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Ensaios com mosquitos aumentam esperanças de derrotar dengue

Ensaios com mosquitos aumentam esperanças de derrotar dengue

Centenas de mortos nas Filipinas; um aumento de três vezes no número de casos no Vietnã; hospitais sobrecarregados na Malásia, Mianmar e Camboja - a dengue está devastando o sudeste da Ásia neste ano devido em parte ao aumento das temperaturas e à baixa imunidade a novas cepas - AFP

Centenas de mortos nas Filipinas; um aumento de três vezes no número de casos no Vietnã; hospitais sobrecarregados na Malásia, Mianmar e Camboja – a dengue está devastando o sudeste da Ásia neste ano devido em parte ao aumento das temperaturas e à baixa imunidade a novas cepas.

Mas um grupo de cientistas está implementando testes para criar insetos resistentes à dengue, numa tentativa de combater uma das principais doenças transmitidas por mosquitos do mundo.

O Programa Mundial de Mosquitos (WMP) foi pioneiro em um método em que os mosquitos Aedes Aegypti machos e fêmeas são infectados com a bactéria resistente à doença chamada Wolbachia antes de serem liberados na natureza.

Em questão de semanas, os filhotes de mosquitos nascem carregando Wolbachia, que atua como um amortecedor de doenças para os insetos – tornardo mais difícil que eles transmitam dengue, zika, chikungunya e febre amarela.

O ensaio foi feito pela primeira vez no norte da Austrália e testado em nove países do mundo, incluindo o Vietnã, onde os primeiros resultados são promissores.

“Vimos uma notável redução de casos de dengue após o lançamento”, explicou Nguyen Binh Nguyen, coordenadora de projetos do WMP em Nha Trang.

Sua equipe liberou cerca de meio milhão de mosquitos infectados com Wolbachia no ano passado em Vinh Luong, um distrito afetado pela dengue no sul do Vietnã.

Desde os ensaios, os casos de dengue caíram 86% em Vinh Luong, em comparação com a cidade resort próxima Nha Trang.

– Sem imunidade –

Hoje, os mosquitos ainda circulam nas lojas ao ar livre, cafés e casas de Vinh Luong, mas a maioria nas áreas de teste hoje carrega Wolbachia, em comparação com nenhum exemplar antes dos testes, disse o WMP.

Convencer residentes cautelosos, autoridades de saúde e conselhos de ética de que os mosquitos não os deixarão doentes não foi uma tarefa fácil. Há muito que os moradores aderiram ao lema oficial “sem mosquitos, sem larvas, sem dengue” para evitar o vírus.

A dengue é transmitida aos humanos por mosquitos infectados, que prosperam em bairros lotados, quentes e úmidos.

Os casos aumentaram não apenas no Vietnã este ano, mas em todo o Sudeste Asiático, com cerca de 670.000 infectados e mais de 1.800 pessoas mortas na região, de acordo com uma contagem da AFP de dados nacionais e da Organização Mundial da Saúde.

Especialistas dizem que este é o pior surto em anos.

O clima mais quente é um fator – as temperaturas em julho de 2019 foram as mais quentes já registradas no mundo, e os mosquitos adoram o calor -, junto com a introdução de novas cepas de dengue que se espalharam entre as populações sem imunidade.

Tendências de longo prazo também estão em jogo: urbanização vertiginosa nas megacidades asiáticas, um aumento maciço nas viagens e comércio internacionais e a natureza cíclica dos surtos.

“Isso cria os ingredientes perfeitos para a epidemia de dengue”, disse à AFP Rachel Lowe, professora assistente da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

Até o uso generalizado de plásticos contribuiu – à medida que objetos como vasos de jardim e recipientes de comida coletam água, eles criam piscinas perfeitas para a reprodução de mosquitos.

– Repovoar colônias –

A Wolbachia foi descoberta por cientistas na década de 1920 em mosquitos que viviam no sistema de drenagem sob a Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard.

Encontrada em 60% de todas as espécies de insetos – incluindo libélulas, moscas da fruta e mariposas -, a bactéria foi praticamente ignorada até a década de 1970, quando os pesquisadores descobriram que ela poderia ser usada para impedir a propagação de doenças por insetos.

Ao longo dos anos, os cientistas realizaram experimentos anti-dengue com mosquitos carregados de Wolbachia com sucesso variado, mas agora o WMP espera que sua abordagem seja bem-sucedida.

O WMP é uma das únicas organizações no mundo que procuram repovoar colônias com mosquitos infectados com Wolbachia para combater a dengue, que segundo estimativas se propaga para até 100 milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano.

Outros grupos, incluindo em Singapura e na Malásia, estão usando Wolbachia, mas apenas em mosquitos machos que tornam os óvulos das fêmeas inférteis – um método que visa suprimir a população de mosquitos, o que raramente dura.

Muitos países também estão espalhando inseticidas pelos bairros – o que é eficaz no curto prazo, embora os mosquitos geralmente voltem após alguns dias ou desenvolvam resistência aos produtos químicos.

“Ninguém foi capaz de obter uma repressão duradoura porque os mosquitos sempre voltam a invadir”, disse o diretor do WMP, Scott O’Neill.

Os resultados dos ensaios do WMP com a Wolbachia no norte da Austrália e na ilha vietnamita Tri Nguyen foram positivos – as transmissões locais de dengue são quase inexistentes – e os resultados dos ensaios na Indonésia são esperados para o próximo ano.

Mas especialistas dizem que são necessários mais estudos de longo prazo e em larga escala para verificar se a abordagem realmente funciona.

O médico Raman Velayudhan, coordenador do programa de controle global da dengue na OMS, disse: “Nosso objetivo é garantir que isso leve à redução da doença”.