Reforma ministerial prometida há mais de um ano por Lula começa a sair do papel

Com chegada das eleições, presidente se vê obrigado a mexer peças ministeriais e deve usar trocas para barganhar apoio do Centrão à sua candidatura à reeleição

Reforma ministerial prometida há mais de um ano por Lula começa a sair do papel

Há mais de um ano se discute reformas ministeriais no Palácio do Planalto para dar mais espaço ao Centrão e uma vida mais tranquila ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Congresso Nacional. Desde então, o petista ‘enrolou’, evitou nomear indicados e fez apenas trocas pontuais nas pastas. A reforma mais robusta demorou, mas vai sair. Dessa vez, o petista será obrigado a mexer suas peças, mas deve manter seu estilo centralizado e sem dar espaços ao bloco que pende o apoio ao adversário do atual mandatário no próximo pleito.

Lula já se vê pensando nas eleições de 2026. Ao menos 20 de seus aliados devem se candidatar à cargos públicos neste ano para buscarem as cadeiras de deputados, senador e governador. Eles têm até o dia 6 de abril para decidirem seu futuro.

As mudanças começaram na última semana. A saída do ministro Ricardo Lewandowski, chefe da Justiça e Segurança Pública, já era esperada nos bastidores, embora Lula quisesse prorrogar a despedida do aliado. Para seu lugar, o petista escolheu o advogado Wellington César Lima e Silva, que hoje atua na defesa da Petrobras. Lima e Silva já ocupou a pasta da Justiça por 11 dias, durante a derrocada de Dilma Rousseff, em 2016.

Outro que já prepara suas malas para desembarcar do Planalto é Fernando Haddad, ministro da Fazenda. No fim do ano, o ministro deu o prazo até o começo de fevereiro para deixar a pasta. Embora negue sua candidatura e diga que se empenhará na campanha à reeleição de Lula, Haddad está amplamente cotado para a disputa do governo do Estado de São Paulo ou a uma vaga ao Senado. Tudo dependerá do cenário posto pela oposição, de acordo com interlocutores petistas.

Para seu lugar, o ministro está preparando seu número dois, o secretário-executivo da pasta, Dario Durigan. Ele foi, junto com Bernard Appy, um dos responsáveis pelas negociações que avançaram a reforma tributária no Congresso Nacional. Durigan ainda representou a Fazenda nos debates para o destrave da reforma do Imposto de Renda, a maior vitória do governo Lula III até aqui.

A tropa de choque de Lula também será desfeita nos próximos meses. Além de Haddad, Gleisi Hoffmann, da articulação política, Rui Costa, da Casa Civil, e Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação, deixarão seus postos até abril. A primeira e o segundo se preparam para ser candidatos à Câmara dos Deputados e ao Senado pelo Paraná e Bahia, respectivamente. Já Sidônio retomará a parceria vitoriosa de 2022 e comandará a publicidade da campanha do petista em 2026. O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), sairá da pasta de Indústria e Comércio para tentar retomar a chapa com Lula no próximo ano, mas não está descartada a possibilidade de liderar uma campanha ao Senado ou até mesmo tentar um quinto mandato à frente do Palácio do Bandeirantes, sede do governo de São Paulo.

Senado

A Casa Alta, por sinal, é vista como prioridade para a cúpula aliada a Lula. Com a direita focada no cargo, petistas querem chapas fortes para fazer frente à oposição e conseguir segurar a ampla maioria das cadeiras no Salão Azul. É na Casa que o atual mandatário tem maioria e onde se definem os cargos para autarquias, agências reguladoras e do Supremo Tribunal Federal (STF), que terá ao menos mais duas indicações a serem feitas no próximo mandato presidencial.

Para isso, o governo quer contar com o apoio de pares do Centrão para emplacar a maioria. Aliados da cúpula já começaram a preparar o terreno para as suas saídas e garantiram o drible às resistências dos próprios partidos para apoiar Lula na reeleição. Silvio Costa Filho (Republicanos), de Portos e Aeroportos, quer o apoio do petista para emplacar sua candidatura ao Senado por Pernambuco, enquanto André Fufuca (Progressistas), Esportes, e Simone Tebet (MDB), do Planejamento, querem o mesmo cargo pelo Maranhão e Mato Grosso do Sul (ou São Paulo). O mesmo cenário vive Marina Silva (Rede), do Meio Ambiente, e Alexandre Silveira (PSD), de Minas e Energia, que buscarão o Salão Azul por São Paulo e Minas Gerais.

Já Renan Filho (MDB), dos Transportes, e Camilo Santana (PT), da Educação, devem buscar os governos dos estados de Alagoas e Ceará, respectivamente. Outro que quer uma vaga em executivo estadual é Márcio França (PSB), atualmente chefe da pasta do Empreendedorismo. Ele disputa a preferência com Haddad e Alckmin pela vaga no Bandeirantes, mas não descarta a chance de se candidatar a outro cargo se necessário.

Dos potenciais candidatos em 2026, dois são certeza que ficarão no Palácio do Planalto até o final do ano. Alexandre Padilha, da Saúde, e Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência da República, já anunciaram que não vão disputar o pleito. Eles entraram em acordo com Lula para ficarem até o final do mandado, dando suporte ao governo durante a campanha eleitoral. De quebra, a dupla deverá colaborar com as agendas de Lula em São Paulo. Boulos, inclusive, deve ter posição de protagonismo na campanha petista em 2026, organizando caravanas e tomando a frente das articulações entre o petista e movimentos sociais.

Desde 2023, Lula já fez 15 trocas ministeriais. A primeira aconteceu logo nos primeiros dias de governo, quando o petista demitiu Gonçalves Dias do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) após os ataques de 8 de janeiro. A última troca antes da saída de Lewandowski aconteceu em dezembro do ano passado. Pressionado pelo União Brasil, Lula demitiu Celso Sabino do Ministério do Turismo. Para seu lugar, o petista nomeou Gustavo Feliciano, filho do deputado federal Damião Feliciano (União Brasil-PB).