Empresas familiares representam cerca de 90% dos negócios no Brasil e são responsáveis por mais da metade do Produto Interno Bruto, segundo dados do Sebrae. Apesar da relevância econômica, a maioria ainda opera com estruturas societárias frágeis e planejamento sucessório incompleto.
Estudos do setor indicam que menos de 15% dessas empresas possuem cláusulas sucessórias formalizadas em contrato. Ao mesmo tempo, o ambiente empresarial se torna mais complexo: crescimento da judicialização societária, aumento de disputas familiares e maior exposição a riscos digitais ampliam a vulnerabilidade estrutural desses negócios.
Para Keila, presidente da Valestrá e representante do setor de governança empresarial, o principal desafio não está apenas na sucessão, mas na falta de integração entre estratégia e proteção. “A sucessão ainda é tratada como um evento distante, quando deveria ser vista como variável permanente de risco. Muitas empresas estruturam parte da governança, mas mantêm a proteção patrimonial desconectada das decisões estratégicas”, afirma.
O problema se agrava quando a gestão de riscos é tratada de forma operacional. Raphael Brezzi, presidente da Valestrá Corretora e representante do segmento de gestão de riscos empresariais, observa que instrumentos de proteção ainda são contratados como produtos isolados. “Seguro e garantias não podem ser vistos apenas como apólices. Quando integrados à estratégia, tornam-se instrumentos financeiros que protegem caixa, preservam capital e sustentam decisões de crescimento”, explica.
O cenário ganha ainda mais relevância diante da transição geracional. Pesquisas internacionais mostram que apenas três em cada dez empresas familiares chegam à segunda geração sob o mesmo controle societário, e menos de 15% alcançam a terceira. No Brasil, a informalidade contratual e a centralização das decisões ampliam esse índice de mortalidade empresarial.
Além disso, a digitalização acelerada adicionou novas camadas de exposição. O país permanece entre os líderes em tentativas de ataques cibernéticos na América Latina, segundo relatórios de segurança digital. Vazamentos de dados, responsabilidade civil e risco reputacional passaram a integrar o mapa de ameaças corporativas.
Esse contexto tem impulsionado um movimento de profissionalização. Empresas começam a revisar acordos societários, formalizar protocolos familiares e integrar proteção patrimonial às decisões do C-Level. A criação de unidades especializadas em gestão de riscos, como a recentemente anunciada pela Valestrá, reflete essa tendência de consolidar governança, finanças e proteção em uma leitura única da empresa.
Para Keila, o desafio central é mudar mentalidade. “Crescimento não garante continuidade. Sem estrutura, qualquer evento inesperado pode comprometer anos de construção patrimonial”, avalia.
Raphael reforça que o tema deixou de ser acessório. “Empresas que tratam risco de forma estratégica tendem a atravessar ciclos econômicos com mais estabilidade. As que ignoram essa integração ficam mais expostas a rupturas.”
Em um ambiente de maior complexidade jurídica, tecnológica e sucessória, a perenidade empresarial passa menos por expansão acelerada e mais por capacidade de antecipação. Para especialistas do setor, a integração entre governança e gestão de riscos tende a se consolidar como um dos principais diferenciais competitivos das empresas familiares nos próximos anos.