Um novo estudo realizado na Inglaterra revela que pessoas com maior engajamento em atividades culturais, como cinema, museus e concertos, tendem a apresentar uma idade fisiológica mais jovem. A pesquisa, publicada no Journal of Epidemiology and Community Health, encontrou uma diferença estimada de cerca de 1,2 ano na idade fisiológica entre indivíduos com menor e maior participação cultural.
Idade fisiológica menor é associada a maior frequência em cinemas, museus, galerias, teatros e concertos, segundo estudo britânico.
- A pesquisa observou uma diferença de 1,2 ano na idade fisiológica entre participantes com baixo e alto engajamento cultural.
- Especialistas apontam que a participação cultural estimula cognição, reduz estresse e promove convívio social, contribuindo para um envelhecimento saudável.
A idade fisiológica não corresponde à idade cronológica. Enquanto esta última mede o tempo de vida de uma pessoa, a idade fisiológica busca estimar como o organismo está envelhecendo, considerando diversas características que podem variar significativamente entre indivíduos da mesma idade cronológica.
“Ela pode ser influenciada pela característica genética, pelos hábitos, pela história de vida e pelos determinantes sociais da saúde. Tem uma série de fatores que acabam influenciando”, explica Sley Tanigawa Guimarães, coordenadora da pós-graduação em medicina do estilo de vida da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.
Como o estudo foi realizado?
Para chegar aos resultados, o trabalho utilizou dados do English Longitudinal Study of Ageing (ELSA), que acompanha adultos com 50 anos ou mais. Para medir o envolvimento cultural, os pesquisadores avaliaram com que frequência os participantes iam ao cinema, a museus ou galerias e a teatros, concertos ou óperas.
As respostas foram transformadas em uma escala de zero a 15 pontos: quanto maior for a pontuação, maior o engajamento cultural. Já a idade fisiológica foi calculada a partir de 10 indicadores relacionados a diferentes sistemas do organismo, entre eles, pressão arterial, capacidade pulmonar, hemoglobina glicada, colesterol LDL, índice de massa corporal (IMC), força de preensão das mãos e velocidade da caminhada. Em conjunto, esses parâmetros sinalizam aspectos da saúde cardiovascular e metabólica, além da capacidade física da pessoa.
A cada ponto adicional na escala de engajamento cultural, a idade fisiológica foi, em média, 0,085 ano menor (cerca de 31 dias). No modelo utilizado pelos pesquisadores, quem tinha pontuação zero apresentava idade fisiológica estimada de 69 anos, contra 67,8 anos entre aqueles que atingiam os 15 pontos. A associação também apareceu em uma análise que relacionou o engajamento cultural à idade fisiológica quatro anos depois.
Os caminhos para um envelhecimento mais lento
Segundo a médica Sley Tanigawa Guimarães, há diferentes caminhos que poderiam ajudar a explicar o resultado. “Sair para uma atividade cultural envolve muito mais do que assistir a um filme ou observar uma obra de arte. É preciso programar o passeio, lembrar do compromisso, organizar o deslocamento e, muitas vezes, encontrar e conversar com outras pessoas. Além disso, música, artes e espetáculos mobilizam atenção, memória, interpretação e emoções. Tudo isso é um baita estímulo cognitivo”, afirma.
Outro possível benefício de ter uma vida cultural ativa está na redução do estresse e no convívio social. Os próprios autores lembram que estudos anteriores já associaram o envolvimento cultural a menor solidão, hábitos de vida mais saudáveis e melhor saúde mental, fatores que, por sua vez, estão relacionados a um envelhecimento mais saudável.
É causa e efeito? A ciência explica
É importante ressaltar, porém, que o estudo mostra apenas uma associação e não permite afirmar que frequentar teatro, museu ou outras atividades culturais faça alguém envelhecer mais devagar. Os autores reforçam que a pesquisa indica uma associação e não permite estabelecer causa e efeito.
Isso porque pessoas que estão em melhores condições físicas e mentais podem ter mais disposição e autonomia para sair de casa e participar dessas atividades. A boa notícia é que manter uma vida cultural ativa não significa frequentar programas caros.
Ler, ouvir música com atenção, dançar, assistir a filmes, participar de grupos ou aproveitar atividades culturais gratuitas também são maneiras de manter a mente ativa e favorecer o bem-estar. “Não precisa ir a uma ópera. Uma pessoa que ouve e aprecia com atenção uma música na própria casa pode ter até mais valor do que alguém que está só de corpo presente em um espetáculo”, diz Guimarães.
Fonte: Agência Einstein