Entenda como será o primeiro túnel submerso do Brasil, anunciado por Lula e Tarcísio

Ricardo Stuckert/PR
O presidente Lula (PT), ao centro, e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), à direita, participam de cerimônia para anunciar edital do túnel Santos-Guarujá Foto: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), lançaram nesta quinta-feira, 27, o edital da construção de um túnel submerso para ligar as cidades de Guarujá e Santos, no litoral sul paulista.

A obra tem previsão de ser entregue em 2028, um ano após o centenário do primeiro projeto de conexão viária entre os dois municípios. Neste texto, a IstoÉ explica a relevância da proposta e os caminhos que tiraram essa antiga demanda do papel.

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A obra

A construção do primeiro túnel submerso do país foi orçada pelo governo do estado em R$ 6 bilhões (sendo R$ 2,7 bi do governo federal, R$ 2,7 bi da gestão paulista, e outros R$ 600 milhões em financiamento privado, como contrapartida de recursos estaduais), em uma parceria concretizada por dois chefes de Executivo de polos opostos da política.

“Quando você tem vontade política, consegue fazer as coisas acontecerem. Eu e Tarcísio fizemos um bem bolado, um acordo entre os dois governos“, disse Lula no anúncio do edital. “As diferenças têm que ser deixadas de lado para que a gente chegue num consenso e possa atender a população”, acrescentou o governador.

O investimento público foi justificado pelas demandas econômicas da população local e da atividade comercial brasileira — 30% dela passa pelo porto de Santos, segundo Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária do município. Em março de 2023, foram 15,3 milhões de toneladas de cargas movimentadas no Porto de Santos, o maior da América Latina.

Santos é a 14ª cidade mais populosa de São Paulo, conforme o Censo Demográfico de 2022, e a 13ª colocada em arrecadação de Imposto Sobre Serviços do país. A atividade econômica gera uma forte migração sazonal das demais cidades da Baixada Santista, o que inclui o Guarujá, quarto município mais populoso da região, para lá.

Atualmente, esse fluxo ocorre por meio de balsas que transportam pedestres, bicicletas, motocicletas, automóveis e caminhões de até três eixos, mas o transporte é interrompido para a passagem de navios cargueiros pela zona portuária e tem filas que duram cerca de uma hora nos horários de fluxo mais intenso. A alternativa por terra é um trajeto de 43 quilômetros pela rodovia Cônego Domênico Rangoni, a SP-055.

Esse conjunto de necessidades desencadeou o ambicioso projeto do túnel submerso, passagem que ficará a 21 metros de profundidade, de modo a não atrapalhar a circulação de navios.

Serão três pistas para a passagem de automóveis, motocicletas, caminhões e uma via de quatro metros de largura para a travessia de bicicletas e pedestres, via montada sobre uma estrutura pré-moldada e isolada da água por uma camada de areia e rochas. O túnel terá uma extensão de 860 metros, com 761 deles submersos.

Caminho complicado

 

A primeira proposta para ligar Guarujá e Santos foi do engenheiro Enéas Marini, em 1927, e consistia em um túnel submerso de 900 metros de extensão e 20 metros de profundidade. O autor se comprometeu a bancar a construção, mas pediu a concessão do túnel por ao menos três décadas em contrapartida, segundo o jornal A Tribuna, o que dificultou o avanço da proposta.

Nas décadas seguintes, propostas de pontes para a travessia foram discutidas, mas nenhuma foi adiante. Em 2010, a ideia foi retomada por um projeto apresentado do então governador José Serra (PSDB) de uma ponte com 4,6 quilômetros de extensão, que custaria cerca de R$ 700 milhões.

Engenheiros ouvidos pela imprensa na ocasião avaliaram que esse projeto traria um problema de limitação de altura para a circulação de navios cargueiros no estaleiro, um problema em especial na medida em que esses modelos crescem ano após ano — na prática, os navios correriam o risco de bater na base da ponte.

Em 2013, o então governador tucano Geraldo Alckmin abandonou a ideia de seu antecessor e retomou a proposta de um túnel submerso, orçado em R$ 1,89 bilhão. O projeto não se viabilizou financeiramente.

Em 2020, a Ecovias, concessionária que administra o sistema Anchieta-Imigrantes, responsável pela ligação rodoviária entre a capital paulista e a Baixada Santista, propôs novamente a construção de uma ponte orçada em R$ 2,9 bilhões, em troca de 30 anos da extensão da concessão da rodovia que já administra.

A iniciativa teve o apoio do governador João Doria (então no PSDB), mas representantes do setor portuário sustentaram novamente que haveria riscos para a circulação de navios no Porto de Santos. Cinco anos mais tarde, o anúncio do edital concretiza as demandas centenárias da região.