A escolha de Ronaldo Caiado como pré-candidato do PSD à Presidência da República, deve ser anunciada na tarde desta segunda-feira, 30, e encerra uma negociação que incluiu mudanças de partido e uma desistência, mas não garante que o nome do governador de Goiás esteja nas urnas em 5 de outubro, data do primeiro turno das eleições.
Para vencer a disputa interna contra os governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e do Paraná, Ratinho Júnior, que desistiu no início da semana, o goiano se antecipou ao pleitear o Palácio do Planalto e apostou nas credenciais de um longo histórico de antipetismo, como relata a IstoÉ neste texto.
Oposição antiga
Caiado presidia a União Democrática Ruralista em 1989, primeiro ano em que os brasileiros iriam às urnas eleger um presidente após duas décadas de ditadura militar, quando decidiu se juntar à lista de 22 candidatos disponíveis ao cargo. O goiano não foi além de 0,72% dos votos, mas fez algum barulho ao protagonizar embates com Lula (PT), um ex-líder sindical que viria a presidir o país anos mais tarde.
A trajetória ligada ao agronegócio e refratária ao principal partido de esquerda do país o acompanharia em cinco mandatos como deputado federal, quatro anos como senador e outros oito no governo de seu estado.
Em um país onde 27% são conservadores cristãos e 11% são progressistas, segundo a pesquisa “Brasil no Espelho”, encomendada pela TV Globo e realizada por Felipe Nunes, e a desaprovação do governo Lula chegou a 53,5% do eleitorado, conforme levantamento da AtlasIntel, a personificação do antipetismo em uma candidatura pode dar ao PSD a capacidade de atrair eleitores que hoje se encaminham a Flávio Bolsonaro (PL).
Na comparação interna, Leite é identificado com o centro e oriundo do PSDB. Já um marqueteiro com experiência em campanhas presidenciais afirmou à IstoÉ, sob condição de anonimato, que Ratinho sofreria com a exploração de relações antigas com Lula pela campanha de Flávio.

Ratinho Júnior, Caiado e Eduardo Leite travaram concorrência interna por candidatura presidencial do PSD
Para Renato Dorgan, CEO do instituto de pesquisas Travessia, Caiado qualifica o partido de Gilberto Kassab a efetivamente disputar a vaga de opositor do atual mandatário no segundo turno, que deve ficar na direita. “É um candidato com apelo no eleitorado conservador, na região centro-oeste e na classe média antipetista, onde estão as bases do bolsonarismo“, disse à IstoÉ.
Na avaliação do pesquisador, a grande dificuldade do goiano será superar o alto nível de desconhecimento — na casa de 50% do eleitorado, segundo a Quaest. O diagnóstico é compartilhado por Paulo Vasconcelos, marqueteiro do governador em sua pré-candidatura presidencial.
Cortejado pela campanha de Flávio, Vasconcelos considera Caiado um presidenciável com a “temperatura certa desses tempos”, ao misturar conservadorismo e firmeza sem se associar ao bolsonarismo. Para o estrategista, a capacidade de entregas na segurança pública será prioridade dos eleitores. No estado que governa, Caiado tem mais de 85% de aprovação e entregou redução dos índices de latrocínio e roubos.
Desejos presidenciais
Com Bolsonaro e a oposição a Lula aguardando a definição do ex-presidente para decidir como enfrentar o petista nas urnas, Caiado lançou sua pré-candidatura à Presidência da República, ainda pelo União Brasil. Em entrevista concedida à IstoÉ dias após o anúncio, minimizou a falta de apoio partidário e defendeu que a direita apresentasse múltiplas candidaturas, divergindo do bolsonarismo — tese à qual se manteria fiel.
De lá para cá, reduziu a intensidade dos embates com o movimento. Participou de manifestações em defesa da libertação de Bolsonaro e dos condenados pelo 8 de janeiro e prometeu anistia ao grupo como “primeiro ato” de seu eventual governo. Mesmo ajustando o discurso, não conseguiu subir nas pesquisas e perdeu qualquer chance de apoio partidário para disputar o Planalto onde estava. Em fevereiro, em movimento surpreendente, filiou-se ao PSD.
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Já no novo partido, preservou a defesa das múltiplas candidaturas de oposição e destoou em forma e estilo dos presidenciáveis que já estavam lá. Enquanto Ratinho admitiu o desejo de ser presidente meses depois de Caiado, o gaúcho chegou a afirmar que o Senado seria um “último caminho” caso não disputasse o Planalto.
O favoritismo do escolhido, no entanto, se consolidou apenas com a desistência do paranaense para permanecer em seu cargo até o final do mandato. Mesmo considerado mais competitivo do que os colegas nacionalmente, Ratinho não viabilizou a própria sucessão no estado e viu o poder local de seu grupo ameaçado pela filiação do senador Sergio Moro ao PL para disputar o governo — Caiado, por sua vez, apoiará o vice, Daniel Vilela (MDB), que lidera as pesquisas de intenção de voto em Goiás.
“Caiado nunca dependeu da chancela do bolsonarismo e, ao mesmo tempo, nunca confrontou esse grupo. Ao se colocar antecipadamente e manter a estratégia de evitar atritos na direita, ele galgou esse espaço”, concluiu Dorgan.