PANDEMIA * 2020

Escolas, e agora?

Na área da educação, o distanciamento social, mais que necessário para conter a disseminação do novo coronavírus, cobra um preço muito alto dos alunos, dos pais e dos responsáveis pelas instituições de ensino, sejam elas privadas ou públicas. Faça-se a ressalva, no entanto, que por mais complicada que a situação tenha ficado, ela é irrisória diante da prioridade de salvar vidas. Em São Paulo, por exemplo, o colégio Piaget é um entre as tantas escolas particulares que optaram pelo método de aulas online, na ausência das presenciais, com o conteúdo didático sendo repas-sado via tecnologia. No segundo dia de isolamento, os seus setecentos alunos foram direcionados para uma nova ferramenta: a vídeo-aula. E é assim, atrás da tela do computador, que os professores tentam a melhor forma de adaptação.

Crédito: Divulgação

COM SEGURANÇA Colação de grau sem contato: a saúde em primeiro lugar (Crédito: Divulgação)

PARALISAÇÃO A quarentena tirou os alunos das salas de aula e o currículo escolar sofrerá impactos ainda incertos: ano letivo prejudicado (Crédito:Divulgação)

As aulas em vídeo conferência seguem com rígidos horários a serem cumpridos, exercícios que valem notas e verificação de comparecimento, ainda que à distância. Claro que o método não substitui o olho no olho, mas uma eventual ociosidade da filha de treze anos era o que mais preocupava a sua mãe, Juliana Riva. A garota chama-se Júlia, está no oitavo ano e teve de manter a mente atarefada. Ela acorda antes das sete horas da manhã, alimenta-se e já senta na frente do computador, onde permanece até o meio dia e meia. O período da tarde é preenchido pelas lições de casa. “Agora a família precisa estar mais presente. A aplicação dos filhos nas aulas online dependerá da estrutura familiar”, diz Juliana.

EM CASA Júlia (acima), que antes animou-se com a ideia das aulas online, já sente falta até do uniforme. Luiza (ABAIXO) entende que o ensino tecnológico não é para todos: avaliAções desiguais

Na primeira semana de estudos digitais, Júlia estava animada, até porque o novo cenário correspondia aos desejos de mudanças que frequentam o imaginário infantil. Os dias foram passando e Júlia entendeu que não são apenas apostilas e livros que fazem uma escola. Isso foi ótimo, mas veio junto o sentimento de solidão: um dos fatores mais vitais no aprendizado e desenvolvimento da crítica e autocrítica é justamente o convívio social. E não há tecnologia que substitua relações ao vivo. Não há troca mas, sim, uma adaptação forçada ao contexto que o País está atravessando. “Eu gostaria que o ensino da minha filha fosse para sempre online? Não. Só que, nesse momento, isso está sendo maravilhoso”, diz Juliana. A educação não pode ser associada a uma didática única e exclusivamente racional. Compartilhar medos, alegrias e incômodos com colegas e professores nos corredores do colégio é tão importante quanto o aluno aprender, por exemplo, um teorema de matemática. Mas a realidade se impõem, e, mesmo sabendo-se que o ensino online é uma solução pela metade, ele é melhor do que nada.

O outro mundo de Weintraub

Há escolas particulares que não dão vídeo-aulas e decidiram adiantar as férias dos alunos, uma solução que, digamos, está mordendo a conta bancária dos pais. Ou seja: eles terão de pagar as mensalidades mesmo sem educação presencial ou online. Existe outro problema: como os filhos vão repor o conteúdo em um espaço tão curto de tempo quando a quarentena acabar? “A escola precisa de um projeto concreto para dar continuidade a esse ano letivo, que em algum momento deverá ser retomado”, diz a diretora pedagógica Juliana Diniz, da rede educacional Saber, que opera em todo País. Ela está habilitada a falar em nome das seguintes escolas: CEI, que fica no Rio Grande do Norte, e Motivo, que possui unidades no Ceará, em Pernambuco e Salvador.

Apesar do ensino à distância não suprir todas as necessidades fundamentais de formação, é essa dinâmica que está permitindo que os estudantes não fiquem literalmente parados. Se alivia os pais nesse aspecto, tal alívio, como já foi dito, não ocorre em relação aos boletos das mensalidades. Nesse ponto está o grande impasse entre a administração financeira dos colégios e os familiares dos alunos. Sem receita, as instituições têm, obviamente, dificuldades em se manterem. Já muitos pais, por sua vez, também estão amargando uma queda em suas remunerações. Ou seja: o nó está dado. “A melhor solução é olhar caso a caso”, explica a diretora do colégio Piaget, Silvana Franco Rodrigues. Seguindo essa linha e preocupada em não deixar os alunos completamente despreparados, Silvana tem conseguido bons resultados dentro do que é possível em uma crise imponderável como a que vivemos. Ela decidiu dar um desconto geral na mensalidade de maio para todos os estudantes. Ainda assim, Silvana verá quem poderá pagar o valor cheio da mensalidade já diminuída, quem conseguirá pagar somente uma parte dela e, também, quem não tem condições de arcar com absolutamente nada. Uma coisa, porém, é certa: nenhum aluno, mesmo o inadimplente, perderá a sua vaga.

Sandra Bouças, diretora da Escola Municipal Enzo Antonio Silvestrin, não tem logicamente de lidar com mensalidades, já que a instituição de ensino que dirige pertence ao município. Tomadas de decisões em outros setores, também elas ficam engessadas e na dependência de normas e regulamentos, já que diretores de colégios municipais e estaduais precisam obrigatoriamente seguir diretrizes oficiais. Como governadores e prefeitos estão, naturalmente, com a atenção plenamente voltada para o combate à pandemia do novo coronavírus, orientações a tais escolas vêm sendo, não negligenciadas, mas colocadas, isso sim, em segundo plano. “Não fomos chamados e não estamos participando de nenhuma tomada de decisões. Tampouco, as informações oficiais estão chegando para que possamos atualizar a comunidade com segurança”, diz ela. Familiarizada com as características do bairro periférico de Pirituba, na zona norte da cidade de São Paulo, ela entende a complexidade das demandas da população mais pobre da sua comunidade — bem diferentes, em mazelas ou qualidades, da realidade nacional.

“A escola precisa de um projeto concreto para dar continuidade ao ano letivo, que em algum momento deverá ser retomado” Juliana Diniz, diretora pedagógica (Crédito:Divulgação)

Se alunos, pais e profissionais de ensino estão sentido o impacto da pandemia em suas atividades, para o ministro da Educação, Abraham Weintraub, e seus “acepipes”, a vida parece seguir normal. Ele continua insistindo em manter o ENEM na mesma data e estrutura previstas para antes da pandemia, mesmo com o ano letivo visivelmente alterado em aproveitamento e duração. Para Weintraub, a quarentena não terá impactos. Ainda é difícil dimensionar o tamanho dos problemas, mas é claro que há, sim, um impacto na organização curricular. Um cenário nítido até para uma adolescente de 15 anos. Luiza Thurthill, estudante do segundo ano do ensino médio do colégio Piaget, tem uma visão mais coerente do que o próprio governo federal. Segundo ela, a decisão do ministro da Educação é injusta e irresponsável. “Não é justo manter a prova do ENEM”, diz ela. Até as crianças, que logicamente ainda não conseguem se expressar com argumentos articulados, guardam consciência de que alguma coisa saiu da normalidade. Mas essas são as inteligentes crianças brasileiras, ricas ou pobres, estudantes de colégios particulares ou públicos. Essas são as crianças, não Weintraub.

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