A escalada dos protestos no Irã, iniciados no final de 2025, tornam o futuro do país uma incógnita. Originadas em queixas econômicas, as manifestações foram respondidas com repressão, mortes e bloqueio de internet, o que revelou rachaduras mais profundas no regime dos aiatolás e aumentou a ameaça de intervenção externa.
Ainda que conflitos internos sejam comuns na região, a atual inquietação acontece em um contexto global frágil, com a declaração de uma política expansionista por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O americano impôs tarifas de 25% aos parceiros comerciais do Irã e já flertou com a ideia de invadir o país.
O governo do aiatolá Ali Khamenei, por outro lado, acusa potências rivais de organizarem grupos de inteligência infiltrados entre os manifestantes, além de divulgar informações tendenciosas sobre a conjuntura interna. De todo modo, é de conhecimento internacional que diversos cidadãos iranianos estejam sendo mortos em meio aos conflitos – segundo a HRANA (Human Rights Activists News Agency), pelo menos 2 mil pessoas foram assassinadas e outras 10 mil foram presas.
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Como tudo começou
Os protestos desencadearam como uma reclamação à inflação desenfreada que assola o Irã. Primeiramente estabelecidas entre bazares da capital Teerã, as manifestações logo se espalharam pelo resto do território. De acordo com analistas, é recorrente que um acontecimento ou insatisfação seja estopim para reivindicações maiores e gerais contra o regime dos aiatolás, como ocorreu em 2022, com a morte da jovem Mahsa Amini por uso incorreto do hijab.
A situação econômica no país islâmico é drástica, incluindo disparada de preços de alimentos e proibição de que importadores acessem dólares americanos. O governo chegou a divulgar medidas para amenizar a situação, mas os conflitos já haviam tomado proporção nacional. Essa diversidade territorial, segundo explica o professor de Relações Internacionais da ESPM Gunther Rudzit, é a grande pedra no sapato do governo, uma vez que as frentes são múltiplas e difundidas.
“Diferentemente dos outros protestos, esse se deu em cidades pequenas, médias e grandes, se deu entre jovens e idosos; entre estudantes e comerciantes; homens e mulheres. É efetivamente uma revolta ampla, geral mesmo.”
Governo do Irã pode cair?

Manifestantes anti-regime iraniano agitam bandeiras do Irã durante um protesto em frente à Embaixada do Irã, no centro de Londres
A fim de entender as disputas por poder no Irã, é preciso voltar para 1979, quando a Revolução Islâmica derrubou a monarquia dos xás e instaurou um regime teocrático regido pelo Alcorão. Uma divisão enfática ocorreu após esse acontecimento: o rompimento com as influências ocidentais e sobretudo com os EUA, que eram aliados da linhagem dos xás.
Desde então, a relação entre Irã e Estados Unidos é marcada por estranhamentos. Um dos maiores pontos de tensão se dá por meio de Israel, principal poderio de atuação americana no Oriente Médio e adversário ideológico dos iranianos. É importante lembrar que tanto Israel quanto Irã são potências nucleares e já trocaram ofensivas bélicas em 2025.
O tamanho das tensões internas atuais voltou a levantar dúvidas sobre a possibilidade da queda do regime dos aiatolás, somando-se à intenção de Trump ampliar o império norte-americano e intervir em países de acordo com seus próprios interesses. Na esteira da invasão da Venezuela e deposição do presidente Nicolás Maduro – deflagrada nos primeiros dias do ano -, o republicano não descarta a possibilidade de intervenção em outros territórios, incluindo o Irã.
A figura de Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979, também ajuda a personificar a insatisfação no país: Pahlavi se declara herdeiro oficial da linhagem dos xás, tendo passado a vida inteira exilado nos EUA. Agora, ele tenta capitalizar os aborrecimentos dos iranianos e reivindica a volta da monarquia que existia antes da Revolução Islâmica. Segundo agências de notícias internacionais, o nome de Pahlavi tem sido largamente citado durante as manifestações, o que poderia dar mais força aos movimentos de derrubada do governo teocrático
Mesmo com a imprevisibilidade de Trump e descontentamento contra os aiatolá Ali Khamenei, o professor Gunther Rudzit pondera que “não vê chance de queda do regime”. Ele explica que boa parte da população ainda apoia o governo atual, sem a mesma unanimidade nacional que depôs o regime em 1979.
“O filho do último xá [Reza Pahlavi] tenta se pôr como uma liderança, mas ele morou praticamente a vida toda fora do Irã, ele não é em unanimidade, e por isso existe essa dificuldade de uma queda do regime de forma iminente”, explica. “A real questão é por quanto tempo a população vai aguentar continuar a ser massacrada, e por quanto tempo o regime também aguenta essa situação. Quem disser que sabe o que vai dar, está mentindo.”
Guerra informacional
Um grande potencializador das tensões se dá por meio da guerra informacional dentro e fora do Irã. O rompimento com o ocidente em 1979 também significou um desligamento total com a mídia hegemônica, a qual os iranianos acusam de ser parcial e reducionista.
Nos momentos em que as tensões aumentam, é costume do governo dos aiatolás bloquear as redes de internet e proibir a entrada e saída de informações. Enquanto o regime procura criar sua própria rede de controle de informações, algumas agências de notícias divulgam atualizações terceirizadas.
Na terça-feira, 13, a agência HRANA divulgou que o número de mortes era de aproximadamente 2 mil em duas semanas de protestos. Anteriormente, a associação já havia falado em mais de 10 mil presos.
O Sheik Hossein, que reside no Irã, disse à IstoÉ que as tensões internas do país são largamente influenciadas e orquestradas por potências estrangeiras, com destaque para EUA e Israel. Na opinião dele, o Irã resiste para não despencar em uma guerra civil, algo que satisfaria os adversários americanos e israelenses.
A visão do Sheik se alinha com a narrativa do governo: ambos apontam a presença de grupos de inteligência dos Estados Unidos e Israel infiltrados entre os manifestantes, o que estaria incitando o teor de violência dos conflitos.
“Sabemos que Estados Unidos e Israel não param, eles estão atrás de financiamento de grupos, armamento dos grupos e de ataques. É, infelizmente, o que os americanos estão fazendo em outros lugares do mundo”, declarou o Sheik Hossein.