Comportamento

Escavador de túneis de Berlim Oriental salvo por um “herói” da Stasi

Escavador de túneis de Berlim Oriental salvo por um “herói” da Stasi

Boris Franzke, que cavou túneis de fuga entre a Alemanha Oriental e Ocidental na década de 1960, fala com repórteres da AFP no local de um túnel que ele e seu irmão escavaram no distrito de Zehlendorf, em Berlim, em 3 de setembro de 2019 - AFP

Quando o Muro de Berlim foi construído, os guardas tinham ordens de disparar para matar nos que tentavam escapar do leste comunista.

Boris Franzke foi um dos muitos que escavaram túneis para ajudar os fugitivos e sobreviveu graças a um “herói” da polícia política comunista.

Aos 80 anos, esse berlinense é um dos sobreviventes do início dos anos 1960, quando vigorava a Guerra Fria.

“No início a política não me interessava. Não me sentia envolvido pelas tensões entre a União Soviética e o Ocidente”, disse Franzke em entrevista à AFP.

Tudo mudou na noite de 12 de agosto de 1961 quando, para impedir a fuga em massa dos alemães do leste para o oeste (mais de 2,7 milhões entre 1949 e 1961) os soviéticos bloquearam os acessos para Berlim Ocidental.

Em algumas horas colocaram cercas de arame farpado e logo levantaram o muro, por um espaço tomado por guardas armados.

“Essa famosa noite foi o detonador de tudo”, explicou.

De repente, o jovem de 22 anos não podia ver sua namorada, seus amigos e sua família que viviam em Berlim Oriental.

Como nasceu meses antes do início da Segunda Guerra Mundial, só conheceu “a destruição e mais tarde os difíceis anos posteriores ao conflito e a divisão do país”.

– Traições –

“Nos faltava de tudo! Tínhamos sede de liberdade”, lembra.

Seu irmão Eduard, cuja esposa e filhos viviam também “do outro lado”, propôs a via subterrânea, mas foram traídos na primeira tentativa, e a família que estava no leste foi detida.

“Estávamos destroçados e nos convencemos de continuaríamos porque cada pessoa que trouxéssemos para o oeste permitiria debilitar um pouco mais a RDA”, conta, com lágrimas nos olhos.

Até 1964, os dois irmãos participaram da construção de sete túneis, dos deles com sucesso.

Entre 26 e 28 alemães do leste, segundo Franzke, foram beneficiados.

“À sua maneira, Boris Franzke era um resistente”, disse à AFP o historiador Sven Felix Kellerhoff.

Em sua opinião, “esses homens jovens corajosos (entre os escavadores de túneis não havia mulheres) ofereceram uma ajuda altruísta, com o objetivo de debilitar o regime do partido único da ex-RDA”.

No total foram escavados 75 túneis em 28 anos de existência do Muro.

Somente 19 permitiram aos fugitivos (cerca de 400) chegar ao lado oeste, segundo a associação “Berlin Unterwelten”.

Um número modesto em comparação aos 800 que fugiram através dos canos da cidade ou dos 10.000 que usaram documentação falsa.

“Mas causou muito dano à RDA”, avalia Dietmar Arnold, autor de vários livros sobre o tema.

– Armadilha –

A lembrança mais impactante de Franzke remonta ao final do verão de 1962: os dois irmãos queriam levar para o oeste vários conhecidos de um amigo.

O local estava pouco vigiado. Durante cinco semanas os dois Franzke e dois amigos escavaram noite e dia um túnel de 80 centímetros de diâmetro para sair na superfície 80 metros mais longe, em um jardim onde deveriam estar 13 candidados à fuga.

Mas quando chegaram ao destino se deram conta de que era uma armadilha.

Invés dos “passageiros” previstos, detidos dias antes, eram esperados por agentes da Stasi, a policía política.

Três dos escavadores escaparam pelo túnel, mas seu amigo Harry Seidel, o primeiro a sair, foi detido.

Condenado à prisão perpétua, esse “inimigo público número 1” do partido único foi “comprado” em 1966 pelo governo da Alemanha Ocidental, uma prática corrente na época.

Exasperadas por Harry Seidel e os irmãos Franzke, as autoridades da Alemanha Oriental queriam explodir o túnel com 5 quilos de explosivos.

– Sabotagem –

“O dispositivo estava pronto, mas no momento de acender… nada! O pavio havia sido cortado”, conta o sobrevivente.

O autor da sabotagem foi provavelmente, segundo os historiadores, o membro da Stasi Richard Schmeing, que morreu em 1984.

“Por mais estranho que pareça, ele é meu herói. Colocou sua vida em perigo para salvar outras quatro”, diz Franzke.

Schmeing foi preso durante o nazismo por fazer parte do partido comunista e foi um sobrevivente do campo de concentração de Buchenwald.

De 1949 a 1968 trabalhou para a Stasi.

Não se sabe o motivo, se por coragem ou dor na consciência. É provável que a presença de um casal jovem próximo dos explosivos tenha influenciado, diz Kellerhoff.

“Oitenta por cento dos túneis foram escavados entre a construção do mundo, o verão de 1961, e outubro de 1964, quando um fugitivo matou supostamente com um tiro um guarda de fronteira, explica Marc Boucher, da “Berlin Unterwelten”.

Isso mudou a opinião pública no Ocidente, até então mais favorável a esses métodos de fuga.

Não se sabia até a Reunificação que esse homem na realidade morreu de forma acidental nas mãos de um de seus camaradas.