Edição nº2585 11/07 Ver edições anteriores

Ernesto Araújo, o José Dias do Itamaraty

A crise venezuelana e a ação do Itamaraty permitem uma reflexão sobre a política externa brasileira. Foi uma surpresa a designação de Ernesto Araújo para chefiar a chancelaria. Era um desconhecido. Não tinha ocupado nenhum posto de relevo no Brasil ou no exterior. Inexistiam razões para que fosse alçado a posto tão importante, a não ser sua simpatia (recente, registre-se) pelo neo-integralismo que contamina algumas áreas do governo. Logo a surpresa foi transformada em indignação — profunda indignação — quando defendeu a instalação de bases militares americanas no Brasil e o alinhamento automático à política externa dos Estados Unidos. Foram declarações descabidas, indignas de um ministro das Relações Exteriores da República Federativa do Brasil. Agiu como representante de uma potência estrangeira. Em momento algum pensou nos interesses brasileiros e na segurança nacional. Maculou uma tradição secular do Itamaraty, herdeira do Barão do Rio Branco.

Araújo continuou agindo contra os interesses estratégicos do Brasil. Basta recordar o episódio que envolveu a transferência de nossa embaixada em Israel — proposta que está momentaneamente esquecida. Tudo para se manter alinhado aos Estados Unidos. Como se o Brasil fosse um ator importante na cena política mundial, especialmente no Oriente Médio. Foi mais uma macaquice, um ato servil, uma espécie de José Dias — célebre personagem machadiano — reencarnado como chefe do Itamaraty.

Não satisfeito, Araújo continuou de ouvidos abertos, à espera do que Washington gostaria que o Brasil — um país soberano, viu chanceler? — fizesse. A crise venezuelana caiu do céu. O nosso País não tem algum problema sério nas fronteiras desde o início do século XX. Todas as disputas foram resolvidas diplomaticamente. Mas devido à política servil de alinhamento automático, Araújo embarcou, inicialmente, na aventura de uma intervenção militar internacional. Contou imediatamente com a oposição dos ministros militares. Estes tiveram de assumir oficiosamente o Itamaraty. E o fizeram com competência — basta recordar as palavras do general Hamilton Mourão, em Bogotá.

O chanceler vai reagir. Conta com a simpatia dos neo-integralistas. As inúteis viagens que Jair Bolsonaro fará ao exterior ainda neste semestre vão se transformar em cenários para revanches. Evitar que isso ocorra é fundamental para a segurança nacional.

Nosso chanceler tentou embarcar na aventura de uma intervenção na Venezuela. Foi contido, mas pode querer revanche contra Mourão


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