como você criou Mario Conde?

Conde foi um personagem que tive de criar para escrever um primeiro romance policial, “Passado Perfeito” (1990-1991). Precisava de um personagem que fosse capaz de observar e refletir a realidade cubana. Ele tinha que ter inteligência, sensibilidade e uma visão particular da realidade. Daí surgiu um policial que não se parece com os policiais reais. Conde é quase um antipolicial, pois tem um pensamento aberto e nada ortodoxo. Ele funcionou e decidi escrever uma série de quatro romances com ele, que intitulei “As Quatro Estações de Havana”. Escrevi a série na década de 1990. No final, me dei conta de que mantê-lo na policía era impossível. Ele precisava de uma mudança para continuar vivo na literatura. Tirei-o da policía. Logo decidi não mais escrever romances com ele. Mas, anos depois, uma editora me propôs escrever um romance policial sobre um escritor. Surgiu “Adeus, Hemingway” (2005), com Mario Conde. Ele saiu da polícia, e o tornei dono de sebo: ele ficava próximo das ruas e da literatura – a sua paixão e vocação nunca cumprida. A partir de então, passei a escrever vários romances com ele, inclusive “La neblina del ayer”’, a sair em 2018 no Brasil.

Você imaginou que “O Homem que Amava os Cachorros” faria tanto sucesso no Brasil?

O leitor brasileiro é apaixonado. As coisas mais bonitas que disseram sobre minha literatura foram ditas por leitores brasileiros. Graças a eles, obtive sucesso literário no Brasil, adoro estar no Brasil e falar em público. Quase me sinto uma estrela do rock no Brasil e adoro quando alguém na rua me pergunta se sou o autor de “O Homem que Amava os Cachorros”.

Você se considera um autor realizado, ou há ainda alguma coisa que você quer fazer?

Eu me considero um escritor que ainda precisa aprender muito para escrever novos romances. Quando me sentir realizado acho que estarei acabado, porque ainda hoje sinto a mesma insegurança diante dos desafios da criação. Aprendo a escrever romances escrevendo um novo romance.

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