Enredos das escolas de samba contam a história não oficial

Descreve a etimologia disponível na internet que no DNA linguístico do substantivo “enredo” está no verbo “enredar”. As duas palavras têm ascendência latina, derivam de ‘rete’ (rede). Como os linguistas, pescadores e peixes sabem, o enredo resulta de uma trama de fios que envolvem e capturam.

Na arte, a trama tem que prender seus espectadores, como explicam o professor de história Luiz Antonio Simas e o jornalista Fábio Fabato na segunda edição ─ revista e ampliada ─ do livro Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos (Mórula Editorial).

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Nesta nova versão, o texto acrescenta a revolução dos enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro a partir da segunda década deste século.

A publicação trata da genuína forma que os sambistas cariocas criaram há quase 100 anos para contar e refazer a história. Novos enredos que, depois de envolver 120 mil pessoas no Sambódromo e milhões pela televisão e nas novas mídias, vão passar nas salas de aula e nos livros didáticos.

Confira os principais trechos da entrevista os dois autores

 

Escritores Luiz Antonio Simas (esq) e Fábio Fabato (dir). Foto: Rafael Barbanjo/Divulgação

Agência Brasil: Em breve, em 2028, vamos fazer 100 anos de escola de samba. De onde partiu a exigência de haver enredo nos desfiles?

Luiz Antonio Simas: Desfiles de escolas de samba, na verdade, vamos ter a partir de 1932. Curiosamente, nós tivemos concursos [das escolas de samba] antes disso. O [jornalista, escritor e pai de santo] José Espinguela [1890-1944] foi quem organizou, mas não eram concursos com desfiles em cortejo. Eram disputas entre escolas de samba que, entretanto, se limitavam às apresentações e a escolha do melhor samba.

A partir de 1932, há a ideia do cortejo. Consideramos um marco dos primeiros desfiles. Isso é curioso pelo seguinte: as escolas de samba não inventaram a ideia do enredo. Os enredos faziam parte dos cortejos de grandes sociedades e ranchos carnavalescos – sobretudo, dos ranchos de carnaval. O Ameno Resedá [fundado em 1907], que era considerado um rancho, desfilava com enredos de relevância cultural etc.

O que as escolas de samba fizeram foi redimensionar essa perspectiva dos enredos. E, mais do que isso, o que as escolas de samba fizeram de muito diferente em relação aos ranchos, foi, aos poucos, consolidar uma trilha sonora completamente distinta. Os ranchos desfilavam com as chamadas marchas rancho. E as escolas de samba foram construindo, aos poucos, o que a gente vai denominar como samba-enredo.

Fábio Fabato: A gente pode dizer que é o primeiro samba em enredo que nós temos é quando a Portela resolve fazer um carnaval com um tema especificamente. Até então, essa coisa de um tema fortíssimo, único, não existia. Em 1939, a Portela faz isso. O Paulo da Portela [1901-1947] cria um desfile que é um simulacro da própria escola de samba, mostrando que é uma escola. Temos um samba e temos um enredo [Teste ao Samba], com uma premissa de enredo.

Luiz Antonio Simas: Antes de 1939, os enredos não precisavam ter relação direta com o samba. Então, você podia apresentar um enredo visualmente sobre um tema e cantar samba sobre temas completamente distintos. Em 1939, a Portela propõe essa coesão entre enredo e samba.

Agência Brasil: Posso dizer que o enredo é o esqueleto e o samba-enredo é o músculo do desfile?

Fábio Fabato: Pode. Obviamente, a espinha dorsal de uma escola de samba vai ser sempre o ritmo, a bateria, o samba e tal.

Agora, tudo começa no enredo, né? Primeiro lança-se o enredo e aí vem o samba-enredo, depois o desenho rítmico da bateria em cima desse samba-enredo. A origem, o começo de um grande carnaval, está em num grande enredo.

Luiz Antonio Simas: O samba-enredo é um gênero completamente inusitado na história da música popular brasileira, porque primeiro ele é um gênero feito sob encomenda. Então, você elabora um samba vinculado a um enredo que foi proposto. Nesse sentido, também, o samba enredo acaba sendo o único gênero de música urbana que nós temos, que, em vez de ser lírico, é épico. Ele se coloca a serviço de contar alguma história exemplar que um enredo propõe.

Agência Brasil: Como é que se dá a escolha do enredo? Quem decide isso? É uma escolha do presidente da escola de samba?

Fábio Fabato: Muitas vezes, é. Sobretudo, se o presidente tem uma promessa de patrocínio… Mas isso varia muito, sabe? Quando você tem um carnavalesco que tem uma força muito grande na engrenagem das escolas, tipo, o Leandro Vieira, o carnavalesco da Mangueira que revolucionou o desfile em 2019, e que agora está na Imperatriz Leopoldinense. Ele tem a marra de conseguir colocar o tema dele. A marra boa, no caso. E, além de tudo, ele é o enredista dele mesmo. Ou seja, ele escreve o tema, bola as fantasias, e convence o presidente que a ideia dele é boa.

Há outros carnavalescos que não têm essa força toda. O que acontece normalmente na escola de samba é ter alguma dificuldade financeira depois do carnaval. Como ela não tem aquele capital circulante, ela não tem capital de giro, ela precisa se capitalizar. Então, elas se comprometem. ‘Olha, eu vou te dar aqui um patrocínio de R$ 2 milhões em maio para você falar do iogurte’. E as escolas de samba acabam fazendo um enredo sobre o iogurte…

Normalmente, o enredo é decidido na altura de abril e maio por um, digamos, conselhão formado pelo carnavalesco, o presidente, e agora com uma figura nova que é o enredista, um pesquisador que acompanha alguns carnavalescos.

Capa do livro Pra tudo começar na quinta-feira – o enredo dos enredos, dos escritores Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato. Foto: Mórula Editorial/Divulgação

Luiz Antonio Simas: No passado, o carnavalesco propunha o enredo. O que a gente entende como sinopse era algo muito mais simples, diga-se de passagem. E muitas vezes o samba que a escola escolhia acabava repercutindo em transformações que a sinopse ganhava e o próprio espetáculo visual passava a ter.

Como esse processo foi se transformando, essa dinâmica ficou mais complexa e passou a contar com outros personagens. Por exemplo, a figura do pesquisador, a figura do sujeito que escreve a sinopse. Mas há carnavalescos que continuam sem abrir mão da iniciativa de escrever a sinopse. E tem outra coisa: já aconteceu muito de escolas de samba mudarem de enredo aos 43 minutos do segundo tempo. Não existe um modelão.

Agência Brasil: Quão decisivos são os enredos? Enredo ganha carnaval? Enredo perde carnaval?

Fábio Fabato: Sim, mas o jogo é jogado na avenida. O enredo pode jogar fora um desfile, como também um grande enredo deixa a comunidade feliz. Você percebe de cara que a comunidade se encanta com aquilo, que vai abraçar o enredo. Uma escolha certeira ajuda muito no processo.

Luiz Antonio Simas: O enredo é um quesito que tem transversalidade. Ele contamina todos os outros.

Um bom enredo abre possibilidades para ter um trabalho plástico, por exemplo, de melhor qualidade. Pode condicionar a criação de um samba mais consistente. É muito mais fácil compor o samba quando há um enredo bom.

Se você faz um samba mais consistente isso favorece a sua harmonia… Ter um bom enredo é meio caminho andado.

Agência Brasil: Aprendemos história com os enredos? Que história se aprende nos enredos?

Luiz Antonio Simas: Aprendemos, é evidente que aprendemos.

Aprendemos histórias que uma certa grande história oficial não contava, não contou e hoje começa a contar, né? As escolas de samba têm um papel pedagógico, de pedagogia das massas. Então, a escola de samba acabou cumprindo um papel que muitas vezes a escola institucional não cumpria.

Quando você pensa que o Salgueiro trouxe Quilombo dos Palmares, em 1960, e Zumbi dos Palmares não era um personagem falado em sala de aula. O próprio Salgueiro trouxe Xica da Silva [em 1963]. Ela não era uma personagem falada em sala de aula. A Viradouro trouxe ‘Teresa de Benguela, uma Rainha Negra no Pantanal’, ela não era uma personagem falada em sala de aula. O enredo que o Leandro Vieira propôs para Mangueira no Carnaval de 2019, [História para ninar gente grande] responde essa questão. As escolas de samba muitas vezes operaram na dimensão da contranarrativa oficial.

Fábio Fabato: O grande lustre da história tem alguns dos seus penduricalhos apagados. A escola de samba consegue iluminar esses penduricalhos. E a escola de samba ensina a partir de uma lógica de afeto, com o congraçar das artes.

Em um desfile de escola de samba, tem percussão, canto, dança, pintura, escultura. Tem a criação e o trabalho do vidraceiro, do costureiro, do carpinteiro. Há formas infinitas de arte para contar aquela história. O enredo é uma linguagem muito brasileira e muito bem feita. Uma forma que o Brasil inventou para celebrar os seus e celebrar suas histórias.