O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, no dia 22 de janeiro, o ‘Conselho de Paz’ em Gaza (Comitê Nacional para a Administração de Gaza – NCAG). A iniciativa tem a prerrogativa de intervir no conflito entre Israel e Hamas, endossado pelo Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) em novembro de 2025.
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Para Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, Trump transformou a iniciativa em um órgão personalista, com ele próprio na chefia, “quase rivalizando com a estrutura da ONU, preparada para processos de construção da paz”. “Existia um ideal de ‘peacebuilding’ na reconstituição da paz, como já ocorreu em outros processos pós-conflito na gestão internacional, dentro da lógica do multilateralismo”, completou.
O objetivo do Conselho de Paz
O conselho tem como preceito atuar na promoção da paz global e na busca por soluções para conflitos internacionais, conforme versão preliminar da carta constitutiva obtida pela agência Reuters. Em declarações anteriores, o presidente dos Estados Unidos chegou a afirmar que o grupo “poderia” ocupar o lugar da ONU, o que intensificou a apreensão entre analistas e especialistas.
O documento estabelece mandatos de três anos para os países membros, com exceção dos casos em que haja pagamento de US$ 1 bilhão. Segundo apuração da CNN Brasil, um integrante do governo norte-americano afirmou, sob condição de anonimato, que esse valor serviria apenas para garantir um assento permanente no conselho, sem exigir contrapartidas financeiras adicionais.
A Casa Branca divulgou, em 29 de setembro do ano passado, detalhes do plano. Dentro dos 20 pontos, o de número 9 se adequa às regras do NCAG:
“Gaza será governada por um comitê palestino tecnocrático e apolítico, responsável pela gestão diária dos serviços públicos e municipalidades para a população de Gaza. Este comitê será integrado por palestinos qualificados e especialistas internacionais, sob a supervisão de um novo organismo internacional de transição, a “Junta da Paz”, presidida pelo mandatário Donald Trump, cujos membros e chefes de Estado serão anunciados em breve, incluindo o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Esse organismo estabelecerá o marco e gerenciará o financiamento para a reurbanização de Gaza até que a Autoridade Palestina complete seu programa de reformas”.
Liderado pelo presidente norte-americano, o grupo que compõe o comitê conta com os nomes de Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos; Steve Witkoff, enviado especial de Trump; Jared Kushner, genro de Trump; Tony Blair, ex-primeiro-ministro do Reino Unido; Marc Rowan, magnata financista americano; Ajay Banga, presidente do Banco Mundial e Robert Gabriel, fiel colaborador de Trump no Conselho de Segurança Nacional.
Trump teria um cargo vitalício no Conselho, ou seja, mesmo que ele não esteja mais à frente do governo dos Estado nos Estados Unidos, o líder norte-americano continuaria sendo o presidente do comitê. Na visão de especialistas, o movimento é expressivamente atípico para organizações internacionais, que costumam ter caráter institucional e representação por estado, e não por indivíduos ou líderes com cargos vitalícios.
Intereses estratégicos
Para Holzhacker, Trump tem dois interesses principais: enfraquecer o sistema multilateral e criar uma organização alinhada aos interesses do norte-americano. No caso do Oriente Médio, existe uma solução do ponto de vista econômico, “provavelmente essa reconstrução vai ter recursos do Emirados Árabes e Arábia Saudita.
“A questão do Oriente Médio é ser uma solução econômica e não geopolítica, e esses são interesses do próprio Trump”, avalia a especialista. Ou seja, a iniciativa reforça os Estados Unidos como potência global.
A criação de um novo órgão internacional só enfraqueceria a Organização das Nações Unidas caso houvesse um esvaziamento significativo de países alinhados ao sistema multilateral — cenário que, por ora, não se desenha. Potências centrais, como nações europeias e membros do BRICS, mantêm postura cautelosa. A resistência sugere que, no curto prazo, não haverá migração em massa.
Entre esses atores estão nações europeias e integrantes do BRICS, que têm adotado uma postura cautelosa diante da proposta. A resistência indica que, ao menos no curto prazo, não deve ocorrer uma migração em massa capaz de esvaziar a ONU.
Analistas apontam para a formação de um órgão paralelo, atuando como rival institucional, apoiado principalmente por países menores que buscam ampliar influência ou obter vantagens políticas/econômicas. Nesse contexto, potências médias como Brasil, Canadá, Índia e Austrália podem ser pressionadas a se posicionar, o que exigiria justificativas diplomáticas em relação aos EUA.
O movimento tende a ampliar atritos com Trump, em um cenário já tenso. Ao mesmo tempo, China e Rússia ganham protagonismo ao serem forçadas a se posicionar mais claramente. O resultado pode ser maior instabilidade no sistema internacional, com estruturas concorrentes aprofundando incertezas sobre ganhos reais para os envolvidos, avaliam especialistas.