Comportamento

Entre a província e a metrópole

Dois livros lançados simultaneamente, de Machado de Assis e Eça de Queiroz, revelam o olhar cotidiano e a faceta jornalística desses gigantes da literatura em língua portuguesa

Crédito: Divulgação

BRASIL Crônicas de Machado exibem aspectos curiosos da vida social e política do Rio na segunda metade do século 19/ PORTUGAL Em “Ecos do Mundo”, Eça analisa a política internacional e retrata o Brasil, país que via de maneira simpática, mas crítica (Crédito: Divulgação)

Machado de Assis (1839-1908) e Eça de Queiroz (1845-1900) foram contemporâneos, pertenciam à chamada escola literária realista e tornaram-se grandes escritores da língua portuguesa. Outra característica que os une é o jornalismo. Tanto Machado quanto Eça tiveram uma longa produção de textos para jornais e revistas, onde refletiam sobre a sociedade e a política, além das crônicas do cotidiano que escreviam. Para fazer jus a essa produção dispersa e até agora não compilada em livros, dois lançamentos oportunos chegam ao mercado. O primeiro é “Badaladas Dr. Semana” (Nankin), uma caixa com dois volumes que somam 1.500 páginas e trazem as cerca de 300 crônicas publicadas por Machado na revista “Semana Ilustrada” entre 1869 e 1876. O outro, com a obra de Eça, é “Ecos do Mundo” (Carambaia), antologia de artigos publicados entre 1871 e 1899 no periódico mensal “As Farpas”.

Machado foi um genial cronista, que tinha no humor uma arma poderosa. Seus textos nos revelam curiosos aspectos da vida social e política do Rio de Janeiro e nos levam para as ruas da cidade. Já as crônicas de Eça tratam, em especial, de política internacional e o colocam na condição de pensador do mundo. As crônicas são organizadas a partir dos países retratados por Eça, inclusive o Brasil, que via com simpatia, mas sem perder a capacidade crítica. Sobre Dom Pedro II, por exemplo, que ele observou em uma viagem a Portugal, escreveu que se tratava de uma figura confusa que se apresentava como monarca e cientista, sem convencer em nenhum dos papéis.

Embora tenham vivido no mesmo período, Eça e Machado nunca se encontraram. Mas houve um momento em que se estranharam. Em 1878, quando o livro “O Primo Basílio” foi lançado no Brasil e se tornou um sucesso de público por causa do erotismo e do realismo, Machado condenou a “reprodução fotográfica e servil” da realidade que o português teria copiado do francês Émile Zola. Machado se incomodava com o tom erótico do romance e aproveitava para negar qualquer adesão à escola realista. Sabe-se, porém, que, depois de “O Primo Basílio”, o gênio brasileiro mudou os rumos de sua escrita e lançou a obra-prima “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, já no estilo que antes criticava.

Se Eça parece ser mais cosmopolita em seus textos, Machado tem maior interesse pelos dramas provincianos