Entre a ignorância e a ciência

Crédito: Adriano Machado/ALEX SILVA

(Crédito: Adriano Machado/ALEX SILVA)

Duas cenas resumem a luta da ignorância contra a Ciência. Numa delas, na primeira foto acima, Jair Bolsonaro oferece cloroquina (que não serve para nada) às pobres Emas, que dele fogem, no ambiente plácido e verdejante dos jardins do Planalto. Na outra, ao lado, o governador paulista, João Doria, entrega a redentora vacina a uma heroína na guerra contra a Covid, a enfermeira Mônica Calazans, da linha ofensiva no combate à pandemia do Instituto Emílio Ribas — em momento histórico, solene, importante para todos os brasileiros, que consagrou a primeira resposta efetiva do País diante da terrível doença. Como imagens que falam mais que mil palavras, eis a distância, o fosso imenso, que separa a gestão federal, marcada pela incompetência, de uma liderança governamental digna de nome. Bolsonaro, que espinafrou as vacinas, alegou que todos virariam jacaré caso a tomassem e tripudiou sobre milhares de óbitos ecoando o “vai fazer o quê? É da vida! Paciência!”, exibe dia após dia o desprezo que dedica aos brasileiros. Um escárnio em atos e palavras contra o bem-estar geral! No dia um da vacina brasileira o presidente finalmente se calou. Emudeceu. Loquaz por hábito — sempre despejando besteiras inomináveis —, fez voto de silêncio. Em protesto contra a vacina ou por vergonha própria mesmo, dado o acachapante fracasso que teve na causa? Diga-se, de passagem, que esse deve ser o único país no mundo onde o início da vacinação significa uma derrota política do mandatário. O negacionista fanfarrão e incapaz teve seu dia de Pearl Habor, bombardeado pelo show de eficiência do adversário. Sob qualquer ótica que se enxergue, Doria foi quem planejou, negociou diligentemente com os chineses e se dedicou de maneira obstinada à Coronavac, que hoje é o único dos imunizantes disponível até aqui para os brasileiros. Graças a Doria, o Brasil começou a vacinar e cada um dos 27 estados da Federação recebeu doses do lote que foi encomendado, comprado e pago pelo governo paulista. Bolsonaro, por sua vez, debochou o quanto pode. Tripudiou. Rosnou contra a Coronavac: “vacina chinesa do Doria? Não vou comprar. O governo é meu e eu decido. Já mandei cancelar”. Logo a seguir, esforçou-se em promover uma falácia quando um voluntário dos testes se suicidou, e passou a acusar a Coronavac de provocar “morte, invalidez e anomalia”. Era propaganda enganosa e perversa. Para choque e indignação geral, chegou a comemorar sobre o cadáver, vangloriando-se com a bravata “mais uma que Jair Bolsonaro ganha”. Ganhou o quê, presidente? Para um “mito” que mandava o brasileiro reagir à doença “como homem, não como maricas”, o fato de ter se escondido no Alvorada por intermináveis horas, com o rabo entre as pernas, tal qual um cãozinho amedrontado, no domingo da vacinação, expressou a própria covardia que carrega nos momentos em que a sua incompetência salta aos olhos. Valente apenas na garganta, como delinquente aloprado, Bolsonaro exibe um comportamento não apenas execrável como criminoso.

Pela força da Lei já deveria estar respondendo a inúmeros processos. Pairam ao menos 61 pedidos de impeachment no Congresso, mofando nas gavetas, enquanto o Messias do cerrado teima em afrontar os mais elementares anseios da população, sem qualquer freio. Em meio à balbúrdia que criou e para safar-se das críticas diante da falência sanitária do Amazonas — onde famílias inteiras morreram asfixiadas por falta de oxigênio que o seu Ministério da Saúde deixou de fornecer —, Bolsonaro resolveu, de novo, ameaçar o País com uma intervenção militar. Insinuou, na distorcida visão que acalenta da democracia, que viver ou não sob uma ditadura é decisão das Forças Armadas.

Enganava para assustar o povo, desprezando o poder absoluto da Constituição, que em outros tempos jurou cumprir. Um governo que parece caminhar de costas para a Lei, encorajado por hordas de devotos, como um séquito que hostiliza a Ciência e relega as evidências. É bom que se diga, Bolsonaro não tem apoiadores — não no sentido elementar da palavra. Ele possui fanáticos adoradores, porque quem apoia normalmente tem discernimento mínimo para separar o certo do errado, enquanto o fanático vai no efeito manada rumo ao abismo.

Na outra fronteira, a das cabeças lúcidas, o espetacular momento vivido pelo Brasil com a chegada da vacina ocorreu à revelia e mesmo a contragosto do Messias, que de Salvador não tem nada. A tal ponto que cresce em inúmeros setores da sociedade civil organizada e consciente o pedido para que ele seja finalmente impedido por seus delitos. Um mandatário que fomentou toda sorte de subterfúgios e sabotagens para retardar a imunização dos brasileiros, que sabia e nada fez contra o iminente colapso de Manaus e que, publicamente, encorajou o uso de medicamentos sem comprovação científica, estimulou aglomerações frequentes e desprezou o uso de máscaras, não pode (não deveria em nenhuma hipótese) continuar sentado na cadeira do Planalto. Em contraponto a sua sociopatia, o responsável por garantir a Coronavac, João Doria, trabalhou abertamente pela saúde. Guardou forças e oratória para o entendimento com os asiáticos. Zeloso e hábil na estratégia traçada,alinhavou uma conquista retumbante e, juntamente com o Instituto Butantan, vem viabilizando a imunização no País. Foram meses de arrastadas conversas, missões de análises e recursos disponibilizados, numa saga digna de nota (leia reportagem de capa à pág. 22).

Registre-se, a propósito, que não há nada relacionado com dinheiro do SUS nessa empreitada, como tentou fazer crer o ministro Eduardo Pazuello, bedel do capitão, que faz papel ridículo a cada aparição e mente desbragadamente, com um rosário de falácias capaz de causar inveja a qualquer Pinóquio. Oscilando entre o crime comum e a prepotência, o general mentiu até quando pilhado em flagrante exigindo de autoridades estaduais o uso da famigerada cloroquina. Tal qual o chefe, é um mitômano incorrigível. Fala tanta besteira que chega a causar vergonha alheia, inclusive entre os pares de caserna. Para agradar o capitão, tinha preparado toda a presepada para um momento de glória do seu “mito”: avião adesivado com os dizeres da vacina brasileira, cerimônia no Planalto, coquetel de comemoração. Pazuello só esqueceu de combinar com os russos (na verdade, indianos, que deram o cano na entrega das mirradas duas milhões de doses da Oxford, prometidas). Não há mera fatalidade no caos. Com a Índia, com a China, com a Europa, o governo brasileiro vem fazendo pouco caso há muito tempo e agora colhe o troco. Inapetência de gestão, como todos sabem, é construída de maneira calculada, principalmente por Bolsonaro, que agora se enterra na sua insignificância, inutilidade administrativa e ignorância mental. Humilhado pelas circunstâncias de maneira bisonha virou coveiro dele mesmo. Quase ninguém mais dá ouvidos ou crédito ao que diz.


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Não dá mesmo para respeitar alguém que foi capaz de dizer, no dramático colapso sanitário em Manaus, que havia feito a sua parte. Tal qual um Pilatos, lavou as mãos diante de uma tragédia humanitária. Há de se perguntar: Que parte o senhor fez presidente? Gritar contra a vacina, contra o isolamento, contra a máscara, contra a pandemia, tida e havida pelo senhor como uma mera “gripezinha”? Tome prumo mandatário. Honre as calças que veste e a cadeira que ocupa. Ninguém colocou na sua cabeça que comandar o País é muito mais que fazer algazarra em público, anarquizar poderes constituídos e esparramar vitupérios indecentes? Vá se catar! Pilhérias imorais diante do drama que os brasileiros vivem atualmente não deveriam ser mais toleradas. Uma nação inteira não merece ficar à mercê dessas lunáticas ignomínias federais, de tanta desorganização e descaso.

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